Contemplada com o projeto que o governo de Renan Filho (PMDB) chamou de regime de ensino médio em tempo integral em março deste ano, a Escola Estadual Marcos Antônio, no Benedito Bentes, é a primeira da rede estadual a ter este tipo de sistema. Além desta, o Programa Alagoano de Ensino Integral vai implantar esse modelo em outras 13 escolas da rede estadual, uma em cada Coordenadoria Regional de Educação (CRE). O anúncio da implantação do sistema foi adiado do último dia 24 para essa segunda-feira (31) pelo Governo do Estado, o que tem despertado a curiosidade de alunos e gerado expectativas do Sindicato dos Trabalhadores de Alagoas (Sinteal) quanto aos profissionais que trabalharão na unidade e o planejamento necessário para a implantação.

Com 280 alunos, do 1º ao 3º ano do ensino médio, a Escola Estadual Marcos Antônio possui 35 estudantes por turma, funciona das 7h às 17h50, e oferece aos estudantes três refeições, sendo dois lanches, de 9h e 15h20, e almoço, das 12h20 às 13h20.

A reportagem do CadaMinuto Press chegou sem avisar à unidade, às 15h10 da tarde da última quarta-feira (26), e conversou com alunos e responsáveis. Não havia atividades em sala de aula. Havia estudantes dispersos, jogando dama, reunidos em pequenos grupos. E apenas uma palestra sobre conscientização contra o uso de drogas era realizada. A direção da escola explicou que, como os professores estavam indo a uma reunião, logo liberariam os alunos, após o lanche. Situação classificada como “atípica”pela diretora da unidade, Adenilma Brandão. Ela e o coordenador, Jeorge Venâncio, avaliaram que os resultados têm sido satisfatórios.

“O ensino integral é um projeto ousado, mas que está dando certo. Apesar de termos apenas alguns meses com este sistema implantado, nós já tivemos grandes avanços. Além de oferecermos aulas da educação básica e de eixo tecnológico, temos a oportunidade de ter maior tempo de contato com o aluno, inclusive, mais tempo do que eles têm com os próprios pais. Nesse sentido, a nossa maior colaboração é a formação, em relação aos valores e maneiras de agir. São situações e atos simples, como o tom de voz e termos utilizados por eles, que fazem a diferença”, destacou a diretora Adenilma Bulhões.

O coordenador da unidade, Jeorge, explica que durante todo o dia os alunos têm disciplinas da base comum e do eixo tecnológico. “Aqui, os cursos técnicos estão integrados à matriz curricular de base. E como nós temos uma quantidade mais reduzida de alunos em sala de aula, 35, nós podemos conhecer melhor as necessidades, dificuldades e também reconhecer os avanços de nossos estudantes. Então percebo que o ensino integral tem sido eficaz, uma vez que o aluno passa mais tempo estudando na escola e terá melhores condições para entrar em uma universidade e no mercado de trabalho.”, destacou.

Em relação aos profissionais, Venâncio explicou que as aulas são ministradas por professores do quadro efetivo de concursados da rede estadual que passaram por um processo seletivo de análise de currículo. Com a greve, três professores aderiram ao movimento grevista, e foram substituídos por monitores.

“Como alguns professores entraram em greve, foram encaminhados monitores para substituírem estes profissionais para que o calendário não fosse atrasado. Temos assim, três professores de análises químicas, quatro do eixo de turismo e16 professores da rede básica, sendo que três estão afastados por causa da greve.”, explicou.

Professores ainda resistem a método e alunos falam em rotina “puxada”

Para o coordenador Jeorge Venâncio, a principal dificuldade encontrada no ensino integral é a adaptação de alguns professores no novo sistema. “O sistema integral ainda é recente aqui na escola, tem apenas poucos meses. Mas o que percebemos como principal dificuldade da organização do trabalho pedagógico é a resistência de alguns professores em se adequar à nova concepção de escola. Temos muita coisa para melhorar e redefinir, mas nós precisamos de mais escolas neste formato em Alagoas”, disse.

