Os grandes movimentos políticos costumam enfrentar seus desafios mais difíceis não quando combatem adversários externos, mas quando precisam decidir qual caminho seguir. É exatamente isso que parece ocorrer no bolsonarismo diante das divergências entre Flávio e Michelle Bolsonaro sobre a estratégia do PL no Ceará.
À primeira vista, trata-se apenas de uma disputa em torno de alianças regionais. Na realidade, o episódio revela duas concepções distintas sobre como conquistar o poder e, principalmente, como preservar um movimento político que nasceu apoiado em valores fortemente identificados por sua base eleitoral.
De um lado está Flávio Bolsonaro.
Como senador e articulador político, sua atuação naturalmente o aproxima do pragmatismo. Sua preocupação central é construir as condições necessárias para vencer eleições, mesmo que isso exija dialogar com antigos adversários ou estabelecer composições que, em outros momentos, pareceriam improváveis.
Na política profissional, essa lógica não representa uma exceção. Governos são formados por maiorias, e maiorias raramente surgem da pureza ideológica. Costumam nascer da capacidade de reunir forças diferentes em torno de um objetivo comum.
Michelle Bolsonaro representa outra tradição.
Sua liderança não foi construída dentro das estruturas partidárias nem nas negociações entre dirigentes. Ela nasceu da relação direta com a militância conservadora, especialmente junto ao eleitorado evangélico, feminino e pró-vida.
Seu patrimônio político repousa muito mais na solidariedade ao marido e na confiança da base do que na capacidade de negociar alianças.
Por essa razão, qualquer aproximação com personagens que durante anos ocuparam posição de confronto ao bolsonarismo pode produzir, para ela, um desgaste muito maior do que para dirigentes acostumados ao jogo político tradicional.
O Ceará tornou-se o palco dessa divergência.
Historicamente, o estado, com aproximadamente 6,9 milhões de eleitores, apresenta uma das maiores resistências eleitorais ao bolsonarismo. Na eleição presidencial de 2022, Lula venceu nos 184 municípios cearenses e abriu uma vantagem superior a dois milhões de votos sobre Jair Bolsonaro. Na disputa estadual, o candidato apoiado pelo campo da direita, Capitão Wagner, também foi derrotado.
Esses números ajudam a compreender a lógica defendida pelos pragmáticos.
Para eles, insistir exclusivamente na mesma estratégia dificilmente produziria resultados diferentes. Se a direita pretende crescer no Nordeste, precisará encontrar lideranças regionais capazes de romper a hegemonia construída pelo grupo político liderado pelo PT no estado.
É exatamente nesse contexto que surge o nome de Ciro Gomes.
Depois de quatro candidaturas presidenciais, Ciro decidiu concentrar seus esforços na disputa pelo Governo do Ceará. Pesquisas divulgadas por diferentes institutos ao longo de 2026 passaram a colocá-lo na liderança da corrida estadual, com vantagem sobre o atual governador Elmano de Freitas. Em levantamentos como os do Ipsos-Ipec e AtlasIntel, Ciro aparece liderando tanto no primeiro turno quanto em eventuais segundos turnos, aproximando-se dos 50% das intenções de voto e abrindo margem próxima de dez pontos percentuais sobre seus principais adversários.
Independentemente do resultado final das urnas, esses levantamentos demonstram que ele continua sendo uma das maiores lideranças políticas do estado.
É justamente aí que o pragmatismo de Flávio Bolsonaro encontra sua principal justificativa estratégica.
Para essa corrente do PL, uma eventual aproximação com Ciro Gomes não teria como objetivo apenas conquistar o governo estadual.
O cálculo é mais amplo.
Na eleição presidencial de 2022, a diferença nacional entre Lula e Jair Bolsonaro foi de aproximadamente 2,1 milhões de votos. A vantagem obtida por Lula apenas no Ceará representou um número muito próximo dessa diferença nacional.
Sob essa ótica, reduzir significativamente a distância eleitoral no estado poderia produzir efeitos muito além das fronteiras cearenses.
Se Ciro Gomes confirmar sua liderança eleitoral e construir um amplo movimento de oposição aos atuais governos estadual e federal, parte dos estrategistas do PL acredita que isso poderá criar um ambiente mais favorável ao candidato presidencial apoiado pelo bolsonarismo.
