De 2017 a 2021, mais de dois mil crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual em AL

Redação*|
 Carlos Jorge da Silva Santos
Carlos Jorge da Silva Santos / Foto: Ascom MP

Dados da Gerência de Doenças e Agravos não Transmissíveis (GEDANT) da Secretaria Estadual de Saúde mostram que Alagoas registrou, entre os anos de 2017 e 2021, 2.742 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes. 

Desse total, 1.278 vítimas tinham entre 10 e 14 anos; outras 554, entre 5 e 9 anos; e mais 486, possuíam idade entre 15 e 19 anos.

Os números também oficiais também mostraram que 1.852 vítimas eram da raça parda, enquanto 354 foram identificadas como brancas. A raça negra ficou em 3º lugar, com 254 casos.

Quem viveu essa situação de violência sexual foi Carlos Jorge da Silva que, aos 5 anos, teve sua infância roubada por um abusador.

“Eu era bem criança, mas ainda me lembro dos detalhes, do cheiro daquele lugar. Uma pessoa de confiança da minha família pegou na minha mão e me levou até lá, onde aconteceu a violência sexual. Eu me culpei por anos, os traumas me levaram ao alcoolismo e à delinquência. Passei a sentir vergonha de quem eu era. Foi difícil vencer esse abismo emocional. Mais complicado ainda foi deixar que outra pessoa encostasse em mim”. 

Campanha Proteja

Assim como ele, que ainda carrega o impacto da violação do seu corpo, outras milhares de vítimas, em Alagoas, também sofrem pelo mesmo motivo, e é justamente para combater esse crime que o Ministério Público Estadual tem, por meio da campanha Proteja, mobilizado todas as prefeituras dos 102 municípios alagoanos em busca de ações de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes que, lamentavelmente, já soma quase três mil vítimas entre 2017 e 2021.

Desde quando as tratativas começaram, há dois meses, dezenas de gestores públicos se comprometeram com a coordenação do Núcleo de Defesa da Infância e Juventude do Ministério Público a aderirem a campanha. “Fizemos um trabalho minucioso, fornecendo formatos já desenhados de estratégias a serem adotadas, incluindo campanhas próprias de combate à violência sexual. Conseguimos fazer a articulação com todos os conselhos municipais de defesa da criança e do adolescente, conselhos tutelares, instituições e entidades que compõem a rede de proteção e, claro, as prefeituras. Estamos satisfeitos com as mobilizações, uma vez que elas estão levando a mensagem principal à população: é preciso romper o silêncio em busca da punição dos criminosos”, afirmou o promotor de Justiça Cláudio Galvão Malta, coordenador do Núcleo.

Segundo ele, além da busca pela responsabilização dos abusadores, o poder público também precisa adotar medidas preventivas, com ações, por exemplo, de conscientização junto as famílias e a comunidade escolar.

Apesar do abuso contra ele ter sido cometido há mais de 25 anos, Carlos Jorge ainda carrega na mente o mal provocado por ele. “A vida virou uma tragédia depois disso. Se eu já vivia uma instabilidade emocional em razão de um lar cheio de problemas, com a violência sexual tudo piorou de maneira assustadora. Tornei-me um alcoólatra, pratiquei crimes e achei que minha vida tinha perdido o sentido. Mas, Deus colocou uma alma bondosa na minha vida, que me deu a mão e não desistiu de mim. Foi a partir daí que comecei a criar consciência de que precisava me auto ajudar. Ainda bem que eu insisti”, contou o empreendedor social.

Para o promotor de Justiça Cláudio Malta, o caso de Carlos Jorge, se levadas em consideração as estatísticas, não é o retrato fiel da realidade. “Ainda precisamos alertar para o fato de que a subnotificação esconde os dados reais, uma vez que muitas vítimas, exatamente por serem crianças, não conseguem entender a gravidade do que está ocorrendo. É por isso que ações preventivas e combativas têm, necessariamente, que andar de mãos dadas. O silêncio, se não rompido, acaba se tornando cúmplice do crime”, declarou ele.

*com Ascom MPE

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