Familiares e amigos de Amanda Rhuanny Lopes da Silva, de 32 anos, realizaram um protesto na tarde desta quarta-feira (9), na Rua Cleto Campelo, no Jacintinho, em Maceió. A manifestação ocorreu quatro dias após a comerciante ser morta com um disparo de arma de fogo efetuado por um policial militar durante uma abordagem no bairro.

Os manifestantes bloquearam parcialmente a principal via da região, nas proximidades da entrada da Grota do Cigano e da Feirinha do Jacintinho, e atearam fogo em materiais na pista. A fumaça se espalhou pelas ruas próximas e o trânsito ficou congestionado.

Equipes do Departamento Municipal de Transportes e Trânsito (DMTT) foram mobilizadas para organizar o tráfego, enquanto o Corpo de Bombeiros atuou no combate às chamas e na retirada dos materiais deixados na via. Por volta das 18h30, o fogo já havia sido apagado e a rua começava a ser liberada.

O protesto foi motivado principalmente pela divergência entre a versão apresentada pela Polícia Militar e a narrativa dos familiares sobre o que aconteceu no último sábado (5).

Segundo a PM, uma equipe foi acionada para verificar uma denúncia de tráfico de drogas na região da Aldeia do Índio, onde haveria um grupo de homens em via pública e a informação de que um deles estaria armado. Durante a abordagem, conforme a corporação, houve uma aglomeração de pessoas que teria avançado em direção aos policiais.

Ainda de acordo com a PM, Amanda teria ultrapassado o perímetro de segurança, discutido com um dos militares, empurrado o agente e tentado pegar sua arma. Diante da situação, o policial teria efetuado um único disparo, que atingiu a mulher no peito.

A família, no entanto, contesta essa versão e afirma que houve uso desproporcional da força. Durante o protesto, o tio de Amanda, Marcos, questionou a dinâmica apresentada pela corporação e cobrou esclarecimentos sobre a câmera corporal que estaria acoplada ao equipamento do policial.

“Cadê a câmera peitoral?”, questionou o familiar, ao defender que as imagens poderiam ajudar a esclarecer o que ocorreu durante a abordagem.

A atuação do policial também passou a ser questionada em razão de outros procedimentos judiciais aos quais ele responde. O Ministério Público de Alagoas acompanha o caso e levantou questionamentos sobre a permanência do militar no serviço operacional, diante da existência de uma denúncia formal por tentativa de homicídio relacionada a outro episódio.

Outro ponto que entrou no centro da discussão foi o procedimento adotado após a morte de Amanda. Os policiais envolvidos não teriam registrado a ocorrência imediatamente na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), como prevê o protocolo para casos de morte decorrente de intervenção policial. Posteriormente, a investigação passou a ser conduzida de forma conjunta pela DHPP e pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO).

A defesa do policial também se manifestou publicamente sobre o caso. Em publicações nas redes sociais feitas na terça-feira (8), o advogado Napoleão Lima Júnior afirmou que o agente teria agido para preservar a própria vida e defendeu que policiais possam reagir diante de situações consideradas ameaçadoras. As declarações provocaram reação entre os familiares da vítima.

A Polícia Civil de Alagoas investiga as circunstâncias da morte e deverá apurar, entre outros pontos, a dinâmica do disparo e as condutas adotadas durante a abordagem. O equipamento utilizado pelo policial também foi apreendido e deverá passar por perícia, que pode contribuir para esclarecer o que ocorreu antes e no momento do tiro.

Enquanto a investigação segue, familiares e amigos de Amanda cobram responsabilização pelo ocorrido e afirmam não reconhecer a versão apresentada pela Polícia Militar.