Com o resultado do pleito eleitoral de novembro passado, a Câmara Municipal de Maceió (CMM) terá, possivelmente, a bancada feminina mais jovem de sua história. Das quatro integrantes oriundas de famílias políticas, três são novatas, têm entre 21 e 35 anos, e ocuparão cargos eletivos pela primeira vez. O que as mulheres de Maceió podem esperar dessa nova composição? Quais as implicações da diminuição no número de vereadoras na capital? Para tentar responder a essa e a outras perguntas, o CadaMinuto conversou com as eleitas sobre representatividade e sobre pautas de interesse feminino.
Fora da caixa

Na avaliação da vereadora mais jovem de Maceió, a estudante de Relações Internacionais Teca Nelma (PSDB), de 21 anos, já passou o tempo em que a política era feita para "definir" o futuro dos jovens, pois a nova geração sabe o que quer e visa participar da tomada de decisões. “Meu propósito é representar não só os jovens, mas todos os excluídos, por questões econômicas, preconceitos, discriminações. Não vou ser enquadrada na caixinha conservadora de que jovem trata de jovem, mulher só se envolve com assuntos de mulheres”, afirmou.
Deixando claro que a representatividade é uma de suas bandeiras, Teca também chamou a atenção para a realidade da violência de gênero, dentro de fora da política. “A queda no número de vereadoras por Maceió, se comparado com a legislatura anterior, mostra que infelizmente as direções dos partidos políticos, sem exceção, ainda restringem a participação das mulheres. Isso acaba vazando para a sociedade. É um processo histórico. As instituições como as famílias, as igrejas o Estado sempre reduziram o papel das mulheres às posições secundárias”, analisou.
Ela prosseguiu lembrando que, embora sejam a maioria do eleitorado, as mulheres, com todas as dificuldades, têm acesso a apenas 30% dos recursos destinados às campanhas eleitorais: “Assim, mesmo que tenhamos candidatas qualificadas na última eleição, as dificuldades conjunturais pesaram mais nos ombros das mulheres. Em toda história de Maceió só tivemos uma mulher como prefeita, e isso mostra o quanto ainda somos invisíveis nos espaços de poder”.
Ainda sobre espaço, Teca acredita que a juventude irá conquistar cada vez mais seu lugar ao sol. “Pensar que é a idade que pode conduzir melhor o processo político é inteiramente ultrapassado. Infelizmente se espalhou numa certa cultura dominante, que ainda está até em nossa Constituição, como a exigência de idade para ocupar determinados cargos, ou realizar tarefas na sociedade. Vamos romper muitos paradigmas”, garantiu.
A vereadora defendeu a importância de haver diálogo entre as mulheres eleitas para fortalecer a bancada feminina, mas, sempre frisando que sua atuação não terá “caixinhas de limitação”, disse que pretende atuar em todos os assuntos que digam respeito a Maceió. “Farei um mandato participativo, de combate a exclusão social, procurando diminuir as desigualdades no nosso município. Vou trabalhar pelos direitos humanos e por todos que mais precisam, combater a discriminação, o racismo e a violência. Estou na defesa das pessoas com deficiência, jovens, mulheres, LGBTQIAP+ e os animais, também”.
Representatividade e motivação

A advogada Olivia Tenório (MDB), de 28 anos, comemorou o fato de Maceió ter uma das bancadas mais jovens, pelo ganho que isso representa em termos de diversidade de pensamento e de vivência, ressaltou a importância de, cada vez mais, a mulher ter vez, voz e motivação para participar dos espaços de tomada de decisões, e lamentou a redução da bancada feminina da Câmara de Maceió, que passou de cinco para quatro representantes.
“Quando a gente coloca uma bancada feminina nova, que já entende toda nova mentalidade que o mundo tem conseguido alcançar, é algo positivo pra luta, mas, infelizmente, mesmo sendo uma bancada jovem, é uma bancada muito pequena. Na última legislatura nós tínhamos cinco mulheres na Câmara e agora, mesmo aumentando quatro vagas, de 21 para 25 vereadores, infelizmente diminuiu o número de mulheres, apenas quatro, e isso é muito ruim. Mesmo que a gente tenha uma bancada feminina mais jovem, até acredito que com pensamentos mais voltados para o movimento, percebemos que é um número muito reduzido, gerando dificuldade para que possamos lutar por essa pauta lá dentro”, analisou, afirmando que, mesmo com esses obstáculos, as vereadoras irão lutar para que a voz da mulher seja ouvida.
Para Olívia, em um país machista como o Brasil, a representatividade feminina é extremamente importante, não apenas na política, já que mulheres inspiram outras mulheres e crianças. “Agora a gente entende a necessidade de mostrar que a mulher também é capaz. E para que a criança possa acreditar nisso, cresça pensando nisso, trabalhando, se capacitando, estudando e correndo atrás disso, ela precisa ter referências. E é por isso que eu falo que a representatividade nos cargos de chefia é tão importante, não apenas a da mulher, mas a do preto, a dos homossexuais, das pessoas com deficiência... Para que essa nova geração pense: se ela conseguiu, se ele conseguiu, eu também consigo. Isso é representatividade, essa motivação é extremamente importante pra que a gente possa criar uma geração com mais igualdade do que a que a nossa teve”.
Colocando o respeito e o diálogo como pontos principais de sua trajetória e mandato, a vereadora ressaltou que, embora esteja bastante focada nas questões femininas, devido ao grande caminho que as mulheres ainda precisam percorrer para serem ouvidas e respeitadas, ela irá trabalhar em prol de todos e de tudo que precisa de voz, na luta pela igualdade de gênero, contra o racismo, a gordofobia e a homofobia, por exemplo.
“Quero dar vez e voz às pessoas que precisam, não inventando a roda, mas procurando em outros municípios o que deu certo pra trazer pra cá, ver o que está dando errado e tentar achar a solução junto com o prefeito, junto com o governador, com o deputado federal, com quem for, mas procurar a solução pra resolver o que precisa, sempre com a fiscalização adequada, sempre cobrando aquilo que foi prometido e sempre dando transparência ao meu mandato”, concluiu.
Transformar a sociedade

