O fim da escala 6x1, aprovado pelo Senado na noite de quarta-feira (14) por 75 votos a 1, vai mudar a rotina de pelo menos 373,6 mil trabalhadores com carteira assinada em Alagoas. São os que hoje têm contrato acima de 40 horas por semana, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Desses, 134,9 mil trabalham seis dias para folgar um e passam a ter duas folgas semanais.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 já havia passado pela Câmara em maio, por 472 votos a 22, e agora segue para promulgação. O texto reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso por semana e proíbe qualquer redução de salário, inclusive nos pisos das categorias.
Gráfico 1 – O impacto em Alagoas. Fonte: MTE (Secom, 25/05/2026); cálculo Strategio.
A partir dos dados do MTE, a Strategio calculou o que a mudança significa para cada trabalhador. Quem tem contrato de 44 horas trabalhará quatro horas a menos por semana, o equivalente a 26 dias de trabalho de 8 horas a menos por ano. Quem hoje está na escala 6x1 ganha uma folga a mais por semana: passa de 52 para 104 dias de descanso por ano.
"Não é um detalhe de calendário. Estamos falando de quatro horas por semana devolvidas à vida de quase 400 mil alagoanos. Em um ano, isso equivale a 26 dias de trabalho de 8 horas. É tempo para a família, para estudar, para cuidar da saúde", afirma o professor Rafael Arley, diretor da Strategio.
Alagoas acima da média nacional
Os dados mostram que o estado tem uma proporção maior de trabalhadores com jornada acima de 40 horas do que o país. Em Alagoas, são 91,1% dos trabalhadores com carteira; no Brasil, 86,4%. A parcela na escala 6x1 é semelhante: 32,9% no estado e 33,3% no país.
Gráfico 2 – Alagoas x Brasil. Fonte: MTE (Secom, 25/05/2026); cálculo Strategio.
"Alagoas tem um mercado de trabalho concentrado no comércio, nos serviços e na agroindústria, justamente os setores com jornadas mais longas. Por isso a mudança pesa mais aqui do que na média do país", analisa Rafael Arley. No Brasil, segundo o Dieese, com dados da Rais, 93% dos trabalhadores do comércio, 95% dos da construção e 96% dos da agropecuária têm contrato acima de 40 horas. Na administração pública, são 17%.
Como será a transição
A mudança não acontece de uma vez. Dois meses depois da promulgação, passam a valer as duas folgas semanais e o limite cai para 42 horas. Um ano depois, a jornada máxima chega a 40 horas.
Gráfico 3 – A transição. Fonte: PEC 221/2019 (Câmara, 27/05/2026; Senado, 14/10/2026).
Há exceções. Servidores públicos não são atingidos. Profissionais com diploma de nível superior e salário acima de R$ 21.188 podem ficar fora da regra por acordo. Escalas como a 12x36 e serviços essenciais, como saúde, segurança e transporte, poderão compensar as folgas ao longo do mês. Para MEIs e pequenas empresas, uma lei complementar vai definir as regras de transição.
E o emprego?
A principal preocupação dos empresários é o custo. Estudo da consultoria Íntegra Associados, com dados da Rais 2025, estima que o custo de cada hora de trabalho sobe 10% nos contratos de 44 horas. O efeito sobre o custo total das empresas, porém, é menor: 2,3% na mediana dos setores, abaixo de 1% em 19 deles e entre 6% e 7% nos que dependem de muita mão de obra, como vigilância.
A experiência de outros países ajuda a dimensionar o risco. Levantamento da OCDE com estudos sobre reduções de jornada mostra que, na maioria dos casos, o emprego total não caiu. Foi assim em Portugal (1996), na França (2000), no Chile (2005) e no próprio Brasil, quando a Constituição de 1988 reduziu a jornada de 48 para 44 horas. O salário por hora subiu e o mensal se manteve.
"Os dados internacionais desmontam dois mitos ao mesmo tempo. A redução não provocou demissão em massa, mas também não criou empregos novos por si só. O ganho mais claro é a qualidade de vida do trabalhador, sem perda de renda. O desafio em Alagoas será apoiar o pequeno comércio na transição, que é onde a margem é mais apertada", avalia o diretor da Strategio.
Metodologia e fontes
- Dados de Alagoas e do Brasil: Ministério do Trabalho e Emprego, divulgados pela Secretaria de Comunicação Social em 25/05/2026.
- Dias e folgas por trabalhador: cálculo da Strategio. Quatro horas a menos por semana, vezes 52 semanas, dão 208 horas, ou 26 jornadas de 8 horas. Uma folga a mais por semana, vezes 52 semanas, dá 52 folgas a mais.
- Votações: Agência Senado (14/10/2026) e Agência Câmara (27/05/2026).
- Setores: Dieese, Nota Técnica 286 (2025), com dados da Rais 2023.
- Custos: Íntegra Associados, Impacto setorial da redução da jornada de trabalho no custo das empresas (2026).
- Experiência internacional: OCDE, Garnero (2024), com base em Gonzaga e outros (2003), Raposo e van Ours (2010), Estevão e Sá (2008) e Sánchez (2013).
*Diretor da Strategio – Inteligência, Pesquisa e Desenvolvimento
