Blog do Celio Gomes

Um eleitor chamado “Mercado”

Quem decide a eleição é o voto do eleitor. Mais ou menos. Digo isso porque se os candidatos a presidente dedicam tanto empenho para conquistar a preferência de todos nós, o esforço não é menor para ganhar o apoio de Sua Excelência, o Mercado. Tanto faz se o postulante a governar reza na cartilha do mais romântico marxismo ou é um adepto das firulas neoliberais – sem a confiança do mercado, é bronca. Alguns tentam disfarçar, mas a reverência a essa entidade é a marca de todos.

 

Desde a redemocratização, quando recuperamos o direito de eleger diretamente o governante do país, a cada quatro anos o debate está de volta. Vamos lembrar da primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. Você está cansado de ouvir aquela explicação – mais repetida que a gíria “pistola” hoje em dia: o petista só ganhou a disputa sobre José Serra após publicar a famosa Carta aos Brasileiros. Na real, o nome mais preciso deveria ser Carta ao Mercado. Foi tudo isso mesmo?

 

Não importa. O fato é que a ideia virou uma verdade absoluta. E nas eleições de 2018, quem é o favorito do sistema financeiro? Ninguém assume tal condição. Nenhum dos candidatos, por mais queridinho que seja entre megaempresários e banqueiros, sai do armário para admitir a condição um tanto inconveniente. Todos garantem ao eleitorado que são “independentes”.

 

Quando cai a noite, é outra conversa. De Ciro Gomes a Guilherme Boulos; de Jair Bolsonaro a Marina Silva, os presidenciáveis falam grosso nos palanques para plateias aliadas, mas afinam em sabatinas para o público dono do dinheiro. Por isso, é altamente arriscado cravar certezas sobre as intenções dos que estão aí pedindo o seu voto. Depois da eleição, a surpresa pode ser arrasadora.

 

O caso Marina Silva em 2014 é emblemático. Após assumir a liderança na corrida, com muita chance de vitória, caiu na armadilha do PT. A proposta marinista de um Banco Central independente foi transformada, pela campanha petista na TV, em sinônimo de fome na casa do brasileiro. Em dois tempos, os votos evaporaram. Reeleita, Dilma fez tudo o que condenara em sua adversária.

 

No atual processo eleitoral, a situação mais inusitada é a de Bolsonaro. Ignorante completo em economia, sempre foi um ferrenho defensor do mais jurássico estatismo. Agora, milagrosamente, morrendo de medo das forças ocultas do mercado, virou liberal desde criancinha. Para se enfeitar de moderno candidato do liberalismo, se agarrou a Paulo Guedes, um radical das privatizações.

 

O economista Guedes é um velho amigão de especuladores, sócio de bancos e guru desses antros de lobistas chamados de “consultorias”. O homem foi um dos formuladores do programa de governo de Guilherme Afif Domingos, presidenciável na remota eleição de 1989. Três décadas depois, está de volta como o ideólogo bolsonarista no campo da macroeconomia. Nada de novo no Brasil.

 

Dá pra levar a sério? É claro que não, mas está aí a prova da influência mortal que o tal do mercado exerce nos rumos de uma eleição. Nosso voto é decisivo, não resta dúvida, mas os candidatos se ajoelham mesmo é diante dos senhores da grana. Até o valentão adepto do fuzil e da tortura vira um gatinho manso no colo do sistema financeiro. Direita? Esquerda? Que nada; isso é só fantasia.

Deus não joga bola

Em primeiro lugar, toda honra e toda glória a Nosso Senhor Jesus Cristo. É assim, com esse palavreado entre a alienação, o messianismo e o oba-oba, que jogadores de futebol começam suas entrevistas logo após o jogo. Geralmente, a declaração precede as explicações sobre o êxito obtido no gramado. Se o cara ajudou na vitória com um gol, primeiro vem a saudação à força divina.

