Campanhas eleitorais sempre buscaram um gesto capaz de resumir uma candidatura. O “V” com os dedos atravessou gerações como símbolo de vitória. O “L” de Lula transformou uma inicial em identidade política. São sinais simples, facilmente reproduzidos e capazes de converter simpatizantes em participantes visíveis de uma campanha.
Em Alagoas, o “muque” de JHC talvez jamais tivesse ultrapassado os limites de uma fotografia nas redes sociais. Mas a campanha de Renan Filho resolveu pautá-lo. Levantou suspeitas de manipulação por inteligência artificial, ironizou o tamanho do bíceps e levou o próprio candidato a declarar que não precisava “aumentar músculo por IA”. O que parecia uma oportunidade de desgaste acabou funcionando como uma poderosa campanha de apresentação do gesto.
JHC, que sabe ler o ambiente digital e explorar o espírito de cada momento, fez o movimento óbvio: surfou na onda. Incorporou o muque, estimulou sua repetição e permitiu que apoiadores transformassem a provocação adversária em demonstração de força. O gesto deixou de ser apenas uma pose individual e começou a adquirir aquilo que toda campanha procura: reconhecimento, pertencimento e possibilidade de reprodução popular.
Pouco importa, politicamente, se houve retoque, filtro, ângulo favorável ou inteligência artificial. Campanha não é uma perícia sobre anatomia. Ao insistir no tamanho do braço do adversário, a estratégia governista desviou o debate dos assuntos que poderiam realmente confrontá-lo e entregou a JHC um símbolo pronto, divulgado gratuitamente por quem desejava atacá-lo. Tentaram reduzir o candidato a uma caricatura e terminaram oferecendo a ele uma assinatura visual.
Como sempre digo, campanha vence quem erra menos. Nesse episódio, a campanha de Renan Filho errou feio: escolheu uma pauta irrelevante, ampliou aquilo que pretendia ridicularizar e ainda ajudou o adversário a transformar um bíceps em linguagem política. A campanha de JHC ganhou um novo ativo. E ganhou de presente.
