O querido e saudoso Sandoval Caju repetia a história com muito gosto: encontrara com Zé Kéti em uma emissora de rádio no Rio de Janeiro, e, na dúvida, indagou se ele era o autor de “Máscara Negra”. A resposta, segundo o ótimo ex-prefeito de Maceió, veio de um homem escabreado, sem convicção, o que confirmava as suas inarredáveis suspeitas:
- É claro que não é dele. Não tem nenhuma outra música que seja conhecida!
Por estar envolvido naquela quadra com os grandes ídolos da MPB moderna, que faziam a cabeça da minha geração, eu ria com simpatia à afirmação tão peremptória do “Prefeito” (assim eu o tratava, sempre). Era uma birra semelhante à que seu Luiz Mota tinha com Cartola, que “só fez ‘As rosas não falam’” - o que já não seria pouco.
Nada melhor do que o tempo para corrigir algumas injustiças. Ao me debruçar, anos depois, sobre a obra de Zé Kéti, pude descobrir um criador refinado, de ótimas melodias e de letras às vezes líricas, outras debochadas e até provocadoras: “Podem me prender/ Podem me bater/ Podem até deixar-me sem comer/Que eu não mudo de opinião” (a ditadura o criticava porque ele morava numa casa de subúrbio, financiada pelo BNH, e cantava: "aqui do morro eu não saio, não". Como eram estúpidos!).
José Flores de Jesus nasceu em 1921, no subúrbio de um Rio de Janeiro ainda romântico. Tornou-se Zé Kéti, menino ainda, numa engenhosa corruptela de “Quietinho”. Um desses nomes que vamos ganhando pela vida, principalmente dos que gostam muito da gente (ou não gostam nada).
Rapazola, nos anos de 1930, começou a compor, tão logo passou a frequentar as escolas de samba: Mangueira, e depois Portela, a que conquistou definitivamente o seu coração.
Sua primeira música gravada, “Tio Sam no samba” (com os Vocalistas Tropicais), de 1946, não aconteceu. O sucesso só veio com um ótimo samba, “Leviana”, na voz de Linda Batista, um dos grandes nomes do rádio, em 1952.
Ele já abandonara, então, a farda da Polícia Militar do Rio de Janeiro – foi soldado – para dedicar-se a sua arte. E carregou pedras, como tantos outros grandes compositores da MPB, denominação que ainda não existia naquela quadra da vida brasileira.
Quem diria? Foi a musa da bossa nova, Nara Leão, que pôs o holofote sobre o Zé. Ela havia gravado algumas de suas músicas, em 1964, entre elas, “Opinião”, que veio a dar nome ao espetáculo histórico no improvisado teatro de um shopping do Rio de Janeiro. O dono do estabelecimento, Arnon de Mello - ele mesmo -, cedeu o espaço a uma turma da pesada: Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna Filho (Vianninha), Paulo Pontes e Tereza Aragão, entre outros. Todos oriundos do Centro de Cultura Popular (CPC) da UNE, fechado pela ditadura, tão logo instalada com suas baionetas e coturnos e ignorância.
Naquele mesmo ano, em 11 de dezembro, o espetáculo “Opinião”, dirigido por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, dois ícones do teatro brasileiro, estreou com estrondoso sucesso de público e de crítica. Foi a primeira grande manifestação artística na “era dos fardados”. Ao lado de Nara e João do Valle, o Zé mostrou que tinha samba no pé e coração de compositor inspirado.
Mas foi mesmo “Máscara negra” (em parceria com Hidelbrando Pereira Matos), de 1967, que o tornou o rei dos salões dos carnavais (quando havia) e possibilitou que ele gravasse, logo em seguida, o seu primeiro disco solo. Na minha memória afetiva, a belíssima marcha-rancho garantiu para sempre um lugar cativo. Ainda hoje, como então, já me sabia a saudade, a paixão de carnaval revivida.
Na minha “vitrola”, agora, tocam outros clássicos de Zé Kéti. Cito alguns: “Acender as velas”, “A voz do morro”, “Malvadeza Durão”, “Diz que fui por aí” e, a minha preferida, “Mascarada”.
Que ninguém se perca pelo nome: este é um samba-canção primoroso, dos melhores que conheço, com sua harmonia sofisticada e versos de raro bom gosto - coisa de gente grande.
O Prefeito que me perdoe a ausência, mas o Zé não se escondeu por trás da sua “Máscara negra”. Fez dela a sua identidade definitiva no cancioneiro popular do Brasil.