 

Essa religiosidade supostamente fervorosa é uma tradição na história do futebol brasileiro. Não sei quando começou, mas especulo que a origem seja por demais remota. Décadas atrás, artilheiros alagoanos deram pra repetir a seguinte explicação esotérica para o eventual sucesso numa partida: “Quem trabalha, Deus ajuda”. O sentido, mais sintético, é o mesmo das palavras de hoje.

 

Nos últimos tempos, as manifestações de fé se tornaram mais ostensivas no jogo – particularmente, claro, depois de um gol. Levantam-se as mãos para os céus, com o olhar fixo também para o alto e, fechando a encenação, trava-se um verdadeiro diálogo entre o goleador e a entidade sobrenatural. Daqui a pouco, os jogadores vão rezar o “Pai Nosso” para comemorar o golaço.

 

Disseminada nos clubes, a rezaria é marca registrada na seleção brasileira. Uma das imagens mais lembradas na trajetória de conquistas em Copas do Mundo é a comemoração de Jairzinho após seus gols nas partidas de 1970. O camisa 7 saía em disparada, já com as mãos para o alto e, na lateral do campo, de joelhos, fazia o sinal da cruz. Acho que é um precussor dos crentes atuais.

 

Em anos anteriores, na seleção, jogadores como Kaká e Lúcio passaram do ponto e tentaram transformar o local de concentração quase em templo religioso. Militantes evangélicos, pretendiam levar pastores para rituais coletivos. Hoje isso é oficialmente proibido pela CBF. O veto foi reafirmado agora mesmo na gestão do técnico Tite. Mas a decisão não diminui a suposta fé da turma.

 

Depois de marcar um dos gols na vitória sobre a Croácia, o coroinha Neymar postou agradecimento a Deus em suas redes sociais. É difícil acreditar que o mercenário deslumbrado pratique em sua rotina bilionária toda essa devoção ao Todo Poderoso. Não combina. É evidente que isso não passa de jogada de marketing. A religião do camisa 10 do Brasil está na igreja da fama e da ostentação.

 

Com o perdão da heresia, por que diabos esses sujeitos acreditam que o pai de Jesus olha, especificamente, para eles? E o adversário? Não merece a mesma atenção do Senhor? Não há nenhuma variável no mundo racional que sustente a crendice verde e amarela. A única explicação que encontro está, digamos assim, no princípio pós-teológico segundo o qual “Deus é Brasileiro”.

 

É por isso que a Bahia, laboratório maior do nosso colorido e carnavalesco sincretismo, legou ao mundo a equação definitiva: se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado. Há controvérsia sobre a autoria desse aforismo transcendental. Há quem atribua tamanha demonstração de sabedoria ao jornalista e técnico João Saldanha; outros dizem que seu autor é Neném Prancha, roupeiro e massagista do Botafogo. Seja quem for, é verdade incontestável.

 

Muita coisa nesse mundo não tem nenhuma explicação. Mas eu entendo: o autoengano alivia nossa brutal e escandalosa miséria. Acreditar em energias do além reconforta a existência atormentada e absurda. Nossos boleiros, sejam craques ou pernas de pau, nem desconfiam, mas é por isso que celebram o milagre de Deus, toda vez que a bola estufa as redes e a torcida vai ao delírio.

Meninas, dispensem o mala bolsonarista

A mais recente pesquisa Datafolha, publicada neste domingo, não traz novidade quanto ao desempenho dos candidatos a presidente. De novo, os números mostram que, mesmo na cadeia, Lula lidera a corrida com 30% das intenções de voto. Sem ele no levantamento, o índice de eleitores que dizem não ter candidato chega a 33%. Como nas pesquisas anteriores, com o petista barrado, Jair Bolsonaro lidera com 19%, seguido de Marina Silva com 15% e Ciro Gomes com 10% do eleitorado.

