Bichinho ardiloso, o tal do corvo. Inteligência superior entre todas as aves, o tal pássaro preto é capaz de coisas inimagináveis. Trapaceia com outros indivíduos da mesma espécie – ou não – quando o assunto é comida: monta sua própria reserva, escondendo-a para que seja preservada e inatingível, ao mesmo tempo que busca a do outro com ambição e sofreguidão dignas do homem. Animal sábio e sabido, que, não nos esqueçamos, se alimenta também de carniça. Joga, o tempo todo, o jogo do engana-engana, até que um deles se dá mal para que o outro se dê bem.

Imaginemos esses predicados acima num Homo politicus. Pois bem, ele existiu na História “desse país”, carregando para o túmulo a alcunha que lhe foi dada pelo genial Lan, o cartunista das belas mulatas. Jornalista, deputado, governador do Rio de Janeiro, mas, principalmente, golpista, Carlos Lacerda camaleonicamente virou “O Corvo”.

O ex-radical de esquerda – como Bukele, de El Salvador, ídolo da extrema-direita por aqui - foi militante do velho PCB antes de tornar-se, após uma tentativa de suicídio, no símbolo da direita mais raivosa, sempre convocando suas “vivandeiras” para destituir os governos eleitos pelo voto popular. 

Fez-se o inimigo mais feroz de Getúlio Vargas, de cujo suicídio, em 24 de agosto de 1954, é apontado como um dos responsáveis; de Juscelino Kubitschek, de quem não perdoava a popularidade e o charme; de Jânio Quadros, a quem ajudara a se eleger; de João Goulart, vítima do golpe militar do qual ele era um dos principais braços civis; e, ao fim, dos próprios ditadores que se sucederam na mais longa era de autoritarismo da República do Brasil (tomara que não venha outra, com o apoio do eleitorado, como aconteceu com Hitler).

Orador brilhante e de uma agilidade de raciocínio surpreendente, Lacerda também sabia mentir como poucos. Desde que a situação exigisse, criava histórias e versões que lhe fossem favoráveis, partindo do quase nada, às vezes. Foi o que aconteceu, em setembro de 1955, no episódio que ficou conhecido como "Carta Brandi", um enredo de ópera-bufa à altura do seu criador.

A missiva, que ele apresentou como sendo de autoria de um certo Antonio Brandi, parlamentar argentino, dava orientações ao candidato a vice-presidente João Goulart - vitorioso nas urnas - sobre a formação de brigadas de choque operárias. Um conluio entre Perón e Jango que incluía o contrabando de armas para os “revolucionários” tupiniquins. Um escândalo levado à rádio e à televisão por Lacerda. A carta lhe havia chegado às mãos graças à prisão, no Rio de Janeiro, de um emissário de Brandi. Tentava, assim, evitar a realização das eleições que consagraram a dupla JK-Jango, que caíra no gosto popular.

O próprio jornalista viajou à Argentina em busca de novas provas das relações criminosas internacionais entre os futuros dirigentes do Brasil e o presidente Juan Domingo Perón. Retornou, certo de que as havia encontrado: xeque-mate.

Mas as eleições aconteceram, e o resultado demonstrou a vontade irrefreável das urnas: JK bateu, impiedosamente, Juarez Távora, Adhemar (rouba, mas faz) Barros e Plínio Salgado, que sobrevivera ao arrastão mundial antifascista do pós-guerra. Jango não teve destino diferente. Concorrendo "solo", foi eleito vice-presidente, derrotando Milton Campos e Danton Coelho.

Lacerda não desistiu. Seguiu em frente com sua impiedosa saraivada de denúncias, agora tentando evitar a posse dos eleitos. Tinha em mãos, ainda, a "Carta Brandi", prova da traição à pátria dos futuros governantes brasileiros. O ministro da Guerra, marechal Henrique Teixeira Lott, seria cúmplice de Jango, acusou. A farsa demorou o tempo suficiente para a conclusão do IPM - Inquérito Policial Militar -, que apontou a inexistência do plano, fantasioso que era.

O falsário, então, apareceu: o próprio Lacerda, a quem o documento tosco fora entregue por golpistas argentinos. O Corvo tentou, ato contínuo, anular as eleições, evitar a posse de JK-Jango, mas foi, de novo, derrotado. Persistiu em várias tentativas de golpe, mas, ao final, só restou ao porta-estandarte do "Clube da Lanterna" -  um aglomerado de golpistas nada enrustidos - o exílio nos Estados Unidos.

Sabe-se: ele retornou ao Brasil, e depois veio 1964, quando pôde, enfim, comemorar o sucesso de um golpe que há décadas perseguia. Enxotado pelos aliados quando pretendia ser o futuro presidente civil, pós-ditadura, quis reescrever sua biografia, formando a Frente Ampla com seus ex-inimigos JK e Jango. 

Era tarde demais: encontrou o descanso na morte, provocada pelas bactérias que lhe tomaram o corpo, em  21 de maio de 1977. O Corvo foi abatido por microscópicos  e insuspeitos inimigos.