Todos nós temos um conhecido e/ou um amigo que faz da propagação de más notícias um caminho reto para suportar as dores da vida e do mundo. “Tem gente pior do que eu” - haverá de dizer a si próprio, imagino.

É aquele sujeito que liga pra você a qualquer hora do dia ou da noite – não precisa ser de madrugada -, sem nenhum motivo aparente; pergunta como está, a família, e aí manda a bomba:

- Soube do P...?

- Hein?

- Ele está com uma doença degenerativa em estado avançado, perdendo os movimentos dos braços e das pernas. O médico disse que não tem tratamento. Já pensou?

(Não, eu não pensei e nem quero pensar. E o resto do dia/noite perde um tanto da sua alegria.) 

O Má-Notícia, no entanto, está alguns degraus acima na narrativa da tragédia alheia, normalmente gente conhecida por ele e por você – mesmo que não seja pessoalmente.

O meu noticiante trágico é um caso bem particular: um homem cuja vida o maltratou demais - e ainda maltrata -, que vive quase que perambulando pelas ruas, em busca, talvez, de um ouvinte paras as “novas” que ele carrega aos montes e com prazer, mas que pretende democratizar.

É de se destacar que as histórias contadas por ele são verdadeiras, reais, e só posso imaginar como elas chegam ao personagem - por busca ativa ou por leitura de obituário. O mais importante: ele não as cria, apenas espalha com sua incessante caminhada.

Faço o que posso para evitá-lo. Sempre que o vejo, mudo de caminho, aproveitando o fato de que ele, lamentavelmente, está quase sem enxergar nada, o que o leva a andar trôpego, buscando identificar as armadilhas do chão. Entretanto, como moramos próximos um do outro, e frequentamos quase que os mesmos lugares – supermercados, padarias etc. -, nem sempre consigo fugir.

Na semana que passou aconteceu mais um desagradável encontro com suas narrativas dolorosas:

- Você conhece o “fulano” do INSS?

Disse que “não”, mas é como se ele tivesse ouvido exatamente o contrário:

- Pois é. Está com câncer na cabeça, e parece que já tem metástase. É questão de dias, coitado!

Continuei minhas compras, em um depósito de material de construção, e não tive como me livrar de mais um enredo macabro:

- E o “sicrano”, que era da Gazeta, lembra? A mulher morreu do coração e ele ainda foi atropelado na rua em que mora. O motorista fugiu do local, sem prestar socorro!

Fui me exasperando e antecipei o fim das minhas compras. O dono do estabelecimento notou o meu incômodo e perguntou se eu queria concluir os pedidos por telefone - que ele se encarregaria de entregar. Aceitei a gentileza de bom grado, imaginando que num mundo de mais de 8 bilhões de pessoas, o Má-Notícia ainda teria alguém na fila para desenterrar algum enredo de despedidas sofridas.

Ao voltar para casa, liguei para o comerciante, que me atendeu gentilmente e ouviu a relação dos produtos que faltavam. Ao concluir, não se conteve:

- Ricardo, quando você saiu, ele ainda matou mais dois e internou outros três. Que vida!

Acho que exagero seria chamar isso de vida.