A decisão do desembargador Márcio Roberto Tenório Albuquerque de permanecer no Tribunal de Justiça de Alagoas está longe de ser um gesto trivial. O que poderia ser apenas um ato administrativo transformou-se em um fato político de grande relevância, capaz de lançar luzes sobre problemas estruturais do Judiciário alagoano e, por extensão, do Judiciário brasileiro. Ao optar por não se aposentar, ele não suavizou nem retirou as críticas feitas anteriormente. Ao contrário, conferiu a elas maior densidade, coerência e sentido. Permanecer, neste contexto, significa enfrentar.

A reação à sua anunciada aposentadoria foi absolutamente fora do padrão. Em um dos momentos de maior descrédito do Judiciário no país, milhares e milhares de manifestações espontâneas ecoaram não apenas de Alagoas, mas de diversos estados brasileiros. Líderes de movimentos populares, advogados e seus líderes, serventuários da Justiça, servidores públicos, procuradores de Justiça, procuradores municipais, procuradores da República, presidentes de outros Tribunais de Justiça e seus integrantes, procuradores-gerais de Justiça de vários estados, desembargadores do próprio Tribunal de Justiça de Alagoas com manifestações públicas, prefeitos, deputados, senadores, ministros e agentes políticos de todas as correntes ideológicas convergiram em um único e inequívoco apelo: Fique.

Nesse contexto de ampla repercussão institucional, uma das manifestações que ganhou especial relevância partiu do desembargador Klever Rêgo Loureiro, atual corregedor do Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas. Em manifestação pública, ele declarou:

“Meu Amigo, Márcio Roberto, solidarizo-me com o sentimento que o amigo está vivendo no TJ/AL, ao tempo em que registro que outro não é o sentimento que eu sinto, ou seja, não retiro nem sequer uma vírgula. Trabalhamos por aproximadamente 03 anos em São José da Laje e nunca tivemos um único arranhão. E o nosso conceito continua ainda hoje, dentre os operadores do Direito e a população em geral.

Estamos Juntos. Cabeça fria, Feliz 2026, com muita paz.

Postando pelo Instagram do Meu Filho.

Desembargador Klever Rêgo Loureiro. “

A decisão de permanecer veio acompanhada de um gesto claro de maturidade institucional. Márcio Roberto afirmou que não retornava por conveniência pessoal, conforto ou cálculo político, mas por responsabilidade com a sociedade e com todos aqueles que ainda acreditam em um Judiciário acessível, transparente e humano. O pedido de desculpas pela apreensão causada não representou recuo ou arrependimento. Representou consciência institucional, respeito ao impacto de suas palavras e compromisso com o debate público que ele próprio ajudou a provocar.

As críticas, contudo, permanecem como eixo central da discussão. O desembargador expôs a existência de desigualdades internas, denunciando uma cultura que produz desembargadores de primeira e de segunda classe dentro dos tribunais. Diferenças que não se explicam por produtividade, ética ou compromisso com a jurisdição, mas pela origem da nomeação, pelo alinhamento interno e pela proximidade com centros históricos de poder.

Em Alagoas, esse quadro assume contornos ainda mais sensíveis. O Tribunal de Justiça carrega uma tradição marcada por vínculos familiares e heranças institucionais, na qual parte significativa da magistratura é formada por descendentes diretos de antigos integrantes da própria Corte. Forma-se, assim, uma estrutura fechada, pouco permeável a quem vem de fora, especialmente aos que ingressam pelo quinto constitucional, frequentemente tratados como corpos estranhos dentro do sistema.

Quando a desigualdade se instala no topo, o reflexo é imediato na base. Advogados que não são recebidos, servidores pressionados, população ignorada. Há magistrados que só atendem com dia e hora marcados, como se o acesso à Justiça fosse favor pessoal e não dever funcional. O distanciamento se torna regra, e o cidadão passa a ser visto como um incômodo.

No interior do estado, a situação se agrava ainda mais com o uso distorcido da tecnologia. Juízes que, historicamente, compareciam às comarcas apenas alguns dias da semana hoje sequer mantêm essa presença mínima. Muitos não comparecem mais. Julgam à distância, decidem à distância e se afastam completamente da realidade social das comunidades que deveriam servir. Tudo isso ocorre sob a conivência da administração do Tribunal de Justiça, que pouco ou nada faz para fiscalizar mais de perto, corrigir ou responsabilizar essas ausências.

A tecnologia, que deveria aproximar o Judiciário do cidadão, passou a funcionar como escudo para a omissão. O resultado é um Judiciário cada vez mais distante, burocrático e desacreditado. Processos se arrastam, audiências são adiadas, o contato humano desaparece e o jurisdicionado vira apenas mais um número.

É nesse cenário que a permanência de Márcio Roberto ganha dimensão simbólica. Ao afirmar que seu gabinete seguirá sendo espaço de escuta, acolhimento e resistência ética, mesmo sob limitações materiais, ele confronta diretamente a cultura da distância, da ostentação institucional e da indiferença. Demonstra que a autoridade judicial não nasce do tamanho do gabinete nem da hierarquia informal, mas da postura, da presença e da coragem de enfrentar as próprias distorções do sistema.

A decisão de ficar não encerra a crise do Judiciário. Ao contrário, a escancara. Inaugura um novo patamar de debate público e institucional. Mostra que ainda existe legitimidade social para magistrados que não se escondem atrás do cargo, que não se calam diante das injustiças internas e que não aceitam a lógica de castas invisíveis.

O episódio deixa uma mensagem clara e incontornável. A Justiça não pertence a castas, nem a famílias, nem a grupos fechados. Pertence à sociedade. Onde há desembargador tratado como cidadão de segunda classe, há juízes ausentes, advogados ignorados, servidores desvalorizados e um povo mal atendido. Permanecer, neste contexto, é um ato de resistência. E resistir, hoje, é um dos maiores serviços que um magistrado pode prestar ao Brasil.