A realização de uma Feira Literária, mais conhecida como Bienal Internacional do Livro de Alagoas, enfocando as transversalidades da literatura, jeitos, histórias e costumes diaspóricos da rica herança africana em territórios do Quilombo dos Palmares era um diálogo sócio-político antigo e recorrente.
A 1ª Bienal Negra, em Alagoas!
Uau!
A proposta , por excelência, embutia a ousadia de agregar, em um projeto coletivo e popular, a escuta ativa e assertiva da multiplicidade de vozes , gentes e representações negras e estudios@s do tema, diversas e díspares.
Afinal, o contraditório alimenta a democracia das palavras.
Faz tempo que esta ativista , Arísia Barros, estava para escrevinhar sobre a realização da indefinível 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, da UFAL, que aconteceu no mês de novembro de 2025, no Centro Cultural de Exposições Ruth Cardoso e tinha como princípio mor discutir, divulgar, dialogar, a partir das narrativas de transbordos, desdobramentos da essência histórica/cultural de Áfricas ,em terras do Quilombo dos Palmares, símbolo da resistência africana ao domínio da branquitude econômica, política e opressora.
Legal, né, mas, na Bienal da Academia teve de tudo, menos, a centralidade de África e escritor@s african@s, autoridades diplomáticas africanas, e etc e tal.
E para esta ativista houve um erro imperdoável, no rito de passagem: a exclusão sistemática da participação histórica dos quilombos e quilombolas alagoanos.
Foram nos territórios dos Quilombos onde as primeiras raízes fincaram lutas. Uma espécie de força motriz da resistência negra africana à opressão branco-cêntrica:
Muitos que se debruçam , permanentemente, no cotidiano, para além do Evento, investem em estudos robustos sobre a politica antirracista alagoana, sofreram uma marginalização abissal , na Bienal da Academia, tipo ‘esse palco privilegiado não é para vocês’.
A Pequena África chamada Alagoas.
A Bienal da Academia deveria ter sido um momento magnânimo, imperdível ÚNICO para apresentar ao público a multiplicidade incomensurável das faces negras em território alagoano.
Nomes, histórias, trajetórias das gentes negras das Alagoas foram , sumariamente, ignorados, em detrimento a ‘prestigiar’ o cardápio nacional tabelados das constelações pretas e de outras gentes que nunquinha versaram sobre o tema antirracista.
Em seu discurso de abertura, no lançamento da Bienal, o porta-voz da UFAL, afirmou peremptório:- Gente, vamos parar com essa história, de que estamos convidando muitos palestrantes brancos. Vai ter gente branca, preta, amarela, sim, na Bienal do Livro, porque no Brasil todo mundo é preto.
Aplausos entusiasmados de colegas da Academia presentes na atividade.
Ubuntu?
As religiões de matriz africana preservam a memória e cultura, entretanto, é precipitado resumir o peso histórico da diáspora africana em um só ponto focal. E, acredito que Tia Marcelina, ( in memorian), a grande mártir em defesa das religiões de matrizes africanas, deveria ter feito parte do panteão da festa.
Grandes marcos da história negra alagoana foram subvalorizados, excluído da cultura acadêmica, em detrimento às festivas celebridades não negras.
O pardismo, em Alagoas, é a espetacularização do ‘todos somos iguais’.
Importante dizer que o Único Painel que deu centralidade à África, ressignificando a Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de abril de 1974 ,exaltando o protagonismo das Colônias Africanas na luta, foi colocado, de uma forma desrespeitosa, utilitária, por trás das bandejas de comidas, no espaço de Alimentação da Bienal e outro painel gigante, ficou jogado ao relento, em um beco, sem serventia nenhuma.
Ôxe!
Por quê?
É para dizer mais o quê?
Que esta ativista, em ligação telefônica, discorreu com a institucionalidade sobre o marco conceitual e metodológico da Bienal e sugeriu inclusão de pautas importantes e significativas, como reconhecer e valorizar, o professor Edson Moreira, como um guardiões da memória e da resistência negra alagoana e estabelecer espaços de escuta para nova geração oriunda das lutas e conquista de espaços, no território, tendo como protagonista, a professora Maria Helena Menezes de Souza, natural de Água Branca a primeira doutora quilombola de Alagoas, egressa do Curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Campus Sertão, porém, os ouvidos se fizeram moucos.
Mas, como nenhuma experiência é finda, vale a reflexão de que a institucionalidade acadêmica da UFAL carece, urge, necessita, precisa ampliar o diálogo, sair da bolha e assim reconhecer e valorizar os saberes populares, potenciais, múltiplos , diversos e mesmo os contraditórios, de um monte de mentes, que se insurge à subalternização imposta investindo na semeadura das lutas, pelejas diárias, no confronto as diferentes formas de opressão,
Apagamento é sinônimo de exclusão e não rima com Bienal inclusiva.
Uma atemporal retrospectiva negra da pardíssima Bienal do Livro da UFAL, em 2025, e os apagamentos diários da luta antirracista em Alagoas
É sobre isso.
Nada sobre nós, sem nós!













