Uma condensação da entrevista que Carlos Moore concedeu a BUALA.O professor doutor Charles Moore ( Carlos Moore) ministra palestra, em Alagoas, na Sessão Pública: Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo,que acontece na Assembléia Legislativa, como parte integrante do “Ìgbà” - II Seminário Afro-Alagoano: “A África que incomoda” ,dia 13 de maio- Dia Nacional de Denúncia Contra o Racismo e interpreta poesias afro-cubanas no IV Festival das Palavras Pretas que acontece no mesmo dia.A entrada é franqueada ao público e para solicitar inscrição basta mandar um e-mail para raí[email protected]ções: (82)8815-5794/8827-3656.Certificação de 05 horas.

 

Carlos Moore, etnólogo e cientista político cubano, rompeu com o regime de Fidel e lutou pela emancipação de África. Trabalhou com Savimbi, viveu de perto o calvário de Viriato da Cruz, privou com Mário de Andrade e foi angolano por um ano. Na voz e no olhar, preserva o idealismo a que chamam utopia.
Dissidente cubano. O rótulo não lhe pesa?
Há que diferenciar. Em Cuba não houve dissidências só à direita, ao contrário do discurso oficial do regime. Eu sou um dissidente da esquerda cubana. Sou um revolucionário, mas não concordo com o regime instituído. Fidel Castro matou violentamente a Revolução de Cuba no início da década de 70. Durante os primeiros 20 anos, as idéias revolucionárias coexistiam com um regime autoritário e repressivo que tinha colocado o marxismo-leninismo como ideologia do Estado. Eu não concordei com essa identificação.
A sua posição política foi também marcada pela questão racial.
Quando alcançou o poder, em 1959, a pequena-burguesia hispano-cubana negou-se a partilhá-lo com a maioria negra, e serviu-se do marxismo-leninismo da Revolução para camuflar a dominação racial e de classes. Nessa altura, entre 35 a 45% da população era negra. Quatro anos depois, quando Fidel Castro propõe a reforma agrária e outras medidas, a situação inverte-se – cerca de 20% da população branca entra em ruptura com o regime e foge e de repente o regime encara uma maioria negra, com a qual não contava, e que começa a temer. Inicia então uma repressão brutal contra intelectuais negros que alertavam para o grave problema racial que o país vivia, como o historiador e etnólogo Walterio Carbonell. O regime rejeitou continuamente essas chamadas de atenção, dizendo que vivíamos numa democracia racial, o que era mentira.

Diziam que a única cor em Cuba era a “cor cubana”.

Sim, começaram com essa demagogia. A certa altura, baniram as 525 organizações negras do país. O presidente destas chamadas “sociedades de cor”, o sociólogo e revolucionário Juan Betancourt, que teorizara a questão racial cubana ainda antes de Fidel chegar ao poder, pediu então aos dirigentes uma discussão aberta sobre a situação dos negros em Cuba. Acabou exilado e com as obras que escreveu, proibidas.
Qual era o seu enquadramento neste movimento?
Acreditava na Revolução e apenas queria uma oportunidade para discutir o problema com o governo. Mas não havia nenhum interlocutor possível para além de Fidel, que já monopolizava o poder. Ainda assim, em 1961, levei o meu protesto ao chefe do exército, o comandante Juan Almeida Bosque, que também era negro. Acabei preso. Levaram-me para a chamada Villa Marista, onde estive numa cela com perto de 30 pessoas, que iam sendo levadas, noite após noite, para serem fuziladas. Estive 28 dias à espera de ser morto, e só escapei porque na altura trabalhava com um grande dirigente dos direitos civis dos Estados Unidos, Robert Williams, que estava a viver em Cuba sob a protecção de Fidel Castro. Quando ele soube que eu estava preso moveu os contactos junto do chefe da Contra-Inteligência cubana, Manuel Piñero Losada, e acabei por ser libertado.
Mas continuou a forçar o diálogo com Fidel.
Tinha de continuar. Um dia, em 1962, estava numa rua de Havana quando os carros de Fidel pararam no outro lado da rua. Impulsivamente comecei a correr. A segurança ia atirar sobre mim, mas Fidel impediu-a. Perguntou-me: “Quem és tu?” Respondi-lhe que fazia parte de um grupo de intelectuais revolucionários que não estavam de acordo com a forma como ele colocava a questão racial. Ficou colérico e disse-me para ir ao escritório dele e levar as nossas preocupações num papel e uma lista com toda a gente envolvida. Não demos os nomes. Fomos recebidos pelo seu braço direito, Celia Sanchez, que leu o nosso manifesto. No dia a seguir estávamos presos.(...)