A intervenção da diretória do Clube dos Fumicultores de Arapiraca na obra de arte de autoria do artista plástico Ismael Pereira, continua repercutindo nas redes sociais em nível de Arapiraca, do Estado e além fronteiras. O autor vem questionado o seu direito autoral que foi vilipendiado e explica
“É importante deixar bem claro que, estranhamente, e de forma desprezível, em momento algum fui consultado para absolutamente nada, no tocante as intervenções que pretendiam fazer na obra de arte, referência no seio da comunidade arapiraquense, tão amplamente comentada e muito aplaudida e querida por todos.
Na íntegra o questionamento de Ismael Pereira
TEMPUS ET DOMINUS RATIONES
A implacável esteira do tempo já levou embora mais de cinco décadas que fiz um extenso mural no salão nobre do Clube dos Fumicultores de Arapiraca. Uma ilustração artística sobre os diversos estágios da promissora atividade fumageira, cujo mural manteve-se integralmente intacto até poucos dias atrás, quando, para minha desagradável surpresa, vi diante dos meus olhos uma imagem fotográfica do que restou da deliberada destruição do que era aquela histórica obra de arte por mim executada a mais de meio século. O que tive o desprazer de ver diante dos meus olhos mais parece os escombros que restaram das atingidas - Hiroshima e Nagasaki, ou de estragos causados por um terremoto de expressivos graus na escala Richter, cujo epicentro foi o anoso Clube dos Fumicultores de Arapiraca.
Até então eu venho me posicionando exclusivamente em favor da manutenção do Clube dos Fumicultores em seu local de origem, e da inamovibilidade, inatacabilidade e preservação do mural, exercendo assim o meu direito de livre opinião e expressão, direito assegurado constitucionalmente. Mas, agora o viés é outro, vez que, fui frontalmente atingido, a medida em que me humilharam como pessoa humana, hoje mais que octogenária, me desqualificaram como artista plástico profissional filiado a Associação Internacional de Artes Plásticas, e ignoraram por completo o meu direito autoral concernente a obra perante a vigente Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998, Lei que deveriam ter consultado antes da deliberada ação que culminou com a súbita e literal destruição do referido mural de MINHA AUTORIA, considerado patrimônio histórico cultural e material do Município de Arapiraca, através da Lei Municipal 3.408 de 27 de janeiro de 2020.
É importante deixar bem claro que, estranhamente, e de forma desprezível, em momento algum fui consultado para absolutamente nada, no tocante as intervenções que pretendiam fazer na obra de arte, referência no seio da comunidade arapiraquense, tão amplamente comentada e muito aplaudida e querida por todos. Valho-me do ensejo para expressar aqui os meus efusivos agradecimentos pelas inúmeras manifestações de solidariedade que tenho recebido de instituições e pessoas de Alagoas, sobretudo de Arapiraca, de outros municípios, e até mesmo de pessoas e instituições de outros estados brasileiros.
Tenho plena consciência de que, o dantesco ato praticado em desfavor da minha obra, não tem o aval, tampouco galvaniza em hipótese alguma, o sentimento do laborioso, acolhedor e educado povo de Arapiraca, que sempre me tratou com a mais profunda urbanidade, um povo que, foi e continua sendo, cordial e respeitoso comigo, manifestações de apreço por mim sempre correspondidas reciprocamente. Trata-se, pois, de uma atitude engendrada por um “Petit comité”, ao qual nunca, e em momento algum, ofendi, com palavras, gestos e/ou ações. Tenho plena consciência disso. Sempre fui seguidor do exemplo do Sândalo, que perfuma o machado que o fere.
Nunca sequer imaginei, sobretudo a essa altura da minha vida, ser tratado tão desconsideravelmente, humilhantemente. Como também jamais pensei em ver uma obra minha tratada de forma tão abjeta, como se fosse reles basculho. Mas, chego à inevitável conclusão de que isso seja próprio da mesquinha cultura dos fracos, que entendem ser preciso humilhar os outros para sentirem-se fortes. Evoco aqui a retumbante exclamação do grande filósofo Marco Túlio Cícero: “O temporas! O mores!”. Desde já, aviso aos navegantes: não abrirei mão de continuar sendo timoneiro do meu barco.
Lastimo muito que, justo nas proximidades das comemorações do Primeiro Centenário, Arapiraca receba de presente dos “gregos” o “Cavalo de Tróia”, famoso episódio descrito na Ilíada de Homero. Mas, com absoluta certeza, a nossa venusta e sempre intrépida Arapiraca superará esse revés com grandeza, com galhardia, não se curvará, nem se deixará abater diante do sopro dessa inesperada “tempestade”, até porque, como é de boa sabença, a tempestade dura bem menos do que a chuva fina.
Acho muito natural e justo que eu esteja me sentindo profundamente triste após ser imerecidamente afrontado. Mas, destarte, desfiando o meu rosário de amargura, carregando sobre os meus ombros o peso da cruz, seguindo em frente com meus passos curtos e lentos, mas bastante consciente de que corre nas veias o sangue dos inconformados e que: “Tempus et dominus ratione”, isto mesmo, o tempo é o senhor da razão.
Ismael Pereira, é artista plástico, escritor e bacharel em Direito.










