A companheira Emanuelle, aqui da redação do cadaminuto, perguntou se eu acreditava na volta da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Confesso que fiquei indiferente quanto ao imbróglio com o Supremo Tribunal Federal – que derrubou a obrigatoriedade e não o diploma. Não soube responder à Emanuelle.

Talvez, essa indiferença e essa incapacidade de responder à pergunta devam-se ao fato de a lei que regulamentou a profissão em 1969 ser um entulho autoritário do regime militar – que agradou a esquerda e a direita; pelo menos nessa questão esquerda e  direita se uniram na aprovação da lei marginal. Nunca entendi como não cuidaram de tornar legal o que é entulho autoritário; com a lei, o regime militar não visou proteger o jornalista e sim controlar o profissional nas redações. Apenas isto.

Contudo, a pergunta da Emanuelle levou-me à reflexão e descobri que existem três tipos de jornalistas:

1) O jornalista por formação – aquele que cursa faculdade.

2) O jornalista por vocação – aquele que já nasce jornalista.

3) O jornalista por acaso – que sou eu, na verdade mero troca-letras.

Aos 12 anos de idade ajudava o Tenório, meu pai, a editar a Voz do Ferroviário do Nordeste, juntamente com o hoje procurador de Justiça Luciano Chagas – que na época era um jovem, filho do seu Claudino, um dos diretores da Rede Ferroviária em Alagoas. A ajuda era mínima, claro, e limitava-se a passar à máquina de escrever o que os colaboradores escreviam até em papel de embrulhar pão. Tornei-me dedógrafo e dizem que sou rápido. Pudera!

O jornal era editado em Maceió, mas circulava em toda regional da Refesa no Nordeste, chegando até Fortaleza. Gostava de ler os artigos do Jota Jota, que era mecânico na oficina da Refesa em Jaboatão e meu pai contava que, em São José do Egito, se vestiu de padre para combater o padre local que fazia campanha contra a candidatura de Miguel Arraes ao governo de Pernambuco. Jota Jota era do Partidão e Jaboatão era conhecida como a Moscozinho do Nordeste.

Em 1964, aos 13 anos de idade, o susto! O golpe militar acabou com o sonho das reformas de base e de um governo socialista, e também com A Voz do Ferroviário do Nordeste. Fiquei sem entender a cena com meu pai e meu avô destruindo os arquivos e queimando a coleção do jornal, especialmente a edição que tratava do Congresso dos Ferroviários, realizado em Fortaleza, em 1963. Meu pai escrevia uma coluna sob o pseudônimo Zé do Alicate e, numa nota, enaltecia a posição de Jaime Miranda – que participou do Congresso e tratou de acalmar os exaltados que pregavam a luta armada.

Aos 12 anos meu pai me fez ler o primeiro romance; foi o livro Curral Novo, de Adalberon Cavalcante Lins, cujo exemplar guardo comigo até hoje, e um monólogo com Procópio Ferreira chamado As mãos de Eurides. Mas, no lugar de o romance me despertar para o jornalismo, despertou-me para a Agronomia. Nunca neguei que sou agrônomo frustrado.

Preparei-me para fazer o vestibular de Agronomia na Paraíba, combinado com Helena, minha primeira grande paixão e hoje professora aposentada da Universidade Rural de Pernambuco e pesquisadora da Embrapa. Foi aí que conheci o saudoso Freitas Neto. Em 1974, o engenheiro Dilton Simões foi indicado prefeito de Maceió e convidou o Freitas para assessor de imprensa. O Freitas era correspondente do Estado de São Paulo e indicou-me para substituí-lo. A oferta era tentadora: remuneração mensal equivalente hoje a dez salários-mínimos; telex e telefone em casa, seguro saúde e ressarcimento de despesas para deslocamentos além da área urbana de Maceió.

Não resisti. Também não esqueci a Agronomia. Em 1975 passei em Economia, na Ufal, pensando em me especializar em Economia Rural e ganhar tempo, até terminar o mandato do prefeito Dilton Simões – quando o Freitas reassumiria a correspondência do Estadão. Mas, qual o quê! No dia 5 de fevereiro de 1977 fui surpreendido pelo Freitas e pelo Márcio Canuto, que era editor da Gazeta. Os dois mandavam que eu fosse à Dreamar Turismo, na Rua Boa Vista, pegar a passagem de avião e me apresentar no dia 7 no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

Fiquei perplexo. Nunca imaginei uma situação dessas. Estava contratado como repórter do Jornal do Brasil, com as mesmas condições do Estadão e mais o estágio anual no mês de outubro, quando passava 30 dias no Rio morando na Maria Quitéria, hoje Vinicius de Moraes, em Ipanema. Pense na mordomia! Fiquei 12 anos no JB.

Mas, confesso, continuo pensando na Agronomia. O manuseio com a terra me fascina mais do que com as letras. Deus, muito bom comigo, deu-me a oportunidade de eliminar parte da frustração de não ter sido agrônomo – meu filho Nelson está se formando em Agronomia. E a Helena, que conheci em Peixinhos, Olinda, e reencontrei pela Internet, me deu forças para tentar eliminar a outra parte dizendo-me que teve aluno com mais de 50 anos de idade.

Pois é; já que estou aposentado como troca-letras; já que sou troca-letras por acaso, quem sabe a terra por acaso também não pode ganhar um agrônomo?