Além dos professores, os alunos também precisam se acostumar com a rotina. Joyce Helen diz que no início achou mais cansativo, mas que agora está acostumando. “No começo era mais cansativo. Hoje varia, alguns dias são mais que outros. Tem dia que é muito puxado”, disse a estudante.

Sobre aulas vagas, os alunos contaram que as têm raramente. “É difícil a gente ter aula vaga. É o que a gente menos tem. Só fica aqui quem gosta de estudar. O que mudou um pouco foi que com a greve, alguns dias, a gente sai mais cedo”, disse Yasmin Caldeira. “Fazem de tudo para a gente não ter aula vaga. Tem dia que eu chego em casa muito cansado”, completou o estudante Antônio Alves.

Para Fernanda, além de aprender, a escola é um espaço de integração. “Eu gosto daqui por ser uma escola onde tem mais integração, uma boa conversa, é amigável”, disse Fernanda Samires.

De acordo com a Secretaria de Estado da Educação (SEE), as escolas selecionadas para receber o regime de tempo integral deverão optar por dois modelos: ensino médio articulado com educação profissional e tecnológica ou associado a uma jornada ampliada com atividades de iniciação cientifica, esportes e atividades culturais. A jornada diária será de 9h, num total de 35 a 50 horas semanais.

A implantação do sistema integral do ensino médio se dará de maneira gradativa. Em 2016, será apenas a turma do 1º ano, chegando ao 2º em 2017, até que em 2018 todo o ensino médio da escola implante o regime. Para 2017, a meta do SEE é que o regime seja ampliado para 26 escolas em todo o estado.

Segundo a assessoria da Educação, as 13 escolas passarão por um período de formação, onde farão o redesenho curricular da unidade a partir das orientações das CREs, tendo até o final de novembro para realizar as adequações, encaminhadas pela Comissão Central da Secretaria da Educação em seus planos de trabalho.

Indefinições motivam críticas e sugerem improvisoem programa de ensino integral

“Não se faz educação em tempo integral só dizendo que tem uma escola. Ou tem o recurso humano, fundamental para que a educação possa se valer, ou vamos continuar fazendo de conta que se está fazendo educação. Não dá mais para Alagoas estar com improviso”. A preocupação é de uma das dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Alagoas (Sinteal), Girlene Lázaro. O temor da secretária de formação sindical da entidade diz respeito à falta de informação do Estadode como se dará a atuação profissional nas escolas que vão implantar o ensino integral, se por professores admitidos em processo seletivo, ou por monitores, o que preocupa ainda mais os trabalhadores da educação.

De acordo com a Secretaria de Estado da Educação (SEE), até o momento, não há definições sobre como se dará e quais os profissionais que vão trabalhar nas escolas. A expectativa é de que o governador Renan Filho e o secretário de Educação e vice-governador Luciano Barbosa (PMDB) falem sobre o assunto quando for anunciada, durante cerimônia oficial, a implantação do ensino integral nas 13 escolas, que deve acontecer nesta segunda-feira (31).

“O governador Renan Filho deve anunciar quais os profissionais que atuarão nas escolas na próxima segunda-feira. No caso da Escola Marcos Antônio [que implantou o sistema integral em março deste ano], os professores efetivos fizeram processo seletivo. Eu não sei ainda o que será feito para essas próximas unidades, se serão os professores da própria escola ou se através do processo seletivo, mas isso deve ser divulgado no anúncio oficial da implantação do sistema nas escolas.”, informou a Secretaria de Estado da Educação (SEE), por meio da assessoria.

Como a expectativa do Governo Estadual é de que as escolas adotem o ensino integral no primeiro semestre de 2016, o Sinteal questiona a falta de informações mesmo diante do pré-anúncio. Para o sindicato, a primeira coisa a se fazer ao construir uma escola é pensar em professores e funcionários da rede para evitar terceirizações.“Se você está criando mais escolas, minimamente, tem que pensar em professores e funcionários da rede. Não dá mais para ficar com contratação, terceirização que isso não vai dar a resposta que a sociedade de Alagoas precisa. As escolas carecem de professores.”, disse a dirigente do Sinteal.

