Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar meteram na cabeça o chapéu de vaqueiro. Com isso, estavam fazendo uma homenagem ao “povo nordestino”. A “originalidade” do gesto mostra o que a dupla entende por identidade brasileira, digamos assim. Eu não sei o que é maior: se a irritação ou o tédio diante dessa presepada que atravessa os séculos. Quem terá sido o primeiro candidato na história a recorrer a tal elemento semiótico?
Não é exclusividade de nenhuma corrente ideológica, de nenhum campo político, da esquerda ou da direita. Porque demagogia, ignorância e populismo barato são atributos democraticamente distribuídos por todos os lados da política. FHC, Lula e Bolsonaro aderiram à mesma fantasia. JK e Figueiredo também. A tradição pegou geral.
No curso da terceira década do terceiro milênio, já deu. Mas como as transformações culturais não ocorrem por decreto, o artefato segue por aí desafiando o bom senso e a lógica, além de azucrinar o juízo de quem pensa em coisas como simbologias e escolhas para interagir com o outro. Por que esses adereços sobre cabeças ocas?
Suspeito que a ideia partiu do deputado Alfredo Gaspar, cabra da peste forjado nos corredores do Ministério Público. Flávio não pensou uma vez e meia para aderir à ideia – o que mostra que o espírito de um tempo é algo de longa duração. E, pelas imagens da carreata em Maceió, apenas os dois candidatos usavam o enfeite na cuca.
Deve ter sido para destacar a chapa eleitoral. Uma busca por singularidade no meio da muvuca eleitoreira. Ao repetirem essa pasteurização de significados sobre um tipo brasileiro, Flávio e Gaspar pretendem exatamente o quê? A mensagem seria “somos homens comuns, gente do povo”. E ainda: exaltam “a força e a coragem”?
Para qualquer lado que se olhe, nada é saudável na encenação de uma “brasilidade” fantasiosa. Primeiro porque Nordeste não é fator de determinação de grupos e indivíduos. Somos cada um, com modos, sotaques e dramas específicos e diversos. Exatamente como ocorre com os outros milhões de brasileiros, Brasil afora.
Nem se fale de folclore, porque a discussão seria interminável. Há também uma ironia nessa carnavalização do vaqueiro, o homem do campo no interior do Nordeste. Como diria Odorico Paraguassu, a peça remete a tradições “cangacistas e sanguinolentas”. Ora, a dupla Flávio-Gaspar é o oposto disso daí. São dois xerifes no combate ao crime.
Para completar, tem João Gomes, novo ídolo do cancioneiro nacional, emulando o vaqueiro com seu chapéu “identitário”. Uma velha marmota ressignificada. Ê, boi!
