O Tribunal do Júri da 7ª Vara Criminal da Capital decidiu, nesta quinta-feira (9), pela inocência de Luciana Lins Pinheiro, acusada de ser a mandante do assassinato de sua irmã, Quitéria Lins Pinheiro, em Maceió. O julgamento foi concluído por volta das 18h, no Fórum Desembargador Jairon Maia Fernandes, e analisou um crime ocorrido em agosto de 2012, supostamente motivado por dívidas financeiras.
Durante a sessão, o Ministério Público, representado pelo promotor Antônio Vilas Boas, defendeu que Luciana teria planejado a morte da irmã, que era funcionária pública e contribuía financeiramente com a família. Já os executores do crime, Klinger Lins Pinheiro Dias Gomes, filho da acusada, e Mustafá Rodrigues do Nascimento, já cumprem penas superiores a 20 anos de prisão.
Apesar dessas condenações, os jurados optaram por absolver Luciana. O Ministério Público de Alagoas não concordou com a decisão e anunciou que irá recorrer.
O julgamento
Os primeiros depoimentos foram prestados pelas irmãs da vítima e da ré, Talmata e Sandra. Elas destacaram a generosidade de Quitéria, afirmando que a vítima ajudava financeiramente Luciana e seus filhos. Talmata relatou que esteve próxima de ser vítima no dia do crime, pois saiu da casa pouco antes do ocorrido, e contestou qualquer ideia de inveja entre as irmãs. Sandra, por sua vez, se emocionou ao responder à defesa, rebatendo insinuações sobre a veracidade de seu depoimento.
O julgamento foi marcado por momentos de tensão entre acusação e defesa. O promotor chegou a acusar o advogado de defesa de constranger testemunhas, enquanto, em sua argumentação, fez declarações duras contra a ré. Já o defensor sustentou que Luciana é vítima de uma acusação injusta que se arrasta há mais de uma década, atribuindo toda a responsabilidade pelo crime ao filho dela.
Durante o interrogatório, Luciana optou por responder apenas às perguntas de sua defesa. Ela afirmou ter um forte vínculo com a irmã, a quem descreveu como uma “segunda mãe”. O Ministério Público, no entanto, questionou a veracidade de sua versão e criticou sua postura no tribunal, classificando suas reações como uma tentativa de sensibilizar os jurados.
O caso remonta ao assassinato de Quitéria Lins Pinheiro, morta a tiros no jardim de sua residência, no bairro Gruta de Lourdes, após ser chamada ao portão por homens armados. As investigações apontaram que o crime teria relação com dívidas financeiras envolvendo a vítima, seu sobrinho e a irmã.
Este foi o segundo julgamento de Luciana. No primeiro, ela também havia sido absolvida, mas a decisão foi anulada após recurso do Ministério Público. Agora, com o novo veredito, a Justiça volta a declarar sua inocência, embora o caso ainda possa ter novos desdobramentos judiciais.
O caso
O crime aconteceu em 12 de agosto de 2012, quando Quitéria Maria Lins Pinheiro foi morta com cinco disparos dentro de sua residência. Poucas horas depois, a polícia deteve seu sobrinho, Klinger Lins Pinheiro Dias Gomes, então com 20 anos. Ele foi encontrado por equipes da Delegacia de Homicídios com apoio da Força Nacional, que também apreenderam um veículo EcoSport preto utilizado na ação.
Inicialmente, Klinger confessou envolvimento no que descreveu como um “assalto frustrado”, mas negou ser o autor dos tiros, conforme informou o delegado Cícero Lima. No entanto, as investigações avançaram e descartaram a hipótese de roubo, indicando que se tratava de uma execução premeditada, motivada por uma dívida de R$ 5 mil entre sua mãe e a vítima.
Em janeiro de 2013, o caso teve novo desdobramento com a prisão preventiva de um soldado do Exército Brasileiro, determinada pela 17ª Vara Criminal. As apurações apontaram que ele integrava o grupo que esteve na casa da vítima na noite do crime, embora tenha alegado, em depoimento, desconhecer a real intenção da ação.
Dois anos depois, os responsáveis diretos pela execução foram julgados e condenados. Klinger recebeu pena de 20 anos e 10 meses de prisão, enquanto Mustafá Rodrigues do Nascimento, identificado como o responsável pelos disparos mediante pagamento de R$ 1.500, foi sentenciado a 21 anos de reclusão. O processo revelou detalhes da forma violenta como a residência foi invadida.
Já em outubro de 2016, o militar envolvido foi levado a júri e acabou absolvido pelo 1º Tribunal do Júri de Maceió. A defesa sustentou que ele foi induzido ao erro por Klinger, acreditando que apenas acompanharia uma visita para retirada de objetos pessoais, permanecendo no carro e sem conhecimento do crime que ocorria dentro da casa.
Enquanto os executores receberam suas condenações, a situação de Luciana Pinheiro — mãe de Klinger e irmã da vítima — permaneceu indefinida por anos. Em um julgamento anterior, os jurados chegaram a reconhecer indícios de que ela teria sido a mandante, mas, de forma considerada contraditória, decidiram pela absolvição. Essa decisão foi posteriormente anulada pelo Tribunal de Justiça após recurso do Ministério Público, o que levou à realização de um novo júri popular nesta quinta-feira (9).
*Foto: MP/AL
