Falar sem pensar?  Quem nunca?

Quase todos o fazemos, ainda que na maioria das vezes sem consequências que valham registro na memória.

Já me arrependi amargamente, é verdade, por coisas que disse ou despejei no mundo intempestivamente, elevando o tom sem elevar o nível da conversa. É uma experiência nada agradável dar-se conta de ter vivido um momento de “sequestro emocional”, quando a racionalidade nos foge, e o que nos chega é  a palavra que despreza a delicadeza.

Diz-se que os nórdicos aguardam sempre um ou dois segundos para responder a uma pergunta ou rebater um interlocutor. Imagino: quando não estão tomados por grande emoção, porque gente é gente em qualquer continente. Parece-me, no entanto, um sinal inequívoco de evolução cultural, civilizatória.

No meu cotidiano, falo muito com poucos, e nunca neguei o quanto estimo a conversa imaginária que temos aqui neste espaço, todas as semanas. Escrevo as crônicas dominicais e as leio alto, muitas vezes, para que o som se propague pela minha mente por outro sentido que não a visão. Esta já me abastece cotidianamente, nas leituras silenciosas, necessárias e/ou apaixonadas, que prescindem dos sons.

Aliás, a leitura silenciosa é mais recente do que imaginamos. Ela só foi possível a partir do século VII, nos conta o historiador francês George Minois, no seu ótimo História da solidão e dos solitários. Até então, a leitura  havia apenas de ser uma atividade coletiva e sonora: uma pessoa ditava o texto e outra interpretava, “separando as palavras nos manuscritos sem pontuação, sem distinção entre maiúsculas e minúsculas, sem intervalos”. Lia-se tudo junto, em voz alta, de carreirinha, sem seguir nenhuma lógica até então existente, que sugerisse uma palavra com começo e fim, uma frase que fosse, construída com clareza. Era uma trabalheira que exigia experiência, paciência e destreza.

Para a nossa espécie, aprendemos, a ordem das coisas deveria ser pensar antes de falar, mas teimamos em não seguir a lógica cobrada a uma espécie que se orgulha de ser racional. O que nunca fomos exatamente, eis uma boa verdade. Trazemos e replicamos a mesma sopa de emoções dos homens da caverna, que não podiam abrir mão da comunicação direta com os sentidos, sem filtros, para que sobrevivessem em meio a tantos perigos. Então, os inimigos eram externos, apenas – depois vieram a família, o trabalho e o futebol... 

As palavras, vezes tantas, voam pelo céu da boca até que encontram o mundo lá fora, de onde não podem mais voltar ao ninho de onde escaparam. Caetano Veloso deu-lhes asas numa bela canção (A terceira margem do rio), e há de saber bem por quê.

E se elas ferem, já não terá sido possível lhe cegar a lâmina afiada e quase nunca distinguida. Aí, "o que dá pra rir, dá pra chorar, questão só de peso e medida". Quem paga por isso quase sempre? Os que estão mais  próximos e/ou são mais tolerantes para com o destempero nosso de cada hora. É assim desde que o mundo é mundo (mesmo para quem não se chama Raimundo).

Por exemplo, quando a bebida afoga o superego, as palavras se aproveitam para arrebentar as barreiras que lhe impomos no dia a dia: se são de amor, demasiadas se tornam; se de raiva, desgovernadas descem ao abismo da miséria humana.

Palavras ao vento, bem sabemos, podem ser motivo de desalento. Mas não me parece o caso de represá-las, estocá-las ou simplesmente calá-las.

Até porque as palavras que calam fundo são as ditas - mesmo que malditas.