Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) lança um novo olhar sobre um dos temas mais sensíveis da saúde pública, o suicídio. A pesquisa identificou que a duração do dia — ou seja, a quantidade de horas de luz solar — é o fator ambiental com maior impacto nas taxas registradas no Brasil. 

Os dados revelam um padrão que chama atenção; os casos aumentam nos meses mais iluminados do ano e caem no inverno. O levantamento analisou 106.497 mortes por suicídio registradas entre 2010 e 2019 em 5.259 municípios brasileiros.

O estudo foi conduzido pelos pesquisadores do Centro de Medicina Circadiana (CMC) da Faculdade de Medicina da Ufal, Daniel Gomes Coimbra, Jorge Artur Peçanha de Miranda Coelho e o orientador Tiago Gomes de Andrade e teve seus resultados publicados na Journal of Affective Disorders, uma das principais revistas científicas internacionais sobre saúde mental.

Picos em dezembro, queda em junho

Os dados confirmam um comportamento sazonal. O pico ocorre em dezembro, próximo ao solstício de verão, quando os dias são mais longos. Já o menor número de casos é registrado em junho, período do solstício de inverno.

O estudo também identificou que, quanto mais ao sul do país, maior a intensidade dessa variação ao longo do ano. A latitude influencia diretamente a amplitude sazonal das taxas.

Outro ponto relevante é o chamado desalinhamento entre o tempo social e o tempo solar (dGMT). Municípios localizados mais a oeste dentro de um mesmo fuso horário — onde o sol nasce e se põe mais tarde em relação ao relógio oficial — tendem a apresentar taxas mais elevadas. Para os pesquisadores, isso sugere que o relógio biológico pode ter um papel importante nesse cenário.

Urbanização e IDH também entram na conta

A pesquisa avaliou ainda fatores sociais. Municípios com maior índice de urbanização apresentaram taxas proporcionalmente menores, o que pode estar relacionado ao acesso mais amplo a serviços de saúde mental. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) também foi considerado na análise.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram modelos estatísticos como Arima e regressão robusta. Entre todas as variáveis analisadas, o fotoperíodo — a variação na duração da luz solar ao longo do ano — foi o que apresentou a correlação mais forte com a sazonalidade das mortes.

O fim do horário de verão, em 2019, também foi analisado. A mudança alterou o momento dos picos sazonais, mas não eliminou o padrão observado.

Prevenção precisa considerar o calendário

Para os autores, os resultados indicam que a prevenção precisa levar em conta o tempo e o território. “É necessário reorientar a prevenção do suicídio para uma lógica temporal e ambiental, uma vez que o risco varia de forma previsível ao longo do ano e do território. Ao identificar períodos de maior vulnerabilidade associados a variáveis ambientais e sociais, o estudo fornece base para antecipar ações preventivas e orientar políticas públicas em períodos críticos”, destacam os pesquisadores.

O trabalho aponta ainda caminhos para novas pesquisas e possíveis intervenções. Ensaios clínicos envolvendo exposição à luz, fototerapia, controle da luz azul e até o uso de cronobióticos, como a melatonina, são algumas das possibilidades citadas. Ajustes em horários escolares e de trabalho também aparecem como estratégias a serem debatidas.

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