Meu pai não bebia e não fumava. Bebia na verdade quatro cervejas Malzebier por ano: duas na véspera do Natal e duas na véspera do Ano Novo. Morava e faleceu em Recife, de edema pulmonar, aos 53 anos de idade, depois do jogo Flamengo 1 e Náutico 1, no Maracanã, num sábado, dia 14 de fevereiro de 1981.
Na época, a venda de combustível encerrava-se às 18 horas do sábado e os postos só reabriam às 6 horas da segunda-feira. Soubemos da noticia só no domingo, porque meu pai foi deitar e não acordou mais.
A notícia foi trazida pelo primo-irmão Ailton Villanova – que estava emocionado e sem jeito de me contar. Ocorre que, ao vê-lo chegar a minha casa eu disse para minha esposa, Nailza, que tinha meu pai também na condição de pai:
- Meu pai morreu! Sinto isso.
- Tá doido?! Vira essa boca pra lá! Reagiu minha esposa.
Não sei o que me ocorreu, se aviso ou intuição, mas o fato é que ajudei ao Ailton a dar a notícia; acho que meu pai era o tio de quem o Ailton mais gostava.
- Vamos buscar o corpo. Disse-lhe.
Onde arranjar combustível, se os postos eram proibidos de funcionar nos finais de semana, esse era o problema. Mas, viajamos assim mesmo na esperança de encontrar a solução no caminho e, de fato, achamos. Ao passar pela Usina Bititinga tivemos a idéia de procurar o gerente e pedir-lhe ajuda – no que fomos atendidos. O gerente da usina mandou encher o tanque com álcool, o que foi suficiente para chegar até o Instituto Médico Legal, no bairro de Santo Amaro, para onde tinham levado meu pai.
No IML aguardamos o médico-legista, que era torcedor do Sport e estava na Ilha do Retiro assistindo ao jogo de seu time predileto – e meu e de meu pai também. Antes de o médico chegar conseguimos autorização para ver o corpo na pedra do IML – e havia lá uns 30 corpos, metade deles vítimas de um acidente com um caminhão tipo pau-de-arara
Quando o médico chegou e atestou a causa morte como tendo sido edema pulmonar, eu fiquei intrigado; meu pai nunca fumou e só bebia aquelas quatro Malzebier por ano, como poderia ter sofrido um edema?!
Soube depois que meu pai, flamenguista doente, não suportou a gozação dos torcedores timbus e foi se deitar emburrado. Naquela partida, o Náutico abriu o placar com um gol do atacante Reinaldo, e só no final de segundo tempo o Flamengo empatou com um gol do lateral-direito Leandro.
Interessante é que, no jogo Flamengo 1 e Náutico 1, realizado no Maracanã na semana passada, às vésperas do Dia dos Pais, o atacante Gilmar abriu o placar e o Flamengo empatou no final com um gol de Léo Moura – que também é lateral-direito.
A história não se repete, mas é muito parecida. Meu pai não pode morrer novamente, nem ressuscitar. Mas, para que a história fique mais parecida ainda é só o Flamengo contratar o Gilmar – porque, em 81, contratou o Reinaldo.
Filho de pernambucanos radicados em Alagoas, meu pai era flamenguista doente. Eu jamais esqueci, aos 6 anos de idade, quando ele identificou para mim o quadro do Mengão tri-campeão carioca pendurado na parede e, em sua homenagem, reproduzo agora: Aníbal, Pavão e Tomires; Dequinha, Jadir e Jordão. Joel, Paulinho, Evaristo, Dida e Zagalo.
Em tempo: apesar de pernambucano, meu pai virou flamenguista porque o Flamengo foi o primeiro clube de futebol do Sul do País com três alagoanos titulares: Tomires, Dida e Zagalo.
Que o Grande Arquiteto do Universo - meu pai foi secretário da Loja Maçônica Grande Oriente do Brasil - continue protegendo o irmão Arnaldo Tenório Vila Nova, maçon grau 33. E proteja o Flamengo também, para que não mate mais o pai de ninguém de edema pulmonar ou do coração.
Feliz Dia dos Pais para todos! Que Deus abençoe todos os pais. Sempre!