Ela chegou silenciosamente pelas costas desta ativista, Arisia Barros, coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, em um restaurante de supermercado.
-Desculpe-me chegar assim, mas, quero dizer que o cabelo da senhora é muito bonito. E esses cachos, então. Não vejo a hora dos meus ficarem assim, também!- disse ela com os olhos brilhando.
Esta ativista riu um riso para dentro, em conchavo com palavras não ditas.
A moça, em uma intimidade surgida, do reconhecimento entre iguais, começou a desfilar palavras de pertencimento:
- Eu estou em transição capilar. Meu cabelo batia na cintura, era alisado e, mesmo com um medo danado, decidi voltar às origens. Cortei.
E tirando a touca que usava, mostrou o cabelo curtinho, que ensaiava o caminho de volta à raiz. Nosso cabelo é tão bonito, não, é?
Disse que sim e segredei-lhe sobre cabelos.
É, mesmo?!- admirou-se ela. Mas, preciso dizer uma coisa:- A senhora é muito linda. Fico pensando como deveria ser, quando mais jovem.
Gostei da delicadeza genuína e disse-lhe que voltaria, outras vezes, para ver como estava indo a transição.
E ela hospitaleira:- -Venha mesmo, eu vou gostar. Trabalho naquele restaurante ali ( apontando o local). E para não perder o marketing:- Lá a sopa custa vinte reais.(risos)
Esta ativista gosta muito de sopa, principalmente, a que tem sabor de ‘casa de mãe’.
Quando a moça voltou ao seu posto de trabalho, esta ativista, ficou matutando sobre a memória ancestral do encontro não marcado,
Duas mulheres negras, como reflexo no espelho do auto encontro.
Descolonização do padrão normativo estético.
Auto estima feminina negra em ascensão.
Ativismo promovendo micro-revolução.
A senhora é muito linda!- disse a moça.
-Somos!- respondeu esta ativista, Arísia Barros
Ubuntu!

