A história das civilizações é regida por ciclos de expansão e retração. Como observou o historiador Ibn Khaldun, os impérios seguem uma trajetória previsível: nascem da ambição, crescem pela pressão, dominam pela força, desgastam-se pelos excessos e colapsam pela exaustão fiscal e social. Do Império Romano à hegemonia britânica, a trilha se repete.

No século XXI, o “Império Americano” não deve enfrentar uma queda abrupta, mas sim o início de um declínio definitivo, iniciando-se  pela erosão de sua capacidade de ditar,  e ver cumpridas,  as regras globais de forma unipolar. O esgotamento do modelo de Washington manifesta-se na sobrecarga militar, no crescente endividamento trilionário e em uma fratura ideológica interna que conflita suas instituições. Na espiral dessa retração, o restante do planeta tende a reorganizar-se. A questão central contemporânea reside em compreender como as forças antes subordinadas se unem para enfrentar essa hegemonia e o que esperar dessa transição geopolítica.

 

O Desgaste pelos Excessos e os Erros Estratégicos de Washington

 

O declínio norte-americano é acelerado por escolhas estratégicas equivocadas que mimetizam os erros de grandes potências do passado. O primeiro erro é a hipertrofia militar (imperial overstretch). Ao manter centenas de bases e envolver-se em conflitos prolongados no Oriente Médio e na Eurásia, os Estados Unidos criam absurdas estruturas de gastos e drenagem de sua riqueza material. Isso gerou uma crise fiscal na qual a dívida pública - cerca de US$ 38 trilhões/70 meses de prazo - cresce de forma insustentável, forçando o país a abusar da emissão de sua moeda sem a correspondente base de garantia. Enquanto os membros do BRICS+ possuem algo como US$ 1,1 trilhão de títulos da dívida americana, os USA tem em torno de US$ 300 bilhões em reserva e uma receita fiscal mensal estimada de US$ 435 bilhões. Uma liquidação coordenada dos títulos do Tesouro americano em posse dos atuais membros do BRICS seria suficiente para abalar profundamente a estabilidade financeira de Washington.

O segundo erro é a transformação do dólar e do sistema financeiro em armas de coerção geopolítica (weaponization of finance). Ao aplicar sanções unilaterais massivas e congelar reservas soberanas de rivais, Washington quebrou a premissa de neutralidade bancária global, destruiu a confiança na moeda americana e estimulou a busca de caminho alternativo de sobrevivência. Paralelamente, o avanço do isolacionismo protecionista e de tarifas agressivas alienou aliados na Europa e na Ásia, encarecendo as cadeias de suprimentos e alimentando a inflação doméstica. Por fim, a polarização política interna paralisou a capacidade do Estado de realizar reformas estruturais, minando a autoridade moral que sustentava seu poder.

 

A União das Forças Contra-Hegemônicas: O Pragmatismo do Sul Global

 

A resistência ao império não se organiza por meio de uma aliança militar clássica ou de um bloco ideológico rígido. A reação global ao poder dos Estados Unidos ocorre por meio de um arranjo pragmático, flexível e econômico, liderado pelo Sul Global e consolidado pelo bloco BRICS ampliado (BRICS+). Este bloco não busca a destruição militar do Ocidente, mas a construção de uma infraestrutura global alternativa que anule a capacidade de coerção de Washington.

O pilar técnico dessa união é o avanço da desdolarização. Iniciativas como o ecossistema BRICS Pay utilizam redes digitais integradas para permitir que nações comercializem diretamente em moedas locais, eliminando a necessidade do dólar como moeda-ponte. Ao integrar sistemas de pagamentos instantâneos — como o Pix brasileiro, o UPI indiano e o CIPS chinês —, essas nações contornam a rede ocidental SWIFT. Consequentemente, as sanções americanas perdem eficácia prática. Além disso, a expansão do bloco para deter o controle de fatias massivas das reservas mundiais de petróleo e minerais críticos cria um polo de poder material que rivaliza diretamente com o G7. Trata-se de uma busca coletiva por blindagem econômica e soberania comercial.

 

A Bifurcação Tecnológica e a Nova Geopolítica Digital

 

A disputa pela hegemonia transferiu-se para a infraestrutura digital, gerando o fenômeno conhecido como Splinternet — a divisão da internet e da alta tecnologia em duas esferas de influência distintas. Diante das restrições e sanções americanas à exportação de semicondutores e microchips avançados, o bloco oriental, liderado pela China, acelerou o desenvolvimento de cadeias de suprimentos independentes de patentes ocidentais.

Essa fragmentação obriga os países em desenvolvimento a navegarem por uma arquitetura digital dual. De um lado, encontra-se o ecossistema liderado pelos Estados Unidos, baseado em Big Techs privadas, cabos submarinos controlados por consórcios ocidentais e legislações que permitem o acesso extraterritorial a dados. Do outro, consolida-se uma infraestrutura asiática e euro-asiática, ancorada em investimentos estatais, redes de conectividade 5G/6G integradas e modelos de Inteligência Artificial voltados para a soberania nacional. A tecnologia tornou-se o principal ativo de segurança e defesa dos Estados nacionais no século XXI.

 

O Posicionamento do Brasil: Autonomia e Reindustrialização Pragmática

 

Dentro desse tabuleiro multipolar, o Brasil adota uma postura de “Autonomia Pragmática”. Historicamente pressionado pela Doutrina Monroe a alinhar-se de forma automática a Washington, o país aproveita a fragmentação global para maximizar seus interesses nacionais, recusando-se a escolher um lado definitivo no conflito entre as superpotências.

Na vertente comercial, o Brasil consolidou-se como um ator indispensável para a segurança alimentar e energética global. O país utiliza seu peso no BRICS e no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) para acessar linhas de financiamento em moedas alternativas, viabilizando obras de infraestrutura logística sem a submissão às condicionalidades do Fundo Monetário Internacional.

No campo industrial, o Brasil beneficia-se do fenômeno do powershoring. Com uma matriz elétrica renovável, o país atrai indústrias globais que buscam descarbonizar suas cadeias produtivas para escapar das barreiras tarifárias verdes da Europa e dos EUA. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro passa a incentivar o adensamento tecnológico e o processamento local de seus minerais críticos, combatendo a mera exportação de matéria-prima bruta. Na área digital, o investimento em nuvens soberanas e a proteção de dados domésticos sob a LGPD buscam garantir que o país não se torne uma colônia digital.

 

O Presente Multipolar e as Projeções Futuras

 

O momento presente não deve ser lido como o anúncio de um apocalipse geopolítico, mas como uma transição lenta, sistêmica e inevitável. Os Estados Unidos continuarão a ser uma potência formidável por décadas, mas o mundo unipolar sob a égide da Pax Americana chegou ao fim. O futuro reserva a consolidação de uma ordem multipolar fragmentada, onde o poder está disperso entre diferentes polos regionais de influência.

O que se pode esperar do cenário contemporâneo é um período prolongado de fricção econômica e instabilidade diplomática, à medida que as velhas instituições criadas no pós-Segunda Guerra Mundial perdem legitimidade e novas estruturas, moldadas pelo Sul Global, ganham escala. Para os países emergentes, o fim da hegemonia absoluta de um único império abre uma janela histórica de oportunidade. Aqueles que souberem operar com pragmatismo, protegendo sua soberania digital, fortalecendo sua base industrial verde e diversificando suas parcerias financeiras, serão os arquitetos da nova governança global.

 

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