Às vésperas do São João de 1996, na praia de Guaxuma, em Maceió, aconteceu um dos episódios mais marcantes da história recente da República brasileira. Paulo César Farias e Suzana Marcolino foram encontrados mortos em circunstâncias que, passadas três décadas, ainda suscitam desconfianças e versões sobre o que aconteceu naquela casa.

Para marcar a data e pagar uma dívida com Brigitte Montfort, pseudônimo de uma cafetina que, à época, era sua principal informante em Maceió, o jornalista Xico Sá lançou “O Tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias” (Todavia).

Assim que o livro me chegou às mãos, li de uma sentada. Com uma narrativa de ritmo quase policial, envolvente e sarcástica, Xico Sá relata em detalhes o período em que participou da cobertura jornalística da fuga de PC Farias, após a decretação de sua prisão preventiva pela 10ª Vara Federal de Brasília, sob acusação de sonegação fiscal.

Dividido em dez capítulos, antecedidos por um prólogo e finalizado com um epílogo, o livro é curto e super gostoso de ler.  

Com o apoio fundamental do motorista Delmiro e de Brigitte, Xico percorre Maceió com seu faro de jornalista investigativo. Aliás, a cafetina, que muitos serviços prestou a PC Farias e a Collor de Mello, é uma personagem espetacular, de senso crítico aguçado e vasta cultura. Hoje, como relata o epílogo, trabalha como guia turística e continua a revelar os segredos dos lugares que um dia serviram de palco aos bastidores do poder brasileiro.

Assim, em vez de mergulhar nas belas praias locais, Xico dá um “tchibum” nos bastidores da atuação de um dos principais responsáveis pela ascensão de Fernando Collor de Mello à Presidência da República, em 1989. Tesoureiro da campanha vitoriosa, PC tornou-se o operador de um amplo esquema de arrecadação ilegal de recursos e, depois da eleição, de cobrança de propinas envolvendo contratos de grandes grupos econômicos nacionais, sobretudo da construção civil, com o governo federal.

Uma das passagens mais impressionantes é o retorno da Tailândia, quando Xico viajou na classe executiva ao lado de PC Farias, já preso. Imaginem ter ali, ao alcance de uma conversa, o homem que havia sido um dos mais procurados do país, detentor de informações capazes de abalar a República. Para um jornalista, uma oportunidade dessas deve valer como o prêmio de uma vida.

Os diálogos entre PC e o repórter, agora expostos no livro, ajudam a iluminar os bastidores daquele período. As críticas do tesoureiro ao antigo chefe revelam aspectos da personalidade de Collor e da relação entre os dois. Também nos fazem revisitar as expectativas depositadas naquele que muitos brasileiros acreditaram ser o melhor nome para conduzir o país após a primeira eleição presidencial direta desde a ditadura. Uma aposta cujo custo foi alto.

Meu interesse pelo livro nasceu também da vontade de revisitar uma história que acompanhei ainda jovem, na Paraíba, distante da vida social e política de Alagoas. Naquele tempo, o caso já prendia minha atenção. Hoje, morando na terra dos Marechais há quase duas décadas, a leitura me levou a estabelecer pontes entre os personagens, os lugares narrados e minha própria trajetória por essas bandas.

Espaços pelos quais tantas vezes passei, sem conhecer sua ligação com aqueles acontecimentos, ganharam outro significado. É o caso do Bar Brasil, em Guaxuma, onde Xico e Brigitte trocaram tantas informações e que hoje frequento para jogar beach tennis e tomar uma gelada aos sábados. A leitura acrescentou uma camada de história a um lugar que faz parte do meu cotidiano.

O livro reúne boas histórias, bastidores da reportagem e metáforas expressivas. O sarcasmo de Xico dá à narrativa um sabor particular e acentua o absurdo de situações que marcaram a vida política brasileira. Seu relato permite acompanhar tanto a trajetória do tesoureiro quanto o trabalho de quem buscava informações em meio a silêncios, interesses e pistas desencontradas.

Uma leitura que recomendo, especialmente pela oportunidade de revisitar os mecanismos que aproximam dinheiro, poder e corrupção no Brasil. Três décadas depois, a história de PC Farias continua a provocar perguntas sobre as estruturas e os interesses que tornam possíveis personagens como ele, e que hoje se repete em personagens como, por exemplo, Vorcaro. E sobre as rotas de fuga que, tantas vezes, voltam a atravessar a América do Sul, como a feita por um recém derrotado à presidência do Brasil.