Naturalmente, não existe garantia de transferência automática de votos. O comportamento do eleitor depende de inúmeros fatores, e pesquisas para governador não permitem concluir, por si só, que seus eleitores acompanharão uma eventual indicação presidencial.
Entretanto, a experiência eleitoral brasileira mostra que campanhas estaduais competitivas costumam fortalecer candidaturas ao Senado e à Presidência da República, ampliando sua presença regional e reduzindo vantagens históricas dos adversários.
Para o pragmatismo político, essa possibilidade já justificaria o esforço de construir alianças.
Michelle Bolsonaro enxerga o problema por outra perspectiva.
Sua preocupação parece concentrar-se menos na matemática eleitoral e mais na preservação da identidade do movimento.
Movimentos políticos conservadores sobrevivem porque estabelecem uma relação de confiança com seus apoiadores. Quando seus líderes passam a realizar acordos considerados incompatíveis com o discurso que os levou ao poder, parte dessa confiança pode ser perdida.
É exatamente aí que surge sua resistência.
Na sua avaliação, determinadas alianças podem produzir ganhos eleitorais imediatos, mas gerar custos políticos futuros.
Essa visão encontra respaldo em lideranças como Priscila Costa.
Deputada federal e uma das principais representantes da direita conservadora no Ceará, Priscila consolidou seu eleitorado em torno de pautas como a defesa da vida, da liberdade religiosa e da família.
Sua expressiva votação em Fortaleza demonstra que existe espaço para uma direita que cresça fortalecendo suas próprias lideranças, sem necessariamente recorrer a alianças com antigos adversários.
Esse contraste revela um dos dilemas mais antigos da ciência política.
O pragmatismo pergunta: como vencer?
O conservadorismo pergunta: vale vencer de qualquer maneira?
Nenhuma dessas perguntas possui resposta definitiva.
O excesso de pragmatismo pode produzir governos eleitoralmente fortes, mas politicamente descaracterizados.
O excesso de idealismo pode preservar princípios, mas inviabilizar vitórias ou dificultar a formação das maiorias necessárias para governar. Sob essa ótica, a preocupação de Flávio Bolsonaro extrapola a política local: sua estratégia está inserida em uma disputa presidencial.
Provavelmente, toda grande força política precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre essas duas visões.
Talvez seja exatamente esse o desafio que o bolsonarismo enfrenta neste momento.
Sem Jair Bolsonaro elegível e sem sua liderança direta nas urnas, surgem novos protagonistas e inúmeras especulações sobre quem conduzirá o movimento nas próximas campanhas.
O episódio ocorrido no Ceará talvez seja apenas a primeira manifestação pública de um debate que deverá repetir-se em diversos estados do Nordeste.
Mais do que uma divergência entre Flávio e Michelle Bolsonaro, o que está em discussão é o próprio modelo de expansão do bolsonarismo.
Deve ele ampliar suas alianças para conquistar novos territórios eleitorais?
Ou preservar rigorosamente sua identidade — sem repetir o isolamento político que muitos aliados apontam como um dos fatores que contribuíram para a inelegibilidade de Jair Bolsonaro — mantendo íntegra a confiança de sua base mais fiel?
O tempo responderá.
Mas uma conclusão já pode ser extraída.
Tinha de ser no valente, impaciente e objetivo Ceará — um estado que nunca aceitou a pobreza como sentença definitiva — que a política nacional deixasse de ser apenas uma disputa regional para transformar-se em um verdadeiro laboratório estratégico.
Ali se confrontam duas escolas clássicas da política: o pragmatismo, que aposta na construção de maiorias, e o idealismo, que acredita que a força de um movimento reside, antes de tudo, na lealdade aos seus princípios.
Se Flávio Bolsonaro estiver correto, uma vitória de Ciro Gomes poderá reduzir a vantagem histórica do PT em um estado decisivo e fortalecer o palanque presidencial da direita em uma eleição nacional potencialmente equilibrada.
Se Michelle Bolsonaro estiver correta, preservar a coerência ideológica poderá ser o fator determinante para manter mobilizada uma base eleitoral que sempre enxergou no bolsonarismo um movimento diferente da política tradicional.
Talvez ambos tenham parte da razão.
Porque eleições são vencidas pelos votos conquistados nas urnas.
Mas movimentos políticos apenas atravessam gerações quando conseguem preservar a confiança daqueles que lhes deram origem.
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