 

Ainda segundo esse cenário, o ex-governador Geraldo Alckmin alcança 7%, o que o deixa em empate técnico com Ciro. Também como em pesquisas anteriores, vê-se que, tirando Lula, ninguém consegue deslanchar na conquista da preferência de um índice significativo de brasileiros. O candidato Senhor Ninguém segue firme na liderança absoluta da corrida, a quatro meses da hora da votação. É o desencanto na política, dizem onze entre dez analistas da realidade nacional.

 

Além de desenhar vários cenários, a Folha mostra a distribuição dos votos segundo faixa de renda, região do país e como se manifestam os públicos masculino e feminino. E aí uma informação reveladora: com 19% no levantamento geral, Bolsonaro vai a 26% entre os homens e despenca para 12% entre as mulheres. Ou seja, são elas que mais rejeitam o tosco e truculento candidato. É um dado animador – e previsível também. A inteligência feminina pode nos salvar do pior.

 

Do outro lado, também previsivelmente, os cabra macho, que adoram pegar num fuzil e resolver toda encrenca na porrada, babam mesmo é pelo representante maior da categoria. Claro! A atração fatal está ainda mais consolidada entre os que se apresentam como nova direita (pela madrugada!) e seguidores dos mandamentos cristãos. Vejam, não deve ser aleatório que esse público adore um político que, por incontáveis vezes, demonstrou desprezo justamente pela mulher. Combinam.

 

Sugiro que as meninas e senhoras que estão ao lado de algum macho bolsonarista tomem uma atitude. Se for um marido ou namorado, eu diria mesmo que elas deveriam cair fora o quanto antes. Eu diria mais: acho que uma garota corre perigo namorando um mala bolsonarista. Não tenho dúvida de que o cara que alimenta paixonite por uma figura tão bisonha boa coisa não tem na cabeça. Não acredite que seu fanático particular é um rapaz sensível. Isso não existe. Ele está te enganando.

A música que enlouquece a Globo

Aconteceu de novo na edição do Jornal Nacional desta sexta-feira, 8 de junho. Enquanto a maravilhosa Camila Bomfim trazia alguma informação (não importa qual), ao vivo, direto de Brasília, os telespectadores começavam a ouvir o som do que parece ser um trompete. Bastam dois ou três segundos para você identificar a música: “Olê, olê, olê, olá... Lula, Lula”. Virou pesadelo no JN.

 

Aliás, a invasão do trompetista misterioso vem ocorrendo já faz algumas semanas, em vários telejornais da Globo e também nos programas da Globonews. Mas é claro que essa verdadeira instalação de arte sonora provoca muito mais estragos quando ocorre no principal produto jornalístico da emissora. Na volta ao estúdio, a cara do Willian Bonner revela o mal-estar profundo.

 

Atos de agressão a equipes de reportagem não têm nada a ver. É absolutamente condenável. Trata-se de violência intolerável contra pessoas que estão no batente. Não importa a empresa em que trabalhem, são profissionais. Xingamentos e ataques físicos traduzem apenas a truculência de gente desmiolada e sem noção. Muito mais demolidor – e na paz – é tocar uma música.

 

Que eu saiba, até agora não há informação sobre autores da ideia. Como não ando por redes sociais, não sei se já apareceu alguém identificado como o trompetista implacável. Também o fato de ser um protesto em defesa de Lula, para mim, é o de menos. O desconcertante é que, sim, a Globo tem um histórico de, vamos dizer, má vontade com o velho Lula, o PT e a esquerda em geral. Ou não?

 

Repare que, em muitos casos, a sutileza pode ser arrasadora; pode provocar resultados mais eloquentes do que uma bomba. Por isso, quando, no meio de um noticiário, todo pomposo e cheio de intenções que se pretendem imparciais, algumas notas musicais parecem surgir do nada, tudo foge do controle. Tenho certeza que o caso é hoje um drama na direção de jornalismo da Globo.

