Em meio ao impasse por uma solução negociada à crise, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, cobrou uma ação mais "enérgica" da comunidade internacional e principalmente da ONU (Organização das Nações Unidas) contra o governo interino e a favor de um diálogo. Segundo Zelaya, que está desde 21 de setembro abrigado na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, afirmou que sanções comerciais impostas pela organização poderiam resolver a crise política hondurenha que dura mais de três meses em "24 horas".

"Se for fechada apenas esta válvula, este golpe se reverterá em 24 horas", afirmou Zelaya, que já havia feito declarações semelhantes para os Estados Unidos, principal parceiro comercial do país centro-americano.

"Há um desafio à comunidade internacional. Europa, Estados Unidos e América Latina devem levar mais a sério o que está acontecendo em Honduras", disse Zelaya, que voltou clandestinamente a Honduras para, segundo o próprio, um diálogo direto com o presidente interino Roberto Micheletti.

Em entrevista ao canal Telesur nesta terça-feira, Zelaya ainda definiu como "infelizes" e "grosseiras" as declarações do embaixador dos EUA na OEA (Organização dos Estados Americanos), Lewis Amselem, que disse na véspera que o retorno do mandatário a Honduras foi "irresponsável".

O presidente deposto criticou ainda as eleições presidenciais marcadas para 29 de novembro, sob decreto de estado de exceção decretado pelo governo interino em 27 de setembro.

"Com a supressão dos meios opositores, sem liberdade de participação igualitária e com repressão, acredito que as eleições estão conduzindo a uma crise maior, a menos que queiram eleições como as do Afeganistão", ironizou, diante do fechamento dos meios de comunicação de oposição Rádio Globo e Canal 36.

A Rádio Globo anunciou a retomada da transmissão pela internet nesta terça-feira, um dia depois de o governo interino de Honduras fechá-la a força.

O diretor da rádio, David Romero, reivindicou uma grande audiência on-line, mas admitiu que a emissora não poderá manter seu alcance tradicional.

Histórico

Zelaya voltou a Honduras quase três meses depois de ser expulso. Nas primeiras horas do dia 28 de junho, dia em que pretendia realizar uma consulta popular sobre mudanças constitucionais que havia sido considerada ilegal pela Justiça, ele foi detido por militares, com apoio da Suprema Corte e do Congresso, sob a alegação de que visava a infringir a Constituição ao tentar passar por cima da cláusula pétrea que impede reeleições no país.

O presidente deposto, cujo mandato termina no início do próximo ano, nega que pretendesse continuar no poder e se apoia na rejeição internacional ao que é amplamente considerado um golpe de Estado --e no auxílio financeiro, político e logístico do presidente venezuelano -- para desafiar a autoridade do presidente interino e retomar o poder.

Isolado internacionalmente, o presidente interino resistiu à pressão externa para que Zelaya fosse restituído e governou um país aparentemente dividido em relação à destituição, mas com uma elite política e militar --além da cúpula da Igreja Católica-- unida até esta semana em torno da interpretação de que houve uma sucessão legítima de poder e de que a Presidência será passada de Micheletti apenas ao presidente eleito em novembro. As eleições estavam marcadas antes da deposição, e nem o presidente interino nem o deposto são candidatos.

Mas o retorno de Zelaya aumentou a pressão internacional sobre o governo interino, alimentou uma onda de protestos que desafiaram um toque de recolher nacional e fez da crise hondurenha um dos temas da Assembleia Geral da ONU, reunida em Nova York neste mês. A ONU suspendeu um acordo de cooperação com o tribunal eleitoral hondurenho e a OEA planeja a viagem de uma delegação diplomática a Honduras para tentar negociar uma saída para o impasse.

Além disso, a coesão da elite hondurenha começou a apresentar sinais de desgaste desde a semana passada, e os protestos em favor do governo interino, comuns no início da crise, passaram a ser superados de longe, em número e volume, pelas manifestações pró-Zelaya, que desafiaram os toques de recolher e o estado de exceção.

Pelo menos três pessoas morreram em manifestações de simpatizantes de Zelaya reprimidas pelas forças de segurança, mas o grupo pró-Zelaya diz que até dez pessoas podem ter morrido.