Com delicioso mau humor, José Saramago, autor de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” e “Ensaio Sobre a Cegueira” (os meus preferidos), disse certa feita que as pessoas cada vez mais reduzem seus vocabulários – usam, progressivamente (!!), menos palavras. E com um sorriso entre o irônico e o ranzinza, vaticinou que, no futuro, um homem há de dizer a uma mulher que a ama usando apenas um “uuuu!”, ou “aagh!”, como imagina ter sido na época das cavernas. E ela há de se mostrar feliz e satisfeita com o pronunciado, por desconhecer outra linguagem que não esta. Há, é evidente, um tanto de exagero e desesperança na provocação do mestre das palavras, mas, devemos descartá-la?
O grande Chico Buarque fez pior em seu exercício “nostradâmico”. Previu que a canção, logo ela, vai morrer, até por ser um fenômeno do século passado. Mas não foi o mesmo compositor que nos disse que “futuros amantes, quiçá/Se amarão sem saber/Com o amor que um dia/ Deixei pra você”?
E que futuro haverá no amor se não houver mais canção? Dá pra imaginar um casal apaixonado, à meia-luz, ouvindo e compartilhando um hip-hop ou um rap? É claro que quem conhece ou conheceu a sinuosidade criativa das melodias que compõem o nosso cancioneiro aprendeu a ser exigente com a forma de falar de amor, “musicalmente”. Quem teve essa experiência não pode supor nada semelhante ao que foi proposto acima.
Mas nem toda música é uma canção, nos ensinou o linguista, professor da USP e compositor (faz um trabalho fantástico com a criançada) Luis Tatit. Há de haver uma combinação entre letra, melodia e harmonia. Se não, não haverá canção, só um amontoado de versos musicados. É quase como um status a denominação “canção”. E bem sabemos que a riqueza da Música Popular Brasileira, o que a faz insuperável, é esse casamento perfeito (não seria mais apropriado, nesse caso, falar em ménage à trois?). São os compositores-poetas (e “cancionistas”,- na definição de Tatit) que fazem a diferença a nosso favor.
É do lado de baixo do Equador que podemos encontrar um caudaloso Vinícius de Moraes a cantar: “Assim como viver sem ter amor, não é viver/Não há você sem mim, eu não existo sem você”; ou o mesmo “poetinha”, quase minimalista, a confessar: “Eu sem você não tenho porquê”.
Viajando no tempo, encontramos à beira da praia o inspirado e sem-pressa Dorival Caymmi, que consumiu dez anos da sua longa e eterna existência (não haverá de morrer nunca) para descobrir que “Assim adormece este homem/Que nunca precisa dormir pra sonhar/Porque não há sonho mais lindo do que sua terra/Não há” - podendo, enfim, dar fecho e desfecho à sua magnífica “João Valentão”.
Da mesma época, quase, “Na Baixa do Sapateiro eu encontrei, um dia/A morena mais frajola da Bahia”, com a assinatura do mineiro Ary Barroso. Cartola? Mas como, se “as rosas não falam”, e ele foi a mais fina flor da elegância na canção? Seu sucessor, Paulinho da Viola, outro grande cancionista, “casou” com Hermínio Bello de Carvalho, Élton Medeiros, Paulo César Pinheiro, entre outros, e com eles gerou muitas canções. Mas, também, se virou maravilhosamente bem sozinho: “As coisas estão no mundo/ Só que eu preciso aprender” – e o fez para delícia do povo brasileiro.
E como se compõe canção bonita no Nordeste! São de Humberto Teixeira os versos - e a música - que apelam para "Calu": "Tira o verde desse zói de riba d'eu" (tira não!). Até no tal domínio público, território do compositor desconhecido, há de se encontrar pérolas, como o fez Paulo Vanzolini, o "biólogo das canções": "...E o cuitelinho não gosta/ Que o botão de rosa caia, ai ai ai ai".
Temos, é claro, o nosso maestro soberano, no seu instante de captura de imagens pela canção: “É pau, é pedra, é o fim do caminho...”.
Não, não há de ser o fim do caminho. Ainda. José Miguel Wisnik, músico, compositor e professor da matéria, topou contradizer o Mestre Chico Buarque. Numa série de aulas-show, que apresentou há alguns anos, sobre “o fim da canção”, assegurou que ela ainda perdurará por muito tempo sobre a Terra.
Tomara que assim seja. Mas se não o for, se a canção morrer, de fato, eu pediria que meu coração fosse enterrado ao lado dela. Mas, cá para nós, é muito mais justo que eu parta antes da minha sutil amada.








