Há debates que esclarecem. Outros apenas produzem calor, sem gerar luz. Entre estes últimos está a insistente troca de acusações de “comunista” e “fascista” que domina parte da política contemporânea. Em vez de ajudar a compreender os desafios do presente, esses rótulos mantêm o debate aprisionado a categorias concebidas para interpretar os conflitos do século XX.

 

Vivemos um verdadeiro delay ideológico. Enquanto a economia, a tecnologia e a geopolítica transformaram profundamente o mundo, parte do discurso político continua recorrendo a conceitos que perderam grande parte de sua capacidade explicativa. Rótulos substituem argumentos, emoções ocupam o lugar das evidências e a polarização afasta o diálogo.

 

O comunismo clássico, formulado por Karl Marx, defendia a eliminação da propriedade privada dos meios de produção e uma economia integralmente planejada pelo Estado. Esse modelo praticamente desapareceu. O caso mais emblemático é a China: governada pelo Partido Comunista Chinês, adota mecanismos de mercado, incentiva a iniciativa privada, atrai investimentos e utiliza o lucro como motor da expansão econômica. O Estado preserva o controle político, mas sua organização econômica aproxima-se muito mais do capitalismo de Estado do que do comunismo clássico. O mesmo ocorre, em diferentes graus, no Vietnã.

 

O embate econômico contemporâneo já não se dá entre capitalismo e comunismo, mas entre diferentes formas de capitalismo — liberal, social-democrata e estatal. Ainda assim, a palavra “comunismo” continua sendo usada como arma retórica contra qualquer proposta que amplie a participação do Estado na economia.

 

Fenômeno semelhante ocorre com o fascismo. Historicamente, tratou-se de um regime autoritário marcado pelo partido único, culto ao líder, supressão das liberdades e uso sistemático da violência política. Hoje, porém, o termo é frequentemente empregado de forma indiscriminada para rotular desde movimentos efetivamente extremistas até conservadores, liberais ou defensores de menor intervenção estatal.

 

Enquanto isso, a verdadeira discussão mudou de eixo. As principais economias reconhecem que não existe crescimento sustentado sem produtividade, inovação, investimento e possibilidade de lucro. A divergência deixou de ser sobre a existência do lucro e passou a concentrar-se em como regulá-lo, tributá-lo e distribuir seus benefícios sociais. O mundo tornou-se híbrido; o discurso político permanece binário.

 

As redes sociais aprofundam essa distorção ao premiar conteúdos que despertam indignação e confronto. Surge a polarização afetiva: o adversário deixa de ser alguém com ideias diferentes para tornar-se um inimigo moral. O resultado é o empobrecimento do debate público justamente quando desafios como produtividade, educação, inteligência artificial, competitividade e segurança exigem análise técnica e cooperação institucional.

 

Nesse contexto, a Inteligência Artificial pode representar uma mudança importante. Ao democratizar o acesso ao conhecimento, permite que qualquer cidadão confronte informações, compare interpretações e forme opiniões mais fundamentadas. A informação tornou-se abundante; o discernimento continua sendo o recurso mais escasso.

 

O verdadeiro atraso não está em defender ideias de esquerda ou de direita. Está em insistir que os desafios do século XXI ainda possam ser compreendidos exclusivamente pelas lentes ideológicas do século passado. Países prosperam quando abandonam caricaturas políticas e concentram suas energias em fortalecer instituições, ampliar a produtividade, estimular a inovação e criar condições para que a sociedade produza riqueza e bem-estar.

 

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