 

Por isso mesmo, os repórteres (e toda equipe envolvida numa transmissão ao vivo) devem estar recebendo recomendações ostensivas para se precaver da ameaça do imprevisível. E não tem dado certo, uma vez que, até de Brasília, no sagrado JN, o trompetista tem furado esse bloqueio. Isso já é um dos acontecimentos mais relevantes nesses dias de hoje na imprensa brasileira. Quem diria!

STF barra o voto impresso. Você confia na urna eletrônica? O caso Alagoas

Crédito: Agência Brasil/Arquivo 73ac6eab 7296 491f 9593 2774fda60b27 Urna eletrônica

O voto não será impresso. Para quem não sabia, ou não lembrava mais, abolida após o triunfo da urna eletrônica, a papelada voltaria, gloriosa, por força da minirreforma política aprovada no Congresso Nacional em 2015. Mas a norma foi derrubada na quarta-feira, 06. Por 8 votos a 2, os ministros do STF decidiram que a medida não será aplicada este ano – o que não significa que não possa ser adotada no futuro. A decisão do Supremo atendeu a uma ação da Procuradoria Geral da República.

 

Nem todo mundo gostou do veto à impressão da nossa escolha na eleição. Pelo contrário. A gritaria é geral e alega mil e uma razões para defender o retorno do papel. Não fosse por outro motivo, esse ponto da minirreforma foi de autoria do tosco Jair Bolsonaro, o que provoca ainda mais zoada. Naturalmente, quem defende a volta no tempo garante não haver cem por cento de segurança na inviolabilidade da urna eletrônica. Tal desconfiança existe desde a estreia do atual sistema.

 

Uma vez que o sistema sempre foi alvo de denúncias, é até curioso que essa suspeita tenha demorado tanto para chegar ao Supremo. Ao longo dos anos, nunca houve uma eleição em que candidatos – derrotados – não tenham tentado anular o resultado saído das urnas. E, nessa novela, Alagoas escreveu um capítulo que foi bater no TSE – e chamou atenção da imprensa nacional.

 

Foi na eleição de 2006 para governador. Contrariando as previsões detectadas nas pesquisas, que apontavam para uma disputa acirrada, Teotonio Vilela Filho venceu o candidato João Lyra no primeiro turno, com um massacre de votos surpreendente. Que o tucano ficasse na dianteira, tudo bem, mas nem segundo turno? De fato, foi algo que intrigou muita gente no país.

 

João Lyra não se conformou. Contratou como advogado até um ex-ministro do TSE, Fernando Neves, que topou levar o caso adiante. Por sugestão de Neves, foi contratada uma perícia ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o insuspeito ITA. E o resultado apontou um cipoal de indícios de que houve algo de estranho em boa parte das urnas alagoanas naquela eleição de 12 anos atrás.

 

Com base nas conclusões da perícia, a denúncia do candidato derrotado foi à Justiça. Como disse, o caso das eleições de Alagoas rendeu várias reportagens em grandes veículos. Uma das mais eloquentes saiu na revista Veja, em janeiro de 2007, assinada pelo jornalista Diego Escosteguy. O texto ressaltava que, segundo o trabalho do ITA, “os indícios de fraude são fortes”. Não deu em nada.

 

Não sabemos se houve realmente algum tipo de ilegalidade na disputa de 2006 – ou em outras eleições da era eletrônica. Os técnicos da Justiça Eleitoral garantem que as urnas são mesmo invioláveis. No julgamento do STF, o ministro Gilmar Mendes fez piada, dizendo que há quem não acredite que o homem pisou na lua. Ou seja, jogou a suspeita na categoria de teorias da conspiração.

 

De minha parte, sempre achei meio aloprada a contestação a essa forma de votar. Não sei se, agindo assim, deposito uma fé despropositada em nossa tecnologia verde e amarela. Como se sabe, as maiores potências do planeta insistem no voto de papel, justamente por desconfiar dos mistérios da urna eletrônica. Como resolver esse drama? Por enquanto, em 2018, vamos pagar para ver.

