Ciro Gomes é filiado ao PSDB. João Henrique Caldas também. Candidato a governador do Ceará, Ciro fechou aliança com o PL da família Bolsonaro. JHC é virtual candidato ao governo de Alagoas. Assim como seu colega tucano, o ex-prefeito de Maceió negocia apoio do mesmo PL. Mas existe, ao menos no discurso, uma diferença crucial entre as duas situações. Ciro diz que seu acordo com o PL vale apenas para a eleição estadual.

No caso alagoano isso não existe. Para apoiar JHC na disputa para governador, a direção do PL exige que ele dê palanque e declare voto em Flávio Bolsonaro. Ao contrário de Ciro Gomes, João Henrique não terá direito à neutralidade. Eis aí um entrave determinante até agora para um entendimento entre as partes. JHC quer repetir o modelo cearense.

Numa entrevista a uma emissora de rádio do Ceará nesta sexta-feira, Ciro fez acrobacia para explicar que está com o PL, mas não está tanto assim. Ele afirma ser “uma mentira” a informação de que apoiaria Flávio a presidente. Embaralhando fatos e versões, atribui aos adversários a “especulação” de que estará no palanque do Zero Um. 

Confiram as curvas no pensamento do ex-ministro dos governos do PT para negar apoio a Flávio: “Estão tirando essa mentira do fato de que o PL, partido do Flávio Bolsonaro, está entrando em entendimento conosco ao redor de uma agenda no Ceará. Não há aqui nenhum entendimento da política nacional”. O PL cearense, em tese, concorda.

O acerto entre PSDB e PL no Ceará chegou a ficar ameaçado após reclamações públicas de Michelle Bolsonaro. Ela defende que o partido dê apoio ao senador Eduardo Girão (Novo) na disputa pelo governo. Mas, pouco tempo depois, o acordo foi fechado. O PL indica um candidato ao Senado – e o vice de Ciro será também da extrema direita. 

Em nome do velho pragmatismo, Ciro separa a política local da política nacional. Não é algo inédito nas disputas eleitorais pelo Brasil. Muito pelo contrário. Quando isso ou aquilo são convenientes, danem-se os princípios que até ontem eram verbalizados com ênfase – no caso do cearense, até aos gritos. O que importa afinal é ganhar o jogo.

Se ele pode, por que eu não posso? É o que pergunta JHC ao buscar parceria do PL alagoano. O ex-prefeito quer a extrema direita como aliada, mas pede a separação entre as categorias regional e nacional, como faz Ciro Gomes no Ceará. E ainda tem Ronaldo Lessa como vice na chapa. Aí já é demais, berra a tropa de elite bolsonarista alagoense.

No padrão desde sempre, JHC trama em segredo para decidir o rumo a tomar. O deputado Alfredo Gaspar, chefe do PL local e “homem de confiança” dos Bolsonaro, já mandou o recado: João Henrique tem de se ajoelhar para Flávio, ou nada feito.