O porteiro identificado como Edmilson foi conduzido por policiais militares à Central de Flagrantes após se juntar a um panelaço no bairro de Ponta Verde, em Maceió, na noite de sexta-feira (16). O ato ocorria simultaneamente à entrevista do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, à TV Globo. A ocorrência teve repercussão nacional.

Ele foi o único levado até a Central de Flagrantes junto com a panela do ato. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL), em nota oficial, a PM foi acionada por um morador vizinho que teria se incomodado com o panelaço, classificando o caso como perturbação do sossego. 

O MP/AL comunicou, neste sábado (17), que vai apurar as circunstâncias da ocorrência. A promotora de Justiça, Karla Padilha disse que na próxima segunda-feira (19) serão adotadas providências, juntamente com a Corregedoria da PM, para saber que tipo de crime ocorreu. Ela também afirmou que houve comunicação da Ordem dos Advogados do Brasil em Alagoas (OAB/AL) sobre o caso.  

Pessoas próximas relatam que o porteiro d está em estado de pânico, com medo de retaliações.

Como ocorreu o caso

Segundo Felipe Verlaine, morador do local, ele estava na área interna do prédio com uma bandeira de Lula quando o porteiro se juntou ao panelaço. 

"Tinha várias pessoas na rua fazendo, inclusive no prédio também. Eis que um cidadão bolsonarista estava vindo no carro, abaixou os vidros e começou a fazer gestos obscenos com dedo em riste, xingando todo mundo, ameaçando quem estava falando as coisas a favor do presidente Lula", disse em vídeo. 

Felipe filmou o momento em que o bolsonarista fez ameaças na frente do prédio. Ele seria o morador vizinho que acionou a PM.

Após parar o carro, Felipe Verlaine diz que ele começou a ameaçar e o xingar. "Eu continuei balançando a bandeira, e o porteiro começou a bater com mais intensidade ainda a panela, para abafar aquela baixaria toda."

"Nós não demos valor a isso, porque é uma manifestação democrática, estávamos no nosso direito. Ele tentou até escalar a parede do prédio, mas ignoramos. Foi aí que ele chamou a polícia, que rapidamente chegou, entrou e já queria inclusive algemar o porteiro."

Verlaine contou que correu para o seu apartamento e interfonou para todos os participantes do panelaço, a fim de que houvesse vários registros.

"Eu abri um boletim de ocorrência contra o cidadão, pois ele ameaçou a gente." 

Posicionamento do advogado

Segundo o advogado Welton Roberto, que estava na central com alunos do curso de direito no momento em que o porteiro chegou, tanto a prisão quanto a autuação por perturbação do sossego foram completamente equivocadas. Ele também questiona por que o homem que ameaçou moradores não foi detido. "Por que só o trabalhador?"

"A polícia tentou entrar no prédio, e o porteiro, segundo o policial, demorou para abrir a porta e por isso foi levado como desacato", diz, citando que recebeu informação de que o sargento que deteve o porteiro é bolsonarista. 

De acordo com a defesa do trabalhador, representada pelo advogado Matheus Gonzaga, Edmilson prestou esclarecimentos e foi liberado em seguida. O advogado relatou nas redes sociais que o porteiro estava em serviço no condomínio quando se somou à manifestação realizada por moradores e populares da região. 

O panelaço em Maceió coincidiu com mobilizações semelhantes registradas em diversas capitais e cidades do país, como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Salvador. Os atos acompanharam o início da sabatina do candidato no encerramento do Jornal Nacional, conduzida pela jornalista Renata Lo Prete — formato que também recebeu o presidente Lula (PT) na noite anterior. 

Em nota oficial, a OAB/AL repudiou o caso e disse que abusos devem ser rigorosamente apurados e, quando comprovados, devidamente responsabilizados. 

 

Confira as notas na íntegra

 

Nota oficial da SSP-AL:

A Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP/AL) e a Polícia Militar de Alagoas (PMAL) informam que, na noite desta sexta-feira (16), uma guarnição foi acionada para atender uma ocorrência de perturbação do sossego no bairro da Ponta Verde, em Maceió.

O Copom foi acionado para uma ocorrência de perturbação do sossego. No local, um homem foi conduzido à Central de Flagrantes por perturbação do sossego alheio, onde foram adotados os procedimentos cabíveis.

Na unidade policial, foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), que seguirá para apuração pelas autoridades competentes. Após os procedimentos, o conduzido foi liberado. A Polícia Militar informa, ainda, que a Corregedoria-Geral da Corporação irá apurar a conduta da equipe policial envolvida na ocorrência.

Nota oficial da OAB/AL:

A Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Alagoas (OAB/AL), por meio de sua Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, informa que, ao tomar conhecimento do episódio envolvendo a prisão de um porteiro, ocorrida na última sexta-feira, dia 16 de outubro, no bairro da Ponta Verde, em Maceió, durante um panelaço realizado em manifestação política, adotou imediatamente as providências institucionais cabíveis para a apuração dos fatos.

Diante das circunstâncias noticiadas e dos registros audiovisuais divulgados, a Comissão já oficiou a Delegacia Geral da Polícia Civil de Alagoas e a Promotoria de Justiça responsável pelo Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público de Alagoas (MPAL), solicitando a imediata apuração dos fatos, com especial atenção à legalidade da abordagem e da condução do trabalhador, bem como à conduta dos policiais militares envolvidos.

A OAB/AL reafirma que a atuação dos agentes de segurança pública deve observar rigorosamente a legalidade, a proporcionalidade e o respeito aos direitos e garantias fundamentais, assegurando tratamento isonômico a todos os cidadãos, independentemente de suas convicções políticas.

A defesa dos direitos humanos exige que eventuais abusos sejam rigorosamente apurados e, quando comprovados, devidamente responsabilizados. A liberdade de expressão e de manifestação constitui garantia fundamental e deve ser respeitada por todos, inclusive pelos agentes do Estado.

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos acompanhará o caso e permanecerá vigilante para que os fatos sejam esclarecidos e as providências cabíveis sejam adotadas.

Maceió/AL, 17 de outubro de 2026.

Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Alagoas (OAB/AL)

Comissão de Defesa dos Direitos Humanos