A redução de impostos federais sobre combustíveis anunciada pelo Governo Federal, com validade até o dia 9 de novembro e impacto estimado de R$ 5,2 bilhões na arrecadação, começou a chegar aos elos iniciais da cadeia logística nos últimos dias. Contudo, motoristas que atuam no cotidiano das ruas de Maceió ainda não percebem o alívio financeiro nas bombas.

Enquanto o setor de revenda aponta que a formação de preços depende de múltiplos fatores mercadológicos, trabalhadores que dependem do veículo para garantir a renda relatam margens de lucro cada vez mais espremidas pela alta dos custos operacionais e pela oscilação de rendimento dos produtos.

A medida amplia os benefícios tributários da regra anterior, concedendo um desconto adicional de R$ 1,40 por litro para o diesel importado e de R$ 0,19 por litro para o etanol hidratado (somado a R$ 0,25 já concedidos anteriormente a produtores e cooperativas). 

O objetivo central da iniciativa oficial é manter a viabilidade das importações de combustíveis e conter os reflexos da alta internacional do petróleo, impulsionada por conflitos no Oriente Médio e pela cotação do dólar.

Questionado sobre o ritmo de repasse dos descontos ao consumidor final, o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado de Alagoas (Sindicombustíveis-AL), James Thorp Neto, destacou que a entidade é totalmente favorável à diminuição da carga tributária. Segundo ele, a revenda opera com uma das maiores taxações do país e tem interesse comercial em preços menores, o que aumenta o giro de vendas, reduz necessidades de capital de giro e diminui taxas de cartão.

No entanto, o representante do setor ressalta que o desconto tributário ocorre nas etapas anteriores da cadeia, que envolve importadores, produtores e distribuidoras, cujos preços oscilam diariamente.

"O Sindicombustíveis-AL não influencia nem participa dessa tomada de decisão. O preço final na bomba é uma decisão exclusiva e individual do empresário, o qual deve avaliar fatores como fluxo de caixa, estoque, média de vendas e reposição para alterar seus valores", explicou James Thorp Neto.

Sobre a dinâmica de estoques antigos, o sindicato reforçou que não existe obrigatoriedade legal de esvaziamento total antes da aplicação de novas tabelas, ficando a critério de cada revendedor gerenciar o momento adequado para a transição. 

A entidade também ponderou que a presença expressiva de biocombustíveis na composição comercializada, como os 32% de etanol anidro adicionados à gasolina, e as flutuações da matéria-prima internacional continuam exercendo pressões no custo final.

O impacto no cotidiano de quem vive ao volante

Para quem roda profissionalmente, a complexidade da cadeia de preços e a volatilidade do mercado se traduzem em perda diária de poder aquisitivo. O motorista de aplicativo Márcio Paulo, que trabalha de domingo a domingo por mais de 12 horas diárias alternando entre dois aplicativos de transporte, relata que os combustíveis comprometem cerca de 40% de todo o seu orçamento.

Como utiliza um veículo com motor mil, Márcio aponta que a conversão para gás natural não compensa no desempenho do carro, obrigando-o a alternar entre álcool e gasolina. Com o percentual atual de mistura de etanol na gasolina e a percepção de perda de rendimento técnico, segundo ele, o veículo que antes fazia cerca de 15 quilômetros por litro agora apresenta desempenho inferior —, o peso no caixa aumentou.

"Eu não percebi essas alterações de queda nos preços. O combustível está num valor, daqui a pouco sobe. Além disso, a gente percebe que alguns postos que vendem muito barato acabam misturando álcool ou água a mais. Rodando de domingo a domingo, a gente sente que isso aperta demais o nosso lucro", lamenta o motorista.

A medida de desoneração fiscal tem caráter temporário e vigora inicialmente por 30 dias, com encerramento previsto para 9 de novembro. 

Enquanto o governo federal busca amortecer os choques externos do mercado petrolífero, a transição gradual do benefício através de refinarias, importadores e distribuidoras mantém o cenário de instabilidade no cotidiano dos postos e dos consumidores alagoanos.