Reeleito Senador da República, Guilherme Palmeira retornou a Brasília, em 1990, com o mesmo espírito conciliador e ético que o consagrara entre seus pares. Foi nesse ambiente — longe dos holofotes e próximo das decisões — que tive acesso a episódios que ajudam a compreender, por dentro, a queda simultânea de duas das mais relevantes lideranças políticas de seu tempo: Fernando Collor e Divaldo Suruagy.
Ainda que ciente de minhas limitações para a função de assessor parlamentar, Guilherme convidou-me a retornar ao seu gabinete, como gesto de confiança e amizade, até que novos caminhos se apresentassem. Assim, permaneci em Brasília, onde minha família ainda residia.
Mal reassumiu sua rotina no Congresso, o cenário político alagoano voltou a exigir atenção. Aproximava-se a eleição para o Governo de Alagoas, e a sucessão do então governador Geraldo Bulhões — mergulhado em crise profunda — tornava-se o novo centro das articulações.
Na eleição anterior, Bulhões, apoiado por Fernando Collor — recém-eleito presidente da República — derrotara Renan Calheiros em uma disputa marcada por reviravoltas e ambiguidades nas declarações de apoio.
Com a força do cargo e o controle da máquina estadual, Bulhões, agora aliado de Collor, passou a trabalhar para consolidar a candidatura de Guilherme Palmeira ao governo. José Bernardes, deputado estadual e ex-secretário de Saúde na gestão de Guilherme, liderava a bancada governista na Assembleia Legislativa e levou-lhe o que chamou de “apoio unânime”: 22 deputados estaduais, o aval do governador e a bênção do presidente.
A proposta soava como aclamação.
Mas Guilherme, reservado e perspicaz, disse-me em particular:
“Não aceitarei. Essa unanimidade poderá ser o fim da minha carreira política.”
E explicou: ser eleito sob esse arranjo significaria aceitar e sancionar todos os atos do Legislativo — ou, ao resistir, enfrentar um processo de impeachment alimentado por falhas naturais, ampliadas politicamente.
A recusa, embora discreta, revelou lucidez rara. E o tempo trataria de confirmá-la.
A mesma coalizão que buscou Guilherme voltou-se então para Divaldo Suruagy que, mesmo alertado, aceitou disputar seu terceiro mandato como governador.
A partir dali, dois movimentos paralelos começavam a se formar — silenciosos no início, irreversíveis no desfecho.
O episódio Collor: quando a crise veio de dentro.
Já na Presidência, Fernando Collor enfrentava uma fratura que não vinha da oposição, mas de dentro de casa.
Seu irmão, Pedro Collor — controlador do sistema Gazeta de Alagoas — desejava ingressar diretamente na política, aspirando à vice-governadoria.
Recebi um convite para jantar em sua residência. Para evitar mal-entendidos políticos, confirmei presença. No encontro seguinte, Pedro propôs que eu coordenasse um documento com projetos estruturantes para o desenvolvimento de Alagoas.
Aceitei o desafio.
Em 45 dias, apresentei um dossiê técnico detalhado, com metas, justificativas e estimativas de custo. Pedro entusiasmou-se com o material e o levou à Presidência, por meio de Ana Acioly.
A reação foi imediata e dura.
Collor foi direto:
“Não entendo como você se apoia em meus adversários para me trazer um plano que pode representar minha derrota em Alagoas.”
Pedro saiu indignado.
Chamou-me novamente, desta vez na presença de José Barbosa, conselheiro histórico da família, e pediu que eu organizasse uma reunião com Guilherme Palmeira — o único em quem confiava para intermediar a crise.
O encontro ocorreu em minha residência.
Pedro relatou os fatos, expressou sua revolta e anunciou que, caso Collor não recuasse, concederia uma entrevista já agendada à revista Veja, denunciando vínculos do presidente com Paulo César Farias.
A gravidade era evidente.
Guilherme ligou imediatamente para Ana Acioly e solicitou audiência com o presidente.
No Palácio do Planalto, relatou o alerta.
A resposta foi seca:
“Guilherme, o Pedrinho está doente - breve vc saberá. Já falei com a mamãe (Dinda), e ela o convenceu a não dar a entrevista. Pode ficar tranquilo.”
Mas não estava.
De volta a Maceió, ouvi de Pedro que manteria a entrevista. Informei Guilherme, que convocou reunião emergencial com a cúpula do PFL: Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, José Jorge, Marco Maciel, Luiz Eduardo Magalhães, os líderes do governo no Senado e Câmara, além dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.
O objetivo era claro: mitigar danos.
Coube a Guilherme levar o alerta final a Collor.
A resposta foi novamente despreocupada:
“Está tudo às mil maravilhas.”
A História registrou o desfecho.
O impeachment de Collor, em 1992, teve como estopim justamente a entrevista de Pedro à Veja.
O episódio Suruagy: quando o erro foi administrativo.
Se em Brasília a crise nasceu de uma fratura política, em Alagoas ela surgiu de uma decisão econômica.
Ao assumir seu terceiro mandato, Divaldo Suruagy convidou Pedro Collor para a Secretaria de Indústria e Comércio. Pedro aceitou, sob a condição de que eu assumisse a presidência da CODEAL.
Divaldo formalizou o convite e, após consulta a Guilherme, aceitei.
Pedro, porém, não chegou a tomar posse. Foi diagnosticado com uma doença grave conforme tinha alertado Collor.
Na semana seguinte a posse, Suruagy convocou uma reunião emergencial. O Estado herdara quatro folhas de pagamento em atraso.
Diante da pressão do funcionalismo decidiu conceder aumento salarial e quitar imediatamente uma das folhas atrasadas.
Contestei.
Relembrei nossa experiência na Prefeitura de Maceió, quando priorizamos a folha corrente e adiamos passivos até o reequilíbrio fiscal.
Sugeri a implantação de controle orçamentário rigoroso — desmontado na gestão anterior por acordos que legalizavam despesas retroativas.
Fui voto vencido.
O aumento foi concedido.
A folha paga.
Ali, a meu ver, selava-se a sentença de morte política — e, mais tarde, física — de Divaldo Suruagy.
Ainda assim, avancei na reorganização administrativa, fundindo secretarias e elaborando uma moderna Lei de Incentivos Fiscais, voltada à atração industrial, especialmente no entorno do Complexo Químico de Alagoas.
Mas o curso dos fatos já estava definido.
Como Collor, Suruagy também não escapou.
Sofreu impeachment — exatamente como previra Guilherme Palmeira ao recusar a candidatura.
Segui no governo de Manoel Gomes de Barros enquanto mantive entusiasmo. Mas, convicto de que a exposição pública desgasta e exige renovação, pedi dispensa.
Era hora de novos quadros.
Fui cuidar do meu sítio e buscar novos caminhos.
Jamais me arrependi.
Sigo convicto de que, sem um Estado economicamente forte, apenas a renovação dos dirigentes mantém viva a esperança da população.
