O episódio passou a fazer parte do folclore político nacional, mas é um episódio que mostra bem a estupidez da ditadura militar – e dos que a cercam.

Depois de cassado e antes do exílio, ainda em 1964, o ex-governador Miguel Arraes foi ao apartamento do editor Ênio Silveira, que mandou preparar uma feijoada para receber o amigo.

Conta-nos Flávio Tavares, em O dia em que “Getúlio matou Allende”, que os policiais foram ao local, visando prender o político e democrata, que acabara de ser retirado à força do governo de Pernambuco.

Não o encontrando, os brilhantes agentes da ditadura não perderam a viagem: prenderam a cozinheira do anfitrião, que havia cometido um ato de subversão ao preparar o mais delicioso prato da culinária brasileira (em minha opinião).

Se você preferir, talvez os policiais tenham mesmo confirmado o que o que nos disse Umberto Eco, em “Cinco escritos morais” - sobre um tema sobre o qual evoluímos pouco: a elite estabelece as bases do preconceito, mas somos nós, o povo, que o praticamos.

(Que nos sirva de alerta.)