Nem as queixas na Delegacia da Mulher, nem a decisão judicial de que permanecesse afastado pelo menos cem metros da ex-companheira, nem a proibição de entrar no prédio onde ela morava. Nada impediu que o taxista Francisco Vitorino dos Santos Junior, 37 anos, transformasse ontem a dona de casa Andréa Karla de França, 42, em mais uma vítima de crime passional e em mais um ponto na estatística que torna Pernambuco um dos estados líderes no país da violência contra a mulher. Somente neste ano, de janeiro a julho, 171 mulheres foram assassinadas, dez a mais do que no mesmo período de 2008.

Os 13 golpes desferidos por Francisco Vitorino com uma faca de caça nos braços, tronco e costas de Andréa Karla, dentro do apartamento dela, no Edifício Praia do Porto, na Rua José Hipólito Cardoso, no bairro de Setúbal, Zona Sul do Recife, se enquadram nas ações de quem confia na impunidade, mesmo que o taxista, depois de cometer o crime, tenha resolvido se atirar do quarto andar. Das 171 mulheres assassinadas em 2009, 38,46% foram vítimas de crimes passionais.

Graças às campanhas de incentivo de denúncias e a entrada em vigor da Lei Maria da Penha, o número de denúncias contra homens violentos cresceu nas nove delegacias da Mulher existentes no estado (três delas funcionam em regime de plantão). Mais de cinco mil ocorrências foram registradas nos primeiros sete meses deste ano e 528 homens foram presos. Andréa Karla fez o que deveria ter feito. Prestou queixa contra o ex-companheiro violento, que já tinha antecedentes de agressão física e tentou começar vida nova com outra pessoa. Poderia até, como medida extrema, ter solicitado a sua inclusão em um programa de proteção, mas achava que estava segura.

Ela não esperava que, na manhã de ontem, Francisco Vitorino resolvesse invadir seu prédio. Por volta das 8h30, o taxista tentou quebrar a porta de vidro da portaria. "Ele deu quatro chutes e não conseguiu quebrar. Então decidiu pular a grade", contou o subsíndico Antônio Pedro de Araújo, 49 anos. O porteiro ainda tentou interfonar para Andréa, mas foi rendido.

Ao chegar ao quarto andar, Francisco Vitorino arrombou a porta do apartamento de Andréa Karla. A aposentada Lúcia Sial, vizinha da vítima, estava sentada na sala, tomando café da manhã e vendo TV. "Ele gritava muito alto e chamava muito palavrão. O tempo todo ele empurrava ela para dentro do quarto e ela tentava sair. De repente, ele começou a quebrar todos os objetos da casa. Eu fiquei nervosa e pedi para minha nora fechar a cortina".

A delegada que investiga o caso, Josineide Confessor, afirmou que houve luta corporal entre o casal. "Há indícios de que ela tentou se defender". Depois de matar Andréa, Francisco quebrou o vidro da janela e subiu na caixa do ar-condicionado, com a faca na mão. "Ele ficou dançando, dizendo que iria se matar. Fechei a cortina", disse a estudante Adriana Pimentel, 21. Quando abriu novamente, o corpo do taxista já estava no estacionamento.