Cerca de um milhão de pessoas – a maioria delas vestida com as cores do Brasil – tomam a avenida Paulista na tarde deste domingo (15) no protesto contra a presidente Dilma Rousseff.
Por toda a extensão, carros de som conclamam o público a se manifestar contra o governo. Em um deles, o locutor diz "Nós precisamos tirar o PT do poder e mandá-los para Cuba". Em outro, o grito é "Lula é criminoso e traidor". Um terceiro carro de som carrega uma grande cruz preta.
Entre o público, há famílias inteiras, muita gente empunhando cartazes "Fora Dilma" e até bandeiras da maçonaria. Dos prédios das regiões, sai o som de apitos e rojões.
"Hoje é um dia histórico para o Brasil. Vocês estão fazendo história. Estamos mulheres, crianças, homens, idosos, brancos, negros, todos aqui. É um dia histórico. Fora PT", disse um dos líderes do Vem pra Rua, um dos movimentos que organiza o protesto deste domingo. "Aqui estão os verdadeiros trabalhadores deste País! Ninguem aqui foi pago para vir, aqui vive o verdadeiro povo brasileiro", gritava. Ao lado do carro de som, o Vem pra Rua distribui cornetas para a população.
O casal Pablo de Nicola, 36 anos, e Luana Maciel, 25 anos, quer o fim da corrupção, mas não acredita que o impeachment da presidente Dilma acontecerá. "Não temos esperança de nada, nem em 2018". Para eles, o melhor partido no poder seria o PSOL. "Não somos a favor da intervenção militar. Democracia tem de continuar", diz Pablo.
Luana, que usava um óculos de sol RayBan, tirou o acessório ma hora de ser fotografada. "Tira, senão vão dizer que é elite. Se eu fosse elite, estaria em Miami, e não na Paulista tomando chuva", riu Pablo.
Em um grupo de 20 pessoas, entre familiares e amigos, a psicóloga Jossi Ruzene,48, estava com o filho, o estudante Giovanne, de 16 anos, para protestar contra o governo de Dilma. Os dois prepararam cartazes em cartolinas e vestiram camiseta com as cores verde e amarelo. "Sou apartidária. Estou protestando por um País mais digno. É uma vergonha o que a gente paga de impostos para ver o dinheiro sendo escoado no ralo das contas do governo", diz Jossi.
Giovanne completa a fala da mãe: "Ela prometeu que não iria subir os juros, mas foi a primeira coisa que fez". Os dois não acreditam no impeachment, mas dizem que a manifestação pode "dar um susto" na presidente.
A familia do metalurgico aposentado Nilton Vampel, de 73 anos, também compareceu. Cada um por seus motivos. Nitlon diz que veio protestar contra o corte nas aposentadorias. "Tiraram a pensão das viúvas", diz. O filho, Ricardo Vampel, protesta pela reforma politica e diz não acreditar no impeachment. "O PT tem muita força e um impeachment seria ruim para o Brasil. Iria agravar a crise".
Quando questionado sobre o fato de o protesto desta tarde estar sendo organizado pela elite, ele é categórico. "Estão querendo promover uma guerra de classes. Mas a classe média briga mais. A população mais carente não reivindica nada."
A pequena Luana, 3 anos, nao entende muito bem o que acontece, mas faz parte do exército mirim que comparece ao protesto. "Ela trouxe a tinta guache e começou a pintar", sorri, orgulhoso, o pai da garota, o administrador Felipe Guedes, 38 anos. "Por enquanto, ela só esta pela brincadeira".
Guedes é um dos milhares que estiveram nos protestos contra Collor, na década de 1990. Ele diz não aguentar mais roubalheira, mas opta por ser cuidadoso com seu posicionamento político atual. "Nao sou a favor do impeachment, ao menos por enquanto", diz ele, que sorri ao pensar no futuro da filha. "Se ela for de esquerda lá para frente, vou aceitar. Afinal, é minha filha."
Apesar da garantia dos pais de que possuem uma postura politica à frente de sua idade, os pequenos Stéfano e Rafael Costa, 8 e 6 anos, respectivamente, não sabem muito bem o que acontece. "Nao sei", responde Stefano quando perguntado sobre o motivo para estar chegando à Paulista batendo em uma panela. O pai, o engenheiro Marcelo Costa, 40 anos, o cutuca. "É contra a Dilma!".
No ombro do pai, Rafael observa tudo com o olhar assustado. "Mas eles sabem exatamente porque estão aqui", garante a mãe, a arquiteta Zoé Gardini, 40 anos. "A gente conversa muito com eles sobre corrupção, sobre a situação caótica dos hospitais, das escolas, da seguranca. Na verdade, foram eles que insistiram para que viéssemos."
Vim de graça
"Ninguém está aqui por mortadela", diz um dos organizadores do ato contra o governo Dilma. A fala ganha aplausos dos manifestantes que gritam em coro "eu vim de graça". A frase estampa diversos cartazes feitos a mão.
Desde sexta-feira(13), dia da mobilização em favor do governo, um vídeo em que um manifestante com a camisa da CUT (Central Única dos Trabalhadores) afirma ter recebido R$34 para participar do ato circula pelas redes sociais e watsapp.
"Eu vim de graça. Esta manifestação é legitima", diz a designer Ilza Domingues, de 32 anos, com o cartaz "Aqui não tem vale-protesto". Ilza diz ser contra o impeachment. "Se o Michel Temer assumir, vai continuar a mesma coisa. Se tiver novas eleições, o Lula ganha, infelizmente".
Capa de chuva e vuvuzela
Há quem aproveita o protesto para movimentar a economia informal. É o caso do marreteiro Juscelino Moreira Guimarães, de 46 anos. Ambulante há 30 anos, ele se orgulha em dizer que conseguiu pagar a faculdade de Direito para para o filho com o trabalho que realiza nas ruas.
Neste domingo, ele bolou uma promoção para duplicar as vendas. O cliente que comprar uma capa de chuva, ganha uma vuvuzela de brinde. O kit sai por R$10. Ele disse que investiu R$90 nas capas, as vuvuzelas são sobras do Copa do Mundo.
Os produtos da Copa também fazem sucesso no carrinho estrategicamente localizado na saida do Metrô Trianon-Masp. Francisco Chagas, de 60 anos, diz que espera ganhar R$ 1.000. Em seu carrinho há cornetas, sombreiro, peruca nas cores verde e amarelo, além da tradicional bandeira. "Devia ter trazido apito. Estaría vendendo muito mais", diz.
Sobre o protesto, ele diz querer o bem do Brasil. "Com Dilma ou sem ela", afirma, entre um cliente e outro.










