Após a prisão de dois fornecedores de armamento e drogas para o tráfico da Rocinha, a Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos da Polícia Civil do Rio (DRAE) revelou que a logística dos criminosos permitia a entrada de até oito fuzis na favela a cada 20 dias. Os traficantes, que negociavam armamentos provenientes da Bolívia e do Paraguai, foram presos ao tratar da venda de granadas, munições e fuzis diretamente com pessoas ligadas a Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, considerado o chefe do tráfico na favela de São Conrado.

A prisão de Luiz Cláudio Carvalho Rodrigues, conhecido como Coroa, realizada na última quarta-feira, em Foz do Iguaçu (PR), levou a polícia a uma lista na qual o fornecedor apresentava o valor e a quantidade dos armamentos a serem transportados até o Rio de Janeiro. Cada fuzil de Coroa custava R$ 55 mil aos traficantes, que solicitavam oito a um total de R$ 440 mil. Ele pretendia ainda enviar 14 mil munições, avaliadas a R$ 71 mil e um carregamento de 2 t de maconha, avaliado em R$ 187,5 mil.

As investigações da DRAE também levaram a Antônio Ezequias Gura, conhecido como Gordo. Ele foi preso, na última quarta-feira, juntamente com Carlos Vinícius Braga dos Santos, o Cafu. Gordo negociava a venda de armas diretamente com Cafu, que é subordinado de Nem. Os dois foram presos em Foz do Iguaçu. De acordo com a polícia, Gordo negociava a venda de 20kg de cocaína a R$ 190 mil e de dois fuzis a R$ 100 mil.

As investigações revelam que os traficantes eram capazes de enviar os armamentos e drogas 20 dias após o pedido ser realizado. Segundo Alan Turnowsky, chefe da Polícia Civil, não é possível dimensionar a quantidade de fuzis existentes na Rocinha, mas ele admite que o fluxo de entrada era grande, já que a favela serve de entreposto para outros morros comandados pela mesma facção criminosa. Para Turnowsky, as prisões servem para o enfraquecimento da quadrilha da Rocinha e favorecem futuras pacificações: "É possível afirmar que com essas prisões, evitamos a entrada de centenas de fuzis, pistolas, granadas e metralhadoras. Isso facilita as nossas operações e até mesmo as nossas pacificações", afirmou.

Apelidada de Operação OCP pela Polícia Civil, as investigações levaram à prisão de outras três pessoas. Ricardo de Andrade, o Robocop, foi preso no bairro de Botafogo, no Rio. Ele seria o elo de ligação entre um dos homens fortes de Nem, identificado como Abelardo Giovani, o Bel, e um dos fornecedores. Bel, assim como Rúbia Maria Soares, a Coração, também ligada a Nem, continuam foragidos. Flávio Fenandes da Silva e Eduardo de Souza Lima já haviam sido presos no Paraná e foram identificados como sendo transportadores das quadrilhas.

De acordo com a delegada responsável pelas investigações, Márcia Becker, as prisões de Gordo e Coroa, sem que estivessem em posse dos armamentos, ocorreu para que fosse evitado o risco de o carregamento entrar no país. Segundo ela, o despiste da polícia é facilitado pela forma como os traficantes normalmente transportam o armamento, escondidos em compartimentos especiais em carros de médio porte. Márcia afirma ainda que os traficantes estão evitando a rota tradicional (BR-277, BR-116).

"Optamos pela prisão antes que eles pudessem escapar ou que o armamento pudesse entrar no país", afirmou.