Aos 35 anos, a advogada Gaby Ronalsa (DEM) tem entre suas bandeiras a defesa das mulheres na política. Para ela, a nova bancada é a oportunidade de mostrar a força da mulher, por meio da proposição de projetos de lei que melhorem a condição das maceioenses e da atuação para que as políticas públicas realmente aconteçam. “Temos um olhar diferente e amplo para as causas e mais sensibilidade. Ocupar espaços é a única alternativa para avançarmos nas mudanças que queremos”, afirmou.
As quatro vereadoras eleitas ainda não se reuniram, mas Gaby disse acreditar que o grupo irá se unir e fortalecer a força feminina, já que elas são minoria na Casa. Ela frisou também a importância da representatividade feminina na política: “Lutar pelo gênero, combater o assédio, ser voz das mulheres que sofrem qualquer tipo de violência. Quanto mais mulheres na política, mais saúde, educação e sensibilidade para as pautas humanitárias. O caminho é desafiador, mas vamos fazer diferença aqui em Maceió. A política é a nossa melhor chance de transformar a sociedade”.
A vereadora prosseguiu afirmando que fará um mandato comprometido com as bandeiras que defende: a vida, a família, os valores cristãos e a mulher. “Irei atuar nas pautas das comunidades, nos segmentos que já trabalhamos, e, sobretudo em prol do povo. Tudo de forma muito participativa, inclusive as comunidades já vêm encaminhando suas demandas e solicitações. No primeiro dia útil do ano já protocolei o meu primeiro projeto de lei em defesa da vida (Dia do Nascituro e Semana da Vida) e 27 indicações em prol das comunidades”, garantiu.
Sororidade e oportunidade

Em seu quarto mandato como vereadora da capital e com vários projetos e leis aprovadas voltadas à pauta feminina no currículo, Silvania Barbosa (PRTB) acredita que uma bancada feminina mais jovem pode trazer à Câmara de Maceió temas mais atuais que envolvem a liberdade da mulher, do seu corpo, ideias e espaços na sociedade. “É cedo para afirmar quão progressistas ou conservadoras serão as pautas das novas eleitas, afinal, não é só a idade que define esse comportamento político e social, mas uma série de fatores, inclusive de viés ideológico, religioso e partidário. Porém, acredito que a Câmara esteve bem representada no passado e estará também muito bem representada nesta legislatura, por mulheres fortes e decididas”, analisou.
Embora acreditando no potencial da nova bancada, a vereadora lamentou o fato de haver uma mulher a menos na atual legislatura e também a falta de representatividade de outros grupos sociais na Casa. “Maceió perdeu quando elegeu uma mulher a menos. Somos somente quatro, no universo de 25 vereadores. Está longe de ser um placar equilibrado. O termo representatividade é autoexplicativo. Quando não temos quem nos represente, não temos vez ou voz. É a representatividade que garante lugar de fala, seja de um grupo étnico, de determinado gênero ou sexualidade”, pontuou.
Silvania prosseguiu afirmando acreditar que Maceió foi a única capital que não elegeu nenhuma mulher negra, nenhuma pessoa trans ou nenhum indígena. “Nas outras capitais pelo menos um representante de um desses três grupos sociais acabou eleito. Lembrando que essa legislatura cresceu de 21 para 25 vereadores. Se a sensibilidade e a força feminina não levarem essas pautas para o parlamento municipal, acho difícil que os homens brancos eleitos o façam. Deixaremos 'órfãos' de leis e de direitos, grupos importantes da nossa cidade”.
Sobre a possibilidade da formação de uma bancada feminina “oficial” na Casa, a vereadora disse esperar que, mais à frente, o grupo de eleitas encontre unidade. “Não vivemos uma onda feminista. Ondas passam. Vivemos um momento histórico de desconstrução do patriarcalismo. Que sentido teria tratar exaustivamente do tema e não praticar? A palavra do momento é sororidade e espero que a juventude das novas eleitas venha acompanhada do saber e da maturidade que o momento exige, para que possamos fazer do convívio no parlamento, uma oportunidade para o avanço de pautas em defesa das mulheres”.
A vereadora lembrou que seu mandato seguirá na linha em defesa das minorias, ressaltando que, ao contrário do que muitos pensam, as mulheres são minoria: “Não em número, mas em espaço social. É disso que trata o termo. Diz respeito à vulnerabilidade, só que muita gente não sabe. Tenho sido coerente e se em algum momento falhar, refletirei sobre o assunto quando alertada. Os vícios estruturantes às vezes nos colocam em armadilhas, mas a porta do diálogo estará sempre aberta. De mim, os maceioenses devem esperar compromisso social”, finalizou.
