Sempre que eu vejo o alerta de “imagens fortes” nos sites e jornais online, eu pulo de notícia, imediatamente. Tudo que o veículo quer, assim como as redes sociais, e eles são cada vez mais parecidos, é engajamento. Então lhe oferecem algo desejado ou desejável - irracionalmente.
Sua (nossa) leitura silenciosa, aos ouvidos deles, vai soar com aquele barulhinho de máquina registradora, que indica que o dinheiro está entrando junto com sua atenção. E cada vez mais eu passo longe disso.
Claro que a maioria das gentes sabe que a violência – assim como o sexo – atrai mais a atenção de leitores e espectadores em todo o mundo, o que é próprio dos humanos. Há muitas explicações para isso, inclusive aquela que psicólogos chamam de “viés de negatividade”: nós estamos mais sintonizados com o que é ruim do que com o que é bom.
(Só para lembrar: eu já tratei aqui daquele amigo ou parente, e todos nós temos ao menos um, que adora dar uma notícia ruim, de morte, doença ou uma tragédia envolvendo alguém conhecido – pessoalmente ou não. É uma emissora itinerante, que espalha a dor – que não é a dele, claro.)
Ainda pelo início da década de 1980, eu acompanhava no antigo Hospital dos Usineiros o cardiologista Ivan Ramos, um homem surpreendente: ele era duro com os estudantes de Medicina, e eu era um deles, mas extremamente cordial e respeitoso com os muitos pacientes que atendia – a imensa maioria de trabalhadores rurais, cortadores de cana, principalmente, e seus familiares.
Uma pergunta recorrente, na sua precisa e serena anamnese, era sobre o coração do paciente. A resposta mais repetida:
- Tenho um coração fraco, doutor. Eu não posso ver um menino chorando ou um bicho sofrendo, que eu choro também.
Bons homens e mulheres, eis a verdade. Se a princípio isso nos provocava riso, até pela reação do médico, já bem experiente, aprendemos a respeitar aquela frase dita de forma tão espontânea - o risinho debochado foi se desmanchando e se transformando em profundo respeito.
Hoje, eu posso dizer, a afirmação sempre repetida me cabe como uma luva, ainda que eu prefira falar em “mente fraca” - aos olhos da maioria, pelo menos. Incomodo-me com a dor alheia, sofro ao vê-la exposta, me emociono e me revolto (tenho a fama, até entre amigos, de ser um bicho sentimentaloide).
E com o andar da carruagem da mídia tradicional, rumo ao conteúdo mais perverso das redes sociais, cada vez assisto menos o noticiário, inclusive das TVs fechadas, que a cada manhã trazem os casos mais escabrosos, ocorridos na madrugada, com um nível de detalhamento espantoso, só possível por causa das câmeras de segurança (o big brother desses tempos).
Com a opção preferencial pelos casos mais chocantes, feita pelas redes de televisão, resolvi seguir os conselhos do filósofo holandês Rutger Bregman, que praticamente não vê mais as edições matinais televisivas. No seu “Humanidade – uma história otimista do homem”, o escritor nos garante que ele e sua família ganharam em qualidade de vida e de humor para começar o dia, após essa decisão.
Estou gostando muito da experiência. Compenso a minha ignorância temporária com a leitura dos jornais tradicionais, que acesso pela internet, selecionando as notícias que me interessam e que não vão me levar a um território sombrio, à sensação de que o mundo está se desmanchando (não ainda).
Talvez, a razão se dê ao estatístico libanês Nassim Taleb, conhecido também por suas frases provocadoras e divertidas:
- Não somos suficientemente racionais para estarmos expostos à imprensa.
Para um homem de “mente fraca”, isso bem que faz sentido.
