“Como nossos dados foram para lá?”. Esse é maior questionamento das irmãs Naudiene da Silva Quintino e Sandra da Silva que tiveram a vida exposta em rede nacional por ter seus nomes incluídos na folha de pagamento da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE), sem nunca ter entradona Casa de Tavares Bastos, nem ter conhecimento do esquema de corrupção. Como mostrou reportagem do Fantástico do último dia 7, algum corrupto chegou a lucrar até R$ 25 mil em apenas dois meses, usando o nome de Naudiene.
Enquanto as autoridades investigam desde 2013 a reedição do esquema da Operação Taturana, a fraude executada dentro de algum gabinete da Assembleia resultou na suspensão de benefícios do Bolsa Família das lavadeiras, que já foram até cobradas por um fiscal da Receita Federal a pagar milhares de reais de imposto de renda.
Uma semana após o Fantástico mostrar que a Controladoria Geral da União (CGU) detectou a existência de diversos funcionários fantasmas na folha de pagamento do Legislativo Estadual, o CadaMinuto Press localizou as duas personagens para saber o que mudou em suas vidas, desde que descobriram a irregularidade durante uma reportagem da Rede Globo.
Sustentando a família com um salário mínimo, Naudiene trabalha há mais de 23 anos na Lavanderia Comunitária Cláudio Farias, no bairro do Poço, no Conjunto Santo Eduardo, junto com a irmã Sandra. “Nenhuma de nós duas conseguimos mais fazer o Bolsa Família e não conseguimos entender o porquê. Agora, deduzimos que pode ser por causa disso. A Sandra teve o dela cancelado e, depois, eu não consegui mais renovar o meu cadastro. O único lugar que demos nossos dados foi para o Bolsa Família”, relatou Naudiene.
As duas vivem de uma renda informal, já que nunca tiveram registro na Carteira de Trabalho e batalham diariamente para conseguir fechar o mês com um salário de R$ 788,00. “Até agora me pergunto como isso foi acontecer, porque nem carteira assinada eu tenho, trabalhei minha vida inteira lavando roupa, não sei onde fica essa Assembleia e ter meu nome usado dessa forma”, colocou Sandra, mostrando sua indignação de ter sua vida exposta dessa forma.
Através da auditoria da Controladoria-geral da União somente em dois meses “trabalhados” Naudiene recebeu pela Assembleia Legislativa uma quantia de R$ 25 mil referente a um cargo comissionado. A preocupação das irmãs é saber como toda essa situação será resolvida, principalmente, sobre o dinheiro, que até mesmo a Receita Federal afirma que elas receberam.
“Tem mais de um ano que veio um homem da Receita Federal aqui dizendo que a gente recebeu esse dinheiro da Assembleia e que a gente tinha que devolver esse imposto, mas como era que a gente ia devolver uma coisa que nunca teve”, detalhou Naudiene.
“Se eu tivesse recebido esse dinheiro, não estaria faltando os dentes”
Mais indignada com a exposição causada pela inclusão dos seus nomes da folha de pagamento, Sandra da Silva não se deixou fotografar e mostrou para a reportagem as condições bastante precárias da infraestrutura do local, onde elas trabalham. Parte do telhado está escorada por um pedaço de madeira, que ameaça desabar e as ligações das lavanderias já estão bastante desgastadas.
Ao ser questionada sobre o fato de ter sido incluída numa lista de funcionários da ALE, sem trabalhar e nem receber, Sandra lamentou e disse que “o pior é que pessoas como a gente sofrem com esse povo”.
Segundo ela, a situação em que vive não tem dado oportunidade de sequer realizar um tratamento odontológico adequado e ainda quando busca atendimento através do Sistema Único de Saúde não consegue.
“Isso é realmente revoltante. Muita gente morrendo precisando e atendimento não tem. Nós já vivemos no aperreio. E ainda mais com uma coisa dessa, é demais! Ninguém veio aqui saber as condições dessa lavanderia que está quase caindo, só vem para dizer que a gente recebeu o dinheiro. Se eu tivesse recebido, não estava faltando os dentes”, protestou Sandra.
As irmãs não imaginavam a exposição de suas vidas para o Brasil inteiro, numa reportagem no Fantástico sobre corrupção. E estão incomodadas com as brincadeiras de que passaram a ser alvo. “A gente trabalha duro para ganhar dinheiro”.
Lavadeiras suspeitam que seus dados vazaram de sistema do Bolsa Família
A única possibilidade encontrada pelas irmãs para suspeitar sobre a forma como seus dados pessoais – número de identidade, CPF e endereço – chegaram até a Assembleia para ser usados no esquema é um eventual vazamento do cadastro no Bolsa Família.
Questionadas se já teriam trabalhado para alguma campanha eleitoral, quando costuma-se coletar dados para a realização dos pagamentos, ambas as lavadeiras garantiram nunca ter repassados seus dados para qualquer político. “A gente nunca pegou numa bandeira de candidato. Não temos nem condições, pois trabalhados até dia de sábado e é muito cansativo”, responderam.
Mesmo a Controladoria-geral da União e o Ministério Público Estadual (MPE/AL) estarem a frente da investigação sobre a existência de funcionários fantasmas na Assembleia Legislativa, as irmãs garantem que jamais foram notificadas para prestarem esclarecimentos sobre o caso. Segundo elas, os próprios clientes as orientaram a procurar um advogado para ter conhecimento sobre a investigação e saber os nomes foram incluídos.
“Nós realmente estamos sem saber o que fazer. As pessoas passam na rua brincam, dizem que querem dinheiro emprestado, perguntam por que a gente continua lavando roupa mesmo ganhando esse dinheiro, mas ficamos realmente preocupadas com tudo isso. Ontem mesmo minha pressão subiu e não sei nem por onde começar”, desabafou Naudiene.
Ainda sem saber onde e quem procurar, as irmãs afirmam que irão em busca de regularizar e esclarecer essa situação e, para isso já pensam em acionar a Justiça. “Nós precisamos tirar isso a limpo. Vamos através de um advogado saber como vai ficar, pois precisamos ter nossa paz de volta e também ter direito aos nossos benefícios que foram cortados”, salientou Nadiene.