Já tenho experiência suficiente para alertar meus jovens alunos sobre os perigos da advocacia. Essa bela atividade tem um lado problemático. Por estar sempre perto do poder e contar com a presunção de inocência, a advocacia pode estar a serviço das maiores perversões. Só me lembro do filme “Advogado do Diabo”. Qual era a profissão do capeta?

Tomem cuidado no início de sua vida profissional. A sedução da corrupção aparece a todo o momento. E como tudo que encarna o mal, a tentação vem sempre disfarçada de coisa boa e com ares de normalidade. Ninguém chega para o advogado e diz: “Ei, vamos ali promover um ato de corrupção?”. Ou então: “Olha, estou indo agora formar bando ou quadrilha, você quer entrar?”. Eles não chamam os atos pelo nome que têm e esperam, com isso, que achemos tudo muito corriqueiro. Esses atos são feitos na maior normalidade e, pelo visto, são encarados como parte integrante da própria advocacia. Contam com uma recompensa imediata bem sedutora: o dinheiro. Faz parte do jogo.

A advocacia, que tem seu papel na democracia, é muitas vezes confundida com licença para defender absurdos. Trata-se da visão equivocada de que, para defender o cliente, o advogado pode tudo. Às vezes isso passa pela mentira e a chicana processual, e, muitas vezes vai mais além. O advogado corrupto vai sempre se esquivar a apontar para o juiz. É o espírito corporativista que, nessas horas, é a única defesa do bandido.

Os advogados que praticam esse tipo de ato pensam que estão apenas numa espécie de jogo de poder. Eles pensam: “enquanto os idiotas acham que as decisões se dão com base na lei, vamos torcer o conteúdo da norma. Com isso, justificaremos qualquer decisão”. Ora, se a lei pode ser interpretada de qualquer jeito, então qualquer decisão seria justificável.

Não é que a corrupção se dê somente em casos de decisões esdrúxulas. Pelo contrário, muitas vezes a decisão é justificável, mas foi motivada pelo dinheiro. Aliás, essa é a essência do esquema: criar dificuldades para vender facilidades.

Advogados que não apelam a esse expediente são tidos como ingênuos. Ou pior, são tidos como aqueles que não conseguem ter acesso ao esquema. Sendo assim, quem está dentro é somente mais esperto que os outros. Num mundo em guerra, eles se sobressaem como sendo os mais fortes e querem levar você junto. Para o advogado novato, estar perto do poder pode parecer um privilégio.

Esses senhores estão completamente alheios a uma advocacia que funciona dentro da lei. Mas ela existe em Alagoas. Não são poucos os advogados que se formaram comigo e, hoje, estão muito bem de vida. Trabalhando com afinco e sem recorrer a ilegalidades, eles conseguem ser referência na advocacia pelo profissionalismo e não pelo lobby. E ainda ganham dinheiro! Ademais, não correm o risco de passar a noite na cadeia e ver suas entranhas expostas à sociedade.

É bom ter vergonha. Resistam às tentações e cumpram com seu dever moral e jurídico. Procurem defender seu cliente dentro da lei, nunca fora dela. Tenho certeza que isso será bem mais gratificante e bem menos arriscado também. É melhor do que descobrir que não se deve roubar passando a noite na cadeia.


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