"Não há abandono escolar nesse sentido. Há, sim, um mecanismo institucional violento que retira esse jovem da escola, que retira essa criança da escola." A afirmação contundente é do sociólogo, pesquisador e doutor em Educação Fabson Calixto e ataca de frente o coração da problemática que molda a exclusão social em Alagoas. 

O que o Estado e o debate público costumam classificar sob o rótulo confortável de "abandono" ou "escolha individual" é, na verdade, um processo sistemático de expulsão

As estatísticas oficiais apresentam que três a cada quatro jovens alagoanos fora da sala de aula ou sem empregos são negros.

É sob essa ótica de violência invisível que a realidade de Alagoas se impõe com urgência estatística. Um contingente de quase 170 mil jovens alagoanos vive hoje exatamente nesse limbo: estão fora das salas de aula, não possuem formação concluída e permanecem privados de qualquer fonte de renda formal. 

No jargão técnico, são rotulados sob a pecha generalista de "geração nem-nem"; na prática das periferias e dos interiores do estado, contudo, o recorte racial dos dados revela corpos negros que as estruturas estatais empurram ativamente para as margens.

Esta reportagem abre a série especial do portal CadaMinuto voltada a discutir em profundidade os desafios estruturais de Alagoas face às Eleições de 2026. 
 

Sociólogo e doutor em Educação, Fabson Calixto

O racismo que se atualiza e a inospitalidade escolar

Fabson argumenta que a instituição escolar de Alagoas se estruturou de forma hostil e pouco convidativa para a população negra. 

O racismo, longe de se restringir a xingamentos explícitos, atualizou-se de forma sofisticada com o tempo e o espaço, operando no dia a dia pedagógico para ditar a exclusão de maneira silenciosa.

"Engana-se que o racismo é somente uma forma de xingamento, chamar de macaco. Mas o mecanismo, o racismo, ele vai se atualizando com o tempo e com o espaço e vai criando várias outras estratégias e mecanismos de dizer ao tempo todo qual é o lugar social dos jovens negros, das crianças negras dentro dessa sociedade, que não são os lugares prestigiados ou os lugares de melhor ocupação", detalha o sociólogo.

Nesse contexto violento, a evasão ganha outro significado. Permanecer vivo e preservar a integridade física e simbólica, muitas vezes, exige que esses jovens e crianças criem estratégias de sobrevivência fora dos bancos escolares. 

A escola deixa de cumprir seu objetivo de formação a partir de oportunidades iguais porque o racismo atua na ausência de representatividade no currículo e no apagamento histórico.

A ilusão do tempo integral e o teto do subemprego

Ao longo dos últimos anos, a propaganda oficial transformou a expansão das escolas de tempo integral e os investimentos em cursos técnicos nas principais vitrines de eficiência do governo local. 

No entanto, o movimento negro e os especialistas em educação alertam para um paradoxo flagrante onde essas medidas têm falhado estruturalmente no estreitamento das desigualdades raciais de Alagoas porque ignoram deliberadamente a dimensão racial, focando apenas no aspecto socioeconômico.

"Essas políticas não são políticas afirmativas. Não são políticas de ações afirmativas. São políticas socioeconômicas que não dão conta das dimensões do racismo. Ou seja, elas não atingem, de fato, a população majoritária alagoana, né, que é negra. Então, elas não são políticas direcionadas para a resolução das questões raciais", dispara o especialista.

Além disso, o especialista coloca sob forte questionamento a qualidade e a finalidade real dos cursos técnicos voltados para a periferia, historicamente atrelados a estruturas como o Sistema S. 

Em vez de operarem como alavancas de ascensão social, o modelo atual tem servido para alimentar o mercado local com mão de obra barata, limitando o horizonte dessa população.

"São cursos de baixa qualificação, são cursos menos prestigiados (...) que alimentam uma geração de formação de sujeitos que vão ocupar funções de menor prestígio e de baixa remuneração. Então, o Estado precisa criar as possibilidades e formular políticas que deem conta para que esse jovem possa, sim, galgar espaços melhores e que possa condicionar a sua própria vida, a melhoria de vida de sua família e de sua comunidade”, dispara.

Meritocracia neoliberal vs. genialidade sequestrada

A ausência de oportunidades reais é frequentemente blindada pelo discurso moderno da meritocracia, do esforço individual e do "empreendedorismo" forçado de subsistência. 

Para o especialista, essa narrativa neoliberal é vazia e serve apenas para transferir a responsabilidade do fracasso sistêmico do Estado para o próprio sujeito, ignorando a capacidade intelectual histórica da população negra.

"Não é uma questão de querer, não é uma questão de maior ou menor esforço, ou uma questão de genialidade e inteligência. Nós, negros, sempre tivemos a capacidade. O que sempre nos colocou barreiras para interromper o nosso progresso educacional e no mercado de trabalho sempre foi o racismo. Historicamente, nós fomos interditados do processo educativo, nós fomos interditados de acessar o mercado de trabalho formal."

O sociólogo faz questão de resgatar a herança histórica do continente africano para desconstruir qualquer tentativa de inferiorização intelectual da juventude periférica.

O sociólogo faz questão de resgatar a herança histórica do continente africano para desconstruir qualquer tentativa de inferiorização intelectual da juventude periférica.

Renda não compra imunidade: o Estado precisa mudar o foco

A conclusão do especialista é categórica: o contingente de jovens desassistidos e sem rumo é um problema de Estado e exige que o poder público, primeiramente, humanize esses corpos e reconheça a sua dignidade como sujeitos de direitos. 

Embora os programas de transferência de renda sejam essenciais para combater a miséria imediata, eles são insuficientes por si só. Fabson utiliza um argumento contundente para demonstrar que a ascensão financeira não estanca o preconceito em uma sociedade estruturada pelo racismo:

"Um negro rico vai ser sempre o alvo do racismo, porque o dinheiro não vai embranquecer a ponto de as pessoas não perceberem a cor de sua pele. Portanto, as políticas assistenciais precisam caminhar de mãos dadas com políticas de equidade racial”, enfatiza.