Socializando....

...segue abaixo o texto de Luíza Bairros ( para que não a conhece : Luíza Bairros é uma das fundadoras do Movimento Negro no Brasil ,para resumir Luíza Bairros está pro Brasil como Ângela Davis está pros Estados Unidos e toda organização de esquerda.
Fundadora do MNU Movimento Negro Unificado ... nao quero me estender em sua apresentação , pois há possibilidades de conhecer seu histórico através dos meios virtuais.
desejo aqui um pouco da minha dor pela perda prematura do companheiro de Luta Magno que pude conhecer de perto através da luta do Movimento Negro no Brasil.
e gostaria de socializar esse texto de Luiza Bairros que quem é Magno Cruz...
abraços ainda que tristonho.
Marcos Romão


Sobre perdas e ganhos

Assim como vocês, ainda estou impactada e triste com a partida de Magno. Mas, de
algum modo, também me sinto reconfortada com as homenagens que ele recebeu nas
cerimônias de despedida. Espero poder compartilhar com vocês este sentimento.
A ida a São Luís para o adeus a um amigo de tanto tempo me permitiu testemunhar as
cenas mais lindas/emocionantes que já vi até hoje de respeito pela trajetória de um
militante do Movimento Negro. E já perdemos várias/os do maior valor!
Na viagem de volta a Salvador, pensei muito no que disse José Correia Leite, sobre os
tempos de militância na Frente Negra Brasileira. Sem mágoas, ele constatava que só
tinha conseguido o reconhecimento, a confiança no trabalho que realizava na
comunidade negra lá pelos anos 50, três décadas depois de ter se dedicado a inúmeras
iniciativas de combate à discriminação e de organização dos negros na cidade de São
Paulo.
Para minha alegria, depois de tudo que vi, concluo que Magno pôde experimentar este
reconhecimento ainda em vida. Só assim consigo explicar toda a mobilização causada
por sua prematura partida. As manifestações que vi e que me foram contadas não
poderiam ser improvisadas apenas em função de sentimentos que nos movem diante
da morte de alguém. Não reproduziam o que muitos consideram ser um espasmo da
influência cristã em nossa cultura. O que Magno recebeu dos maranhenses, ontem, dia
04 de agosto de 2010, foi fruto de algo mais profundo, reconhecido por todos ao longo
de sua vida. Estou certa disso!
Era de se esperar que o Centro de Cultura Negra do Maranhão/CCN e o Akomabu
estivessem presentes, como estiveram, desde que a doença se anunciou até o seu
desfecho. Mas, além destas organizações, que Magno ajudou a criar e a se manter,
também se mobilizaram, entre muitos outros, os quilombolas, os sindicalistas
urbanitários, os movimentos pelos direitos humanos, os em defesa das crianças e das
mulheres, as rádios comunitárias, o povo do reggae, do hip hop, da pastoral, os
sanfoneiros. Todas as tribos lamentando igualmente, relembrando como Magno
participou de lutas importantes seja enfrentando a repressão, escrevendo um cordel,
um roteiro de programa de rádio, seja defendendo em reuniões e assembléias as
posturas mais coerentes que acabavam por inibir qualquer tentativa de manipulação.
Também testemunharam como, muitas vezes, Magno “falava” bem alto com o seu
silêncio.
Mas, não apenas os politicamente organizados participaram das despedidas. Talvez
por intuírem que eu não era de São Luís, ao longo do cortejo, alguns se aproximaram
para contar como tinham sido ajudados por Magno e sua família no enfrentamento de
dramas pessoais. Estes indivíduos souberam da noticia pela TV. Nem a afiliada local
da rede Globo pôde ignorar tamanha perda, tendo, na seqüência, que levar ao ar uma
matéria sobre o sepultamento!
Para mim, o momento também foi de conhecer a família de Magno, da qual ele tanto se
orgulhava e na qual era super presente, ao contrário do que ocorre com muitos
militantes homens. Foi de reencontrar a antiga militância do Maranhão, que colocou o
Movimento Negro no caminho das lutas quilombolas, que sustentou a idéia dos
Encontros de Negros do Norte e Nordeste e, felizmente, continua se renovando.
Trocamos muitas promessas de nos procurar mais, de saber mais umas das outras,
para além dos compromissos que sempre utilizamos como desculpa. Escondido em
algum lugar, o sentimento de que fazemos parte de uma geração que está
desaparecendo fisicamente. E desaparecendo cedo demais, no auge da maturidade!
Para quem considera que o Movimento Negro não produziu líderes no Brasil, ficam
aqui estes pedaços de pensamento que, espero, nos ajudem a saber: de que matéria é
feita uma liderança, nas condições em que se desenvolvem as nossas lutas?
Aprendemos com o CCN uma música cujo refrão pergunta Que bandeira é aquela? E
responde É Luther King, é Zumbi, Nelson Mandela. Que se dane a métrica, a resposta temque ser É Magno Cruz, é Luther King, é Zumbi, Nelson Mandela.
Luiza Bairros
Salvador, 05 de agosto de 2010.