A eleição e outras maluquices

A policial militar Katia Sastre, aquela que matou um assaltante em São Paulo, deve sair candidata a deputada federal. É claro que caciques de variados partidos não perderam tempo e fizeram convites a ela para uma filiação. A cabo ainda não decidiu a sigla pela qual lançará sua candidatura. Em entrevista à Folha de S. Paulo, ela diz que, caso dispute a eleição, será “pela honra de Deus”. Seus ídolos na política: Bolsonaro e Tiririca. É o ideal para a “nova direita” que pretende salvar o Brasil.

 

A eleição para o Senado em Alagoas rende os lances de maior tensão – e também lorotas e pegadinhas de todos os tipos. Como é inescapável nesses tempos, as jogadas mais arriscadas (e algumas delirantes) estão nas redes sociais. Há informações que somente ali, no ambiente virtual quase sem controle, podem correr soltas. As promessas não guardam qualquer vínculo com a realidade. Em outra via, as denúncias e insinuações contra adversários atropelam fatos e bom senso.

 

O Tribunal Superior Eleitoral acaba de determinar que sejam apagadas, numa página do Facebook e num site, notícias falsas contra Marina Silva, candidata a presidente. Fui ver o site. É abertamente um espaço para atacar qualquer adversário de Jair Bolsonaro. Ou, se você preferir, para defender pautas da extrema direita. Lula, Ciro Gomes e o PT são alvos preferenciais da bandalheira disfarçada de jornalismo. Esse tipo de ação criminosa terá peso crucial na hora do voto.

    

O ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União, foi alvo de operação da Polícia Federal, autorizada pelo STF. Houve busca e apreensão em seus endereços. Ele foi citado por um delator que confessa pagamento de propina. Não é o único integrante do TCU enroscado em estripulias suspeitas. Já defendi aqui a extinção dos Tribunais de Contas de todo o país. Servem apenas para politicagem e troca de favores entre os donos do poder. Alagoas, claro, ostenta um TC exemplar.

 

A investida dos militares do Batalhão de Trânsito sobre o manobrista da OAB revela um padrão. Vocês viram o vídeo em que o PM atira no alvo pelas costas. Eu diria até que foi um milagre o atirador acertar a perna do rapaz. Nesses casos, geralmente o agente da lei não costuma tomar esses cuidados. Fora isso, não entendi direito o vínculo do manobrista com a OAB. Ele é funcionário, segundo li. Trabalhando como uma espécie de flanelinha?! Sei não, mas é cada coisa!

Perdemos a guerra contra a violência

O novo relatório do Atlas da Violência 2018, que acaba de ser publicado pelo Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que Alagoas segue em situação dramática no índice de homicídios. Em 2016, ano mais recente da pesquisa, por aqui foram 54,2 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Ficamos em segundo lugar. Sergipe lidera o ranking macabro, com 67,4 homicídios dolosos em cada grupo de 100 mil pessoas. A taxa nacional é de 30,3 segundo o Atlas. Por que perdemos essa guerra?

 

Não sei. Mas o problema para todos nós é que as autoridades também não sabem. O governador Renan Filho ganhou a eleição em 2014 tendo a segurança pública como um dos motes de campanha. Seu discurso bateu forte dos governos anteriores e prometeu uma nova era. A meta era derrubar a taxa de assassinatos a partir de um conjunto de medidas. Na propaganda, era fácil.

 

Mesmo para quem não é especialista na área, não me parece tão difícil apontar erros na gestão da segurança. Já escrevi aqui sobre o que considero um equívoco fatal. Continuamos a apostar tudo na força bruta. Os gestores da segurança não conhecem outro caminho a não ser a filosofia da porrada. Adoram armar essas operações carnavalescas que prendem pobre e preto. E só.