Sinteal condena “currículo banguela” e falta de professores em demais escolas

Sobre as novas escolas em tempo integral, o Sinteal elogiou a iniciativa, mas ressaltou a necessidade de haver planejamento. “O que nós queremos é que o governo, de fato, tenha um planejamento real, que mantenha o pé no chão e dialogue com aqueles que fazem a educação. É importante que sentemos juntos para pensarmos todas as ideias que o Governo está apresentando e para discutirmos as propostas que nós temos. Não pode ser uma coisa da cabeça de alguns iluminados, com a justificativa de que é ‘uma proposta de governo e vamos fazer’”, questionou a dirigente sindical Girlene Lázaro.

A secretária de formação sindical do Sinteal questionou a falta de investimentos do Governo do Estado e o problema de evasão escolar. “Investir é uma das políticas do secretário de Educação, mas a gente fica se questionando: qual é o planejamento que este governo está fazendo para ter educação de tempo integral? Entra ano e fecha ano letivo e os alunos saem com um vácuo no currículo, o que o Conselho Estadual de Educação chama de currículo banguela. É preciso que a proposta de tempo integral saia da linha de intenção e se concretize. Hoje uma das principais reivindicações nossas é a reorganização da rede para que nós tenhamos professores de todas as disciplinas e em todas as escolas”, ressaltou.

O Sinteal destacou ainda a carência de professores e a precarização do trabalho desses profissionais. “Mesmo com os monitores, que precisam estar acompanhados dos profissionais, há uma precarização e carência de professores. Sem falar que o monitor não tem hora atividade para preparar o material de sua aula, diferente do professor da ativa, que tem em sua jornada, um horário para planejamento, preparação de material, correção de trabalhos e provas. Enfim, é uma situação diferenciada. Recentemente nós fomos a uma escola em Santana do Ipanema e encontramos 32 monitores. Então já é possível imaginar a necessidade que as escolas têm de professores”, explicou.

Sem anúncio de convocação para os concursados da Educação, Girlene comentou sobre a incerteza dos profissionais que devem atuar nas escolas em tempo integral. “Como o governo está anunciando para as escolas integrais, não há informação oficial se todos os concursados existentes serão chamados, ou se haverá processo seletivo para que eles ensinem nessas escolas.”, finalizou.

Para Jairo Campos estruturar educação continua sendo promessa de campanha

Ao destacar vantagens do ensino integral, o presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE) e reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Jairo Campos, destacou as oportunidades que os alunos têm nas escolas e ressaltou a necessidade de investimentos para que a educação deixe de ser apenas uma promessa de campanha.

“A escola em ensino integral é importante para que os alunos tenham maiores oportunidades para estudar e ter acesso à informação. No entanto, é preciso que sejam oferecidas condições de infraestrutura, de formação profissional, de material didático, enfim, na educação como um todo, afinal, investir na educação continua sendo uma promessa de campanha”, finalizou Campos.

Sinpro quer valorização profissional

Assim como a redepública estadual, também existe a preocupação da rede privada com a valorização do professor.Para o presidente do Sindicato dos Professores de Alagoas (Sinpro), Eduardo Vasconcelos, que representa a rede privada, duas são as preocupações do sindicato em relação ao ensino integral: a valorização do professor, formação profissional e salarial, e o preço da mensalidade dos estudantes.

“O ensino integral nos leva irremediavelmente a duas questões: o preço da mensalidade e à valorização do professor. É preciso considerar se o aumento da mensalidade vai ser revertido para a valorização do professor, em relação à hora aula e à formação, ou se vai ser um faz de conta e, simplesmente, aumentar a jornada por aumentar. Nossa preocupação é saber se as escolas vão querer investir para a formação integral, pois, os investimentos serão maiores e querendo ou não, o salário precisa aumentar, seguindo a mesma proporção”, ressaltou.