A intervenção urbana no Riacho Salgadinho, em Maceió, é um monumento à política das aparências. O programa Renasce Salgadinho, agraciado com prêmios de inovação, entregou à cidade um cartão-postal renovado: ciclovias modernas, iluminação em LED e um paisagismo que convida o cidadão a ocupar o espaço público. Visualmente, a transformação é inegável e devolveu dignidade estética ao centro urbano. No entanto, quando você observa o corpo hídrico do canal verifica que a obra não passa de uma “ rica moldura para o mesmo esgoto que sempre existiu. Por trás do verniz de modernidade e dos 700 metros lineares de jardins filtrantes, corre a mesma realidade fétida de décadas atrás. Como bem sintetiza o urbanista e professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Dilson Ferreira, o projeto atua essencialmente como uma "grande praça", camuflando um colapso estrutural que a estética é incapaz de curar.

 

O Saneamento Esquecido na Origem

 

O erro estrutural do projeto reside no tratamento do sintoma em detrimento da causa geográfica. O riacho é o corpo receptor final de uma imensa bacia hidrográfica que se estende por aproximadamente 27 km². No entanto, o foco das obras concentrou-se em um trecho de menos de 2 km. Nas áreas a montante, especialmente nas grotas e no Vale do Reginaldo, o saneamento básico permanece uma ficção jurídica. Sem redes eficientes de esgotamento e com coleta de lixo precária, os dejetos de milhares de residências continuam correndo ladeira abaixo. As barreiras de contenção e os sistemas biológicos com plantas macrófitas limpam o visual do curso d'água, mas o núcleo do passivo sanitário segue intocado. Vestir o canal com praças sem sanear as cabeceiras da bacia é o equivalente a reformar a fachada de um prédio sem banheiros sanitários.

 

A Ilusão Rompida pelas Chuvas

 

A fragilidade da engenharia ambiental se manifesta de forma dramática a cada quadra chuvosa no litoral alagoano. Quando as precipitações aumentam, toda a deficiência sanitária das áreas negligenciadas da bacia vem à tona. O sistema de bombeamento das estações elevatórias simplesmente não possui capacidade técnica para absorver, tratar e encaminhar ao emissário submarino o volume misto de água e resíduos gerado pelas tempestades. O resultado é o extravasamento inevitável de águas escuras e contaminadas diretamente na Praia da Avenida. A mancha de poluição que se espalha pelo mar — historicamente acompanhada de perto pelo Ministério Público Federal (MPF) devido aos impactos na balneabilidade — funciona como uma denúncia visual: a poluição não foi equacionada, foi apenas temporariamente represada.

 

A Necessidade de uma Ecologia Real

 

As obras provam que o urbanismo descolado da ecologia profunda gera apenas soluções paliativas. Para que o riacho renasça de fato, e não apenas no slogan oficial, o foco dos investimentos precisa migrar da superfície para o subsolo. É urgente a execução integral das ações previstas no Plano Municipal de Saneamento Básico, universalizando a coleta de esgoto nas comunidades de alta vulnerabilidade social que circundam a bacia. Até que a raiz do problema seja enfrentada com o mesmo empenho dedicado ao paisagismo, o Salgadinho continuará sendo o símbolo de uma cidade que embeleza suas margens, mas escolhe ignorar o curso de suas próprias águas.

 

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