 

Foi assim com o “moderno” promotor que deixou o Ministério Púbico para botar pra quebrar na chefia das polícias. E tome invasões aos lugares onde vivem as populações mais miseráveis. Naquela fase – o começo do governo Renan Filho –, virou moda uma estranha tática de operações na alta madrugada. O resultado era meia dúzia de supostos traficantes e dois ou três revólveres enferrujados.

 

Mudou o secretário, mas a mentalidade continua rigorosamente a mesma. O atual comando parece sempre a postos a sacar o fuzil e mandar bala. Ocorre que isso rende manchetes e entrevistas coletivas. E fica por aí. Vamos falar sério: as autoridades continuam no tempo do coronel Amaral e do xerife Rubens Quintela. Bandido bom é bandido morto. Não poderia dar em boa coisa.

 

Agora uma curiosidade à parte. Vocês viram a estranha chamada que está na primeira página da Gazeta desta quarta-feira? Enquanto os números do Ipea apontam a tragédia alagoana, o maior jornal do pedaço destaca o inverso. É uma pérola: Estado reduz violência pelo sétimo mês consecutivo. Bom, cada jornalista lida de um jeito com a vontade dos patrões. Às vezes, é preciso partir para briga.

Blog do Celio Gomes: voto não deveria ser obrigatório

Ilustração D504cac0 7519 41ae 8cc9 a00d6f52d84b Urna Eletrônica

A eleição fora de hora para governador do Tocantins fez meio mundo escrever sobre o alto índice de abstenção. Nada menos de 30% dos eleitores não compareceram às urnas. Já os votos nulos e brancos passaram dos 18%. Meu Deus, que coisa horrível, dizem os patriotas interessados em dias melhores para o país. Será que as eleições de outubro também vão registrar esse grau de desinteresse do cidadão pelos candidatos? Provavelmente, sim. Novidade? Nenhuma.

 

Faz tempo que as disputas eleitorais no país registram, a cada dois anos, a ausência cada vez maior do eleitor. O mesmo ocorre em outros países. A Colômbia acaba de sair do primeiro turno na escolha para o novo presidente. 53% dos colombianos marcaram presença. Ou seja, uma abstenção de 47%. Por lá, eles estão comemorando o índice de comparecimento. Em 2014, foi menor.

 

Na Colômbia, nosso vizinho de continente, o voto não é obrigatório. É o que deveria ser adotado no Brasil. Afinal, votar é um direito e, sendo assim, o sujeito deve ser livre para decidir se vai ou não empenhar seu tempo para apoiar este, aquele ou nenhum candidato. A conversa segundo a qual a sociedade “não está madura” para decidir sobre isso se baseia na fantasia de supostos iluminados.

 

Voltando ao Tocantins, houve sim uma ótima notícia por lá. Os eleitores desprezaram a candidatura do ex-juiz Marlon Reis, que ficou em quinto lugar, com 9% dos votos, muito, mas muito longe do segundo turno. Para quem não lembra, o doutor é uma das mentes por trás da Lei da Ficha Limpa, a mãe de todas as violações constitucionais que viraram moda no Brasil da Lava Jato.

 

Achei esse dado muito especial. Como todos sabemos, os senhores togados e os menudos do Ministério Público Federal decidiram que têm a chave para salvar o país. Basta que a gente dê carta branca para eles, que tudo se resolve. Parece que os tocantinenses não caíram nessa. Mais do que lamentar a abstenção e os votos nulos, saúdo a percepção do eleitorado. Isso foi um bom aviso.

 

Em Alagoas, continuamos com um governador quase reeleito. E com uma eleição para o Senado que tem tudo para ser bem mais animada. Mas a Copa está chegando aí. Alguma novidade ainda pode pintar nos quatro meses até a votação. Por mim, o voto seria facultativo. Sendo um direito, reitero, cabe ao indivíduo decidir se, no domingo, sairá de casa para teclar na urna. É mais civilizado.

