“Volta e meia chega alguém aqui doente, envenenado”. A frase do técnico em agroecologia Florisval Costa descreve uma rotina dramática no Agreste de Alagoas, onde a busca por primeiros socorros nem sempre começa em uma unidade de saúde, mas na porta de quem aprendeu a extrair da terra o remédio e a cura.
No polo fumageiro do estado, enquanto o fumo e o avanço do milho deixam um rastro de intoxicação por agrotóxicos e degradação ambiental, a agroecologia ergue uma silenciosa trincheira em defesa da vida.
Membro da Articulação Alagoana de Agroecologia (Rede Mutum), Florisval tornou-se um ponto focal de resistência comunitária no povoado de Santa Rosa, no município de Craíbas.

Ali, na linha de frente do campo, ele testemunha as contradições do modelo agrícola tradicional: a atração do fumo valorizado pelo mercado contraposta ao adoecimento físico e mental dos camponeses, agravada pela chegada do maquinário pesado e dos herbicidas nas lavouras de milho.
Na região, o cenário agrícola vive uma transição profunda e ruidosa. De um lado, a lavoura do fumo ainda resiste impulsionada por preços momentaneamente atraentes, mas carrega um rastro severo de intoxicação e depressão entre os trabalhadores. Do outro, o avanço desordenado da monocultura do milho devasta a vegetação nativa com tratores e veneno.
O encolhimento do polo fumageiro e a virada geracional
A história vivida por Florisval reflete uma transformação estrutural que vem redefinindo o Agreste. A transição do cultivo do tabaco para outras culturas tem sido constante nas últimas décadas no polo fumageiro de Alagoas.
Na década de 1980, o estado colhia uma média de 35 mil hectares de fumo por ano. Nos anos 2010, esse número despencou para uma média anual de 9,4 mil hectares, segundo dados da pesquisa Produção Agrícola Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PAM/IBGE).
Na comunidade de Santa Rosa, essa queda no plantio não ocorreu por acaso. Além das oscilações de mercado, o fator decisivo foi a escolarização e a emancipação da juventude rural.
"A escolaridade melhorou. Há muitas condições para estudo. Os rapazes e as meninas começaram a estudar e a fazer cursos técnicos. Temos aqui biólogos na nossa comunidadezinha, temos químico, pessoas que dominam a enfermagem, com cursos agrícolas", destaca Florisval.
Ao conquistar diplomas e especializações, os jovens passaram a atuar em novas áreas profissionais, deixando de compor a mão de obra pesada das roças. Sem os filhos na lavoura, os agricultores mais idosos reduziram as áreas plantadas.
Apesar do encolhimento histórico, o fumo recusa-se a desaparecer por completo devido ao apelo financeiro imediato. Cotado atualmente entre R$ 40 e R$ 50 o quilo em períodos de estiagem, o produto atrai famílias que não veem alternativas econômicas rápidas. Mas o custo cobrado pela cultura vai muito além do financeiro.
O manejo de agrotóxicos pesados gera episódios recorrentes de intoxicação e afeta diretamente a saúde mental dos camponeses.
Sem assistência imediata no campo, Florisval frequentemente recorre a conhecimentos tradicionais de emergência, como o uso do pó de carvão ativado, para prestar os primeiros socorros aos vizinhos envenenados pelas bombas de pulverização.
"Quando o agricultor chegou na minha casa envenenado eu dei um pouquinho de pó de carvão ao cabra. No outro horário ele só bebeu dois copos d'água. Muita gente envenenada, muita gente indo para a emergência na época da colheita. Depressão, a maioria das famílias tem um, dois com muita depressão. Então o fumo causa tudo isso e o veneno que usa no fumo", denuncia o técnico em agroecologia.
Do fumo ao milho: a nova ameaça sobre o bioma
À medida que o fumo recua, outra ameaça ganha força no Agreste: a febre do milho comercial. A nova monocultura introduziu o uso ostensivo de maquinário pesado e grande quantidade de defensivos agrícolas para "limpar" o terreno.
“Não é fumo, agora é a história do milho, também outra coisa danada, que usa muito veneno. Veneno para matar o mato, a máquina grande também que vem acabando com todo tipo de planta, deixa só a área preparada para produzir o milho", alerta Florisval.
O uso de tratores raspando o solo deixa a terra desprotegida, acelerando o assoreamento de riachos e provocando o desaparecimento de pequenas lagoas nativas da Caatinga. Diante desse rastro de degradação, Florisval e outros produtores organizaram o coletivo Caatingueiros e Caatingueiras, atuando na conscientização ambiental e cobrando fiscalização dos órgãos competentes.
A verdadeira riqueza: o saber agroecológico e a cura pela terra
Enquanto o modelo convencional insiste no insumo químico e na degradação, a propriedade de Florisval Costa funciona como um laboratório vivo de agroecologia e farmácia natural.
Por lá, o cultivo diversificado dá lugar à produção caseira de óleos de gergelim e girassol, chás e tinturas medicinais, como a extraída do pau-ferro, utilizadas por moradores locais no tratamento de feridas e inflamações.
Embora reconheça que a transição agroecológica ainda enfrenta resistência devido ao imediatismo financeiro do fumo, Florisval permanece firme na missão de demonstrar que a terra pode produzir vida sem destruição.
"Poucas pessoas aderem esse estilo que eu faço aqui. Na nossa comunidade de Santa Rosa ninguém tem essa prática que eu faço. Acham bonito, vem visitar, vem pegar plantas para fazer chá, para fazer remédio, vem comprar o óleo, mas não fazem assim", desabafa.
Para o integrante da Rede Mutum, a verdadeira autonomia camponesa não é medida pelo acúmulo de capital à custa da saúde, mas pelo aprendizado compartilhado e pelo respeito à vida no semiárido. "O que rende é esses valores que a gente reconhece que é um valor importante, que é a vida saudável", conclui Florisval.