Os Estados Unidos esperam que o Irã "escute" a oferta do Brasil de receber em asilo uma mulher condenada à morte por apedrejamento, indicou nesta segunda-feira o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Philip Crowley.
“Se o Brasil está disposto a aceitar essa mulher, esperamos que o Irã considere isso como um gesto humanitário”, afirmou o porta-voz.
Questionado se o papel de mediador humanitário seria mais adequado ao Brasil do que o papel de mediador na questão nuclear iraniana, Crowley respondeu que se trata de questões distintas.
“Este é um caso que atraiu a atenção da comunidade internacional. E depois que o Brasil se envolveu e manifestou sua vontade de tentar resolvê-lo, cabe esperar que o Irã escute”, respondeu.
O porta-voz declarou ainda que “morte por apedrejamento no século 21 é um ato de barbaridade e deveria ser proibida”.
Sakineh, de 43 anos e mãe de dois filhos, foi condenada inicialmente a receber 99 chicotadas. Depois de receber essa punição, sua pena foi transformada em morte por apedrejamento.
A iraniana foi declarada culpada de ter tido "relações ilícitas" com dois homens em 2006 e está presa desde então. Várias campanhas internacionais defendem sua libertação e a anulação da condenação de apedrejamento.
Asilo no Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou no sábado (31) que o Brasil está disposto a oferecer asilo a Sakineh Muhamadi-Ashtiani, uma mulher de 43 anos que foi condenada à morte por apedrejamento no Irã por ter cometido adultério.
"Apelo ao líder supremo do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que permita ao Brasil conceder asilo a esta mulher", disse o presidente durante comício da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, em Curitiba.
"Se vale a minha amizade com o presidente do Irã e se ela [a mulher condenada] estiver causando incômodo lá, nós a receberemos no Brasil de bom grado", disse Lula, acrescentando que vai telefonar para o iraniano e conversar sobre o assunto.
"Acho que nada justifica o Estado tirar a vida de alguém. Só Deus pode fazer isso", acrescentou o presidente.
Repercussão
De acordo com a BBC Brasil, a proposta brasileira de conceder asilo a Ashtiani divide opiniões no Irã. Por um lado, recebeu apoio de ativistas que defendem os direitos humanos no Irã, mas foi criticada por setores mais conservadores ligados ao governo do país.
"A oferta do presidente do Brasil a Ashtiani e sua família foi um passo muito positivo e é bem-vindo. No entanto, espero que isso crie uma pressão pelo fim de sentenças de morte por apedrejamento", disse à BBC a iraniana Mina Ahadi, coordenadora do Comitê Internacional Contra Apedrejamento, entidade que vem fazendo uma campanha pela liberdade de Ashtiani.
"Eu conversei com o filho dela e outros familiares sobre a oferta do Brasil. Eles ficaram muito contentes e esperançosos. Esperamos que a notícia seja dada a Ashtiani ainda nesta segunda-feira", explicou a ativista, que também coordena uma campanha com assinaturas na internet em prol da iraniana.
O governo iraniano ainda não fez uma declaração oficial sobre se aceita a proposta de Lula, mas o site Jahan News, ligado à Guarda Revolucionária do Irã, fez críticas à posição do presidente brasileiro, acusando-o de interferir nas questões internas do país.
"O presidente brasileiro está sob a influência da propaganda ocidental... e interferiu nos assuntos internos do Irã", diz um texto no site.