Roberto Firmino e a Seleção Brasileira

Eu sei que o país atravessa uma crise dos infernos. Um governo moralmente desqualificado segue seu rumo no piloto automático, sem nada a oferecer ao brasileiro – este cidadão indignado (e no sufoco). Estamos à espera do próximo presidente a ser eleito em outubro e empossado em janeiro de 2019. Mas, até lá, no meio do caminho tem uma Copa do Mundo. Vamos, pois, ao que interessa.

 

Antes de Aristóteles e Platão, o homem já sabia que jogo é jogo, treino é treino. Logo, conclusões definitivas após a vitória de 2 a 0 do Brasil sobre a Croácia seriam, no mínimo, imprudentes. A pouco mais de uma semana para a bola rolar em campo, nenhum jogador entra em dividida pra valer. O ritmo do amistoso (aquela partida que não vale nada) é de câmera lenta. Ninguém se arrisca.

 

Diante do que se viu neste domingo, não será inteligente nem a preocupação exagerada, nem a confiança ufanista. Isso não significa que seja de todo uma inutilidade a chamada fase preparatória, agora em reta final. Neymar voltou a campo depois da cirurgia no pé direito que o deixou três meses longe dos gramados. Mais importante que o gol, gostei do que ele não fez: nenhuma presepada.

 

Parece pouco, mas, para mim, diante de seu histórico na seleção e no futebol europeu, é um avanço notável. Se o craque for capaz de conter os arroubos de demência que lhe deram fama, poderá mesmo ser decisivo. Caso contrário, também será decisivo – contra o próprio time. Depois do fiasco em 2014, esta tem tudo para ser a sua Copa. Está na cabeça, e não nos pés, o gatilho das jogadas.

 

Ao longo das Eliminatórias, Tite cravou um time titular. Mas, justamente na reta de chegada à Rússia, dois ou três dilemas se impuseram. As dúvidas cruciais estão do meio de campo para frente. As escolhas na formação podem mudar de um jogo para outro. Essas incertezas valem já para a estreia. Assim, vamos começar a competição sob o signo da instabilidade, com posições em aberto.

 

Antes de falar dos volantes, meias e atacantes, tem a defesa. Danilo é o titular de última hora na lateral pela direita depois da contusão de Daniel Alves. E até um dia desses, Miranda formava a zaga titular com Marquinhos. Mas este perdeu o lugar para Thiago Silva, que se impôs nos últimos jogos. Não sei. Ainda tenho um pé atrás com o chorão de quatro anos antes. É a aposta do treinador.

 

Diante da Croácia, começamos, no meio, com Casemiro, Paulinho e Fernandinho. É uma opção que privilegia a força na marcação, mas perde bastante em criatividade. Não será a escolha de Tite, a não ser na circunstância que julgar necessário fechar o esquema para garantir a eventual vantagem no placar. Fora disso, Fernandinho estará no banco de reservas.

 

Para obter um desempenho ofensivo, à frente de Casemiro e Paulinho, os titulares devem ser Willian e Philippe Coutinho. Aqui, outro dilema: Renato Augusto era o dono da posição, mas também perdeu a titularidade, ao contrário de Willian e Coutinho. Por isso tudo, qualquer um desses pode começar jogando, mas ninguém é absoluto na parada. Casemiro, sim, é imexível para o técnico.

 

E, finalmente, tinha de aparecer um alagoano para tumultuar as convicções do professor, ora essa! É certo que Gabriel Jesus será o centroavante titular na estreia, mas não pode dormir de touca (desculpem, não resisti). Roberto Firmino viveu aqui perto, no conjunto Virgem dos Pobres, à beira da Lagoa Mundaú. É um caso clássico, daqueles que mudam a vida correndo atrás de uma bola.

