Uma decisão polêmica da Justiça determinou
que o bebê que foi jogado num matagal, em dezembro, e encontrado por
pitbull fosse retirado da família adotiva e voltasse a morar na casa da
mãe, que o abandonou poucas horas após dar à luz. Miguel, de sete
meses, teve a guarda provisória entregue aos avós maternos, na
quarta-feira, por ordem da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça.
Duas desembargadoras votaram a favor dos avós, contra o voto de um
colega. A criança morava com os pais adotivos, um casal de advogados,
há três meses, em Sepetiba.
Na casa de dois quartos e uma sala para onde
Miguel foi, residem cinco pessoas, entre elas sua mãe biológica,
Carolina de Souza Castro, 20 anos, e a irmã dela de 16 anos. A irmã foi
quem deixou o recém-nascido numa sacola plástica à beira do Rio
Sapucaí, em Senador Camará, a pedido de Carolina. O bebê foi encontrado
com o cordão umbilical mal cortado e sangrando por pitbull que passeava
com seu dono, o mecânico de refrigeração Rafael dos Santos, 23. “Essa
criança é tudo para a gente. Estamos à base de calmante para suportar a
dor da ida de Miguel”, afirmou, emocionado, o pai adotivo, Carlyle
Machado, 47 anos.
A mãe biológica chegou a ser presa e conseguiu recentemente alvará de
soltura. Ela responde por tentativa de homicídio triplamente
qualificado, com emprego de meio cruel, contra descendente.
Quarta-feira, quando o casal de advogados teve que entregar Miguel,
Carolina estava com os pais. A irmã dela foi recolhida em instituição
de cumprimento de medida socioeducativa e também libertada.
Carlyle e a mulher, Márcia, de 50, conseguiram a guarda de Miguel dia
22 de abril e ficariam com a criança provisoriamente por quatro meses,
por decisão da Vara da Infância de Juventude de Santa Cruz. Eles já têm
uma filha adotiva de 3 anos — abandonada no Hospital Miguel Couto, no
Leblon — e estavam na fila à espera de outra criança desde fevereiro de
2007. “Sou advogado, mas sinceramente não confio na Justiça. Nunca vi
uma decisão como esta”, lamentou Carlyle.
Especialista em Direito de Família critica decisão
O Tribunal de Justiça (TJ) informou que a decisão de dar a guarda à
família biológica levou em consideração o fato de ela ser “idônea”.
Outro argumento é a prioridade dada ao retorno da criança ao lar de
origem. Segundo a assessoria de imprensa do TJ, o pedido dos avós foi
aceito porque o bebê estaria num abrigo. A assessoria, no entanto, não
explicou por que essa informação consta no processo uma vez que o
oficial de Justiça foi ao endereço dos pais adotivos buscar Miguel.
Advogado especialista em Direito de Família, Luiz Vicente Ladeira
Guimarães considera a decisão um erro: “É um absurdo, a adoção estava
consumada. Já havia carinho e afeto dos pais com a criança. Certamente,
eles vão conseguir reverter a medida em outra instância”. Luiz é pai de
uma criança adotada.
Sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva semana passada,
lei acelera e facilita a adoção. As regras entram em vigor em 90 dias e
limitam em 2 anos o tempo máximo de permanência de crianças e
adolescentes em abrigos. A Associação de Magistrados Brasileiros estima
que haja 8 mil menores disponíveis para adoção nesses locais. A
legislação estabelece que os candidatos a pais passem por preparação
prévia.
VIVA VOZ
“Queremos nosso filho de volta. Estamos arrasados”
“Vamos gastar todo o dinheiro que for preciso para ficar com o Miguel.
Se necessário, ficaremos sem nada, mas queremos nosso filho. A casa
está triste, estamos à base de calmantes. Se fosse outro casal,
provavelmente iriam esperar por outra criança. Só que não estamos
trocando lata de salsicha. Estamos falando de um bebê que foi jogado no
mato. Como esses pais que viram a filha grávida e não a ampararam agora
querem cuidar do neto? Eles primeiro teriam que passar valores para
suas filhas não jogarem vidas no lixo.”
Justiça tira bebê de pais adotivos e devolve à família que o rejeitou
08/08/2009, 19:16 - Brasil/Mundo
Por carlinhos
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