Até oito anos atrás, o horizonte das mulheres da comunidade São Luiz, no município de Viçosa, se restringia ao cercado da roça. Sem renda própria, elas assistiam seus sonhos da juventude se apagarem com o tempo e temiam que o mesmo acontecesse com seus filhos, já que era comum encontrar na região grupos reunidos em torno de garrafas de bebidas.

Mas quem passa pelo povoado hoje não imagina que este cenário faz parte do passado recente dessas famílias. Hoje a dinâmica local é bem diferente. Além da vistosa sede da Agrovila São Luiz, uma agroindústria alimentícia, as mulheres deixaram de ser simples donas de casa para assumirem o protagonismo de sua própria história e, com o apoio decisivo do Sebrae, conseguiram promover uma virada social que hoje sustenta 16 famílias e está mudando o destino dos jovens da comunidade.

“Antes, as mulheres daqui viviam apenas para a família e para a casa. Elas não tinham uma fonte de renda própria e não podiam fazer nada enquanto muitas vezes viam os filhos se entregando ao álcool”, relembra Vitória Lima, técnica em agronegócio e presidente da Associação Comunitária Agrovila São Luiz, uma das protagonistas do último encontro da Comissão das Mulheres do Agro, que reuniu mais de 230 participantes em Viçosa.

Com o olhar de quem enfrentou o desânimo e muitos desafios desde a criação da associação, em 2018, hoje ela comemora o resultado. “Melhoramos não só a vida dessas mulheres, mas também das suas famílias. A Agrovila cresceu e hoje contamos com a ajuda do marido e dos filhos. Todos se envolvem e têm a oportunidade de melhorar a renda. Não se vê mais jovens à toa”, afirma

Vulnerabilidade social dá lugar à renda sustentável

A trajetória da Agrovila São Luiz é o exemplo de como o associativismo, quando aliado à sede de conhecimento, pode se tornar um negócio sustentável e de forte impacto social. Segundo Vitória, os equipamentos agrícolas que podem ser vistos no pátio, como trator, caminhão e até mesmo um trailer para facilitar a exibição e venda dos produtos, assim como o maquinário que compõem a agroindústria, entre eles os equipamentos da cozinha e até uma câmara fria, não caíram do céu. São fruto da busca incessante por editais, parcerias e, principalmente, por qualificação.

“Quando algumas dessas máquinas chegaram, não sabíamos nem como funcionavam. Mas estamos sempre buscando nos qualificar,trazer aprendizado para as mulheres da nossa comunidade e também de outras daqui da região”, pontua Vitória.

Foi neste ponto do percurso que o Sebrae Alagoas entrou na trajetória da Agrovila, em setembro de 2025. O analista Clébson Moreira lembra que o primeiro contato foi feito por Jobson, marido de Vitória e cofundador da associação. “Ele disse que queria se agarrar ao Sebrae e fazer tudo do jeito certo, mesmo que demorasse anos para a associação decolar. Mas eu sabia que não demoraria tanto”, conta.

De lá para cá, a associação mergulhou em um processo intensivo de conhecimento, com capacitações e consultorias. Um dos passos mais importantes foi levar a consultora Maria Helena, que transformou os processos de produção dos quitutes que elas já produziam, como pães, biscoitos e doces. Além de aprimorar as receitas, ela ajudou na uniformização dos processos e abriu novas possibilidades com o uso dos maquinários disponíveis. O resultado foi que os produtos se tornaram um sucesso de vendas. Além de vender para o município por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), as encomendas não faltam.

“Como o interesse era grande, trabalhamos com 35 mulheres na capacitação. Deu tão certo que elas vivem perguntando se a Maria Helena vai voltar este ano”, afirma Vitória.

Valor agregado que vem do campo

O que sai da cozinha comunitária Agrovila é a celebração da agricultura familiar. A macaxeira colhida na região é o ingrediente principal da maioria dos produtos, que trazem também sabores que vêm da batata-doce, inhame e leite. Biscoitos de laranja e de outros sabores doces e salgados, assim como bolos, pães, chips naturais e doces, que aproveitam a produção de mamão e banana da região.

De acordo com Sthefanny Lóz, analista do Sebrae, os produtos têm um potencial de mercado que vai muito além das fronteiras de Viçosa. “Eles tem potencial para estar na prateleira de qualquer supermercado ou lanchonete. Os chips, por exemplo, atendem tanto o público infantil quanto o mercado fitness”, analisa. Outro produto da agroindústria, o doce de mamão produzido em rolinhos de fita tem “status de exportação”. “Tem um valor agregado altíssimo. Tem um visual muito bonito e sabor equilibrado, sem aquele excesso de açúcar que torna o doce enjoativo. Pode facilmente ser ingrediente de sobremesas em grandes restaurantes”, completa.

O equilíbrio nos sabores também foi fruto do aprendizado e do acompanhamento de uma nutricionista, que ajuda a ajustar as receitas para o público-alvo. Quando os produtos são destinados às creches e escolas, o açúcar da receita é reduzido. Já para as encomendas do público geral, o nível é ajustado, para agradar o paladar.

Para garantir que esse sabor chegue às prateleiras com a valorização que merece, o Sebrae foca, a partir de agora, na profissionalização da imagem. “O próximo passo é a elaboração da ficha técnica, com informação profissional, que deve ficar no rótulo. Precisamos também buscar o registro da marca para que o produto tenha destaque e se torne conhecido do público de forma geral”, explica Sthefanny.

Mais do que uma agroindústria alimentícia, a Agrovila São Luiz pretende se tornar também um centro de desenvolvimento e inovação. Com esse intuito, foi criado o Núcleo de Aprendizado Rural, com uma sala de aula que consolida a associação como um instrumento para o enfrentamento da vulnerabilidade social, fomentando conhecimento e ajudando as famílias a prosperarem no campo.

Suporte decisivo para a profissionalização

O sucesso da Agrovila São Luiz é um exemplo emblemático da missão do Sebrae: transformar a vida de pequenos empreendedores através do conhecimento e inovação. No contexto rural, o apoio vai além das capacitações em gestão e técnica agrícola, ela ensina o produtor a olhar sua propriedade como uma empresa.

“O Sebrae trouxe uma melhoria extraordinária. Foi um salto de qualidade percebido por todos os clientes e também um salto de desenvolvimento para nós. Aprendemos a usar equipamentos que a gente já tinha, mas não sabíamos como usar direito, e percebemos que temos ainda muitas outras oportunidades para aproveitar”, reconhece Vitória.

O plano para os próximos meses é reforçar o suporte com novas qualificações, para que, no futuro, a associação não dependa apenas dos contratos governamentais e conquiste mercado pela qualidade dos seus produtos. “O trabalho feito por essas mulheres é fantástico. Elas conseguiram investimentos, estruturaram uma sala de treinamento e agora estão prontas para o próximo nível. E o Sebrae está aqui para encurtar distâncias e facilitar o acesso ao mercado”, afirma Clébson.

Ao oferecer consultorias no processo produtivo e de gestão, o Sebrae garante que a renda gerada pela agroindústria permaneça na comunidade, criando um ciclo de investimento e prosperidade local.