 

Fosse eu um patriota sentimental, diria que Jesus não joga nada, diante do nosso conterrâneo goleador – de estilo elegante, frio e implacável. Mas como tenho uma queda para ser do contra, ainda mais em questões de nacionalismo e alagoanidade, devo zelar pela opinião equilibrada. Boa sorte ao grande Firmino. A seleção chega como favorita, mas na hora do jogo é 11 contra 11.

Páginas ao longo da vida

Nossa maneira de ler vai mudando com o tempo. Comigo, houve uma época em que poderia pular qualquer assunto nas páginas que pareciam intermináveis nas edições de domingo dos grandes jornais do país. Política, Economia, Comportamento, Internacional – essas e outras editorias (agrupadas em caudalosos cadernos) estavam sempre sujeitas, vamos dizer, a alguma circunstância do espírito. Às vezes, lia tudo, de ponta a ponta; às vezes, atropelava parágrafos.

 

Mas com os cadernos culturais (ou suplementos literários), aí não. Nada justificaria a negligência com as críticas, resenhas e ensaios sobre todas as artes – da poesia ao grafite, do cinema às instalações, do teatro à música. Cada opinião sobre um autor ou uma obra, por mais breve que fosse, era uma porta para outras informações, mais amplas, num filme, num romance, numa biografia...

 

A leitura do conteúdo sobre arte e pensamento aliava o prazer estético a uma espécie de compromisso moral com o que realmente interessa na vida. O jornal ia para o lixo após concluído o último texto – mas não o caderno cultural. Aquele era um conteúdo atemporal. Somente após o volume de edições chegar ao ponto de virar um problema doméstico, jogava fora, contrariado.

 

Não sei a partir de quando, isso mudou. Não que o interesse hoje seja inferior ao que já foi. Mas, em algum momento impreciso, as resenhas e ensaios ficaram um tanto repetitivos. A sensação de familiaridade, digamos assim, com esse universo, com o estilo desse tipo de texto na imprensa, me leva rapidamente, muitas vezes, quase que a adivinhar o que vem pela frente. Há uma fórmula.

 

Os adjetivos são mortais numa crítica ou numa resenha. E lá vem o resenhista me dizer que a peça revela um universo “sombrio”; que o poema é “seco” e “desconcertante” em sua linguagem; que o filme se constrói em planos “poderosos” e numa fotografia “limpa” e, ao mesmo tempo, “inquietante”. O mesmo tipo de raciocínio está em análises de hoje e de ontem, como grande sacada.

 

Um problema recorrente no jornalismo cultural (mas não apenas aí) é a aplicação de uma mesma ideia para obras e artistas muito diferentes. Um exemplo que me parece quase insuportável é apontar o escritor que “borra as fronteiras” entre ficção e realidade. Isso já foi dito sobre Borges, Lima Barreto, Roberto Bolaño, David Foster Wallace, Cristovão Tezza e até Chico Buarque, entre outros. Sem falar em toda a literatura beat. Se vale para todos, não esclarece nada sobre ninguém.

 

Estou falando, claro, de um campo específico de leitura; no caso, o que se publica na imprensa acerca da produção cultural. Nada de enxergar alguma qualidade excepcional num passado glorioso – o que seria cair numa velha armadilha. Talvez tenha sido sempre mais ou menos assim, com variações mais para o lado dos leitores do que para o lado de quem escreve. É uma hipótese.

 

A análise do resenhista afunda de vez quando a redundância vem embalada no tom de afetação. É um mal resistente nas páginas do jornalismo cultural. Jogo de cena geralmente esconde pobreza nas ideias. Somente a experiência frequente na leitura pode vacinar o leitor contra essas tolices.

 

Em tempos de tagarelice compulsiva pelas redes sociais, é uma questão de sobrevivência separar as pérolas do entulho de inutilidades. Quando a irrelevância domina até espaços que se pretendem profissionais, isso parece impossível. Mas quem lê tanta notícia, perguntava o baiano mais odara.

 

(Eu ia falar sobre leitura e pensamento. Não deu muito certo).

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