Um dia depois do anúncio do grupo separatista ETA de que interromperia as ações armadas na luta pela independência do País Basco na Espanha, as reações do governo espanhol oscilaram entre a dúvida e o ceticismo, graças principalmente à falta de detalhes sobre a trégua da organização, classificada como terrorista por Estados Unidos e União Europeia (UE).
O ministro do Interior da Espanha, Alfredo Pérez Rubalcaba, disse em entrevista à TVE que o cessar-fogo do ETA (Euskadi ta Askatasuna - Pátria Basca e Liberdade) é insuficiente.
- O anúncio é insuficiente. O ETA tem que deixar a violência de todo, para sempre.
O governo socialista espanhol declarou estar "cético" em relação à trégua do grupo basco, e os partidos políticos também qualificaram de "insuficiente" o anúncio, que não detalha o tempo de duração do cessar-fogo nem se o ETA abandona definitivamente as armas.
Para Rubalcaba, o tempo de luta do ETA acabou, e o grupo deve abandonar definitivamente as ações armadas.
- O essencial é que temos que dizer ao ETA: "Acabou, ou deixa [as armas] ou te faremos deixar".
Grupo matou mais de 800 pessoas
O ETA é um grupo de esquerda que adotou a violência para obter a independência do País Basco, no norte da Espanha. O governo espanhol estima que a organização tenha matado mais de 800 pessoas em cerca de 1.600 ataques terroristas.
Desde a década de 1960, dezenas de ataques com carros-bomba e outras ações terroristas deixaram a Espanha em constante alerta. Nos últimos anos, no entanto, o ETA perdeu apoio popular, mesmo entre muitos bascos, e o número de atentados diminuiu consideravelmente.
O Ministro do Interior da Espanha destacou que, apesar do anúncio de trégua, o governo não pretende mudar a política antiterrorista.
- Não vamos mudar nem um pouco, nem uma vírgula, nossa política antiterrorista. Queremos que o ETA deixe a violência. Enquanto não romper com a violência, não vai entrar nas instituições.
O movimento separatista armado basco deseja criar um partido político para disputar as eleições municipais de 2011 no País Basco e em Navarra (norte), mas o ministro advertiu que, "com o ETA ao lado, não vão entrar nas instituições".
Bascos também reagem com ceticismo
O presidente regional basco, o socialista Patxi López, considerou nesta segunda-feira que o anúncio do ETA é "insuficiente" e afirmou que "a bola continua em seu telhado".
- São eles que têm que adotar a decisão de entregar definitivamente as armas.
Para López, a trégua "não dá resposta à demanda da sociedade basca para que o ETA desapareça definitivamente.
O cessar-fogo da ETA acontece após mais de um ano sem atentados mortais e com um grupo terrorista muito debilitado e acossado em todas as frentes - policial, judicial e política - não só na Espanha, mas também na França e em Portugal.
O anúncio do ETA também ocorre no momento em que o Batasuna - o braço político da organização armada - pede um cessar-fogo "permanente e verificável internacionalmente".
Na mensagem deste domingo, o grupo armado basco pede à comunidade internacional que "tome parte na articulação de uma solução duradoura, justa e democrática para este secular conflito político".