Dar check-in em restaurantes chiques ou postar fotos de pratos sofisticados está na moda: basta entrar nas redes sociais para começar a salivar. No entanto, seja na periferia ou no bairro nobre, o produto final – com exceção da conta – é o mesmo: comida. E aquela que é feita com bons temperos e boa dose de carinho também pode ser encontrada fora dos grandes e badalados eixos gastronômicos da capital paulista. Foi pensando nisso que o estudante Matheus Oliveira da Silva, 21, criou o Prato Firmeza, uma espécie de guia Michelin da periferia.

Morador do Parque Santo Antônio, localizado na zona sul de São Paulo, Matheus é apaixonado por culinária e já a definiu como objetivo profissional. Em entrevista ao Terra, ele listou os "Top 5" restaurantes da periferia, com direito à crítica sobre o local, preços e destaques do cardápio. Confira as escolhas de Matheus na galeria e, abaixo, veja os principais trechos da entrevista.

Terra: Como nasceu a ideia do guia?
Matheus Oliveira da Silva: O guia é uma colaboração minha e da empresa em que eu trabalho, a Énois, que é uma escola de jornalismo e comunicação voltada para jovens da periferia. O pessoal de lá sempre soube da minha paixão pela gastronomia e, juntos, achamos uma forma de unir essa paixão com o projeto deles de comunicação e a nossa responsabilidade e preocupação social. Assim nasceu o Prato Firmeza, que é o nome oficial do guia.

Terra: E como ele é publicado?
M.O.: Todas as criticas são publicadas no site do Catraca Livre, bem como todo o conteúdo do Prato Firmeza. Estamos trabalhando agora na criação de uma página no Facebook chamada Gorventuras Culinárias, em que vamos dar dicas e receitas voltadas para o público jovem.

Terra: Como você seleciona os lugares para avaliar?
M.O.: Sugestões de amigos, lugares que eu conheço e até mesmo nas “andanças” pela cidade. Eu procuro restaurantes na periferia que têm algum diferencial, pode ser o preço, a qualidade da comida, o ambiente, o atendimento, etc. A ideia do projeto é mostrar que os restaurantes da periferia têm esse diferencial.

Terra: Quantos lugares já avaliou/quantos avalia por mês?
M.O.:  Até agora cerca de 12. Nossa meta mensal é de 6 estabelecimentos.

Terra: Você costuma visitar restaurantes caros também?
M.O.: Não. O público que nós tentamos atingir são estudantes ou jovens que entraram no mercado faz pouco tempo. Então, o nosso objetivo são restaurantes de baixo custo.

Terra: Qual o prato mais caro que já comeu? Acha que a experiência valeu?
M.O.: O mais caro foi em um restaurante chamado Dona Linda, de comida por quilo, e custou R$ 23. Sem dúvida alguma valeu a pena. Refeição muito bem feita, saudável, bem equilibrada e com preço mais do que justo. Considerações especiais à tajine de berinjela deles, que é fantástica.

Terra: Quando se fala em experiência gastronômica, o que você acha que tanto um restaurante renomado quanto um da periferia têm para oferecer?
M.O.:  Ambos oferecem o que eu chamo de experiência sensorial. Todo restaurante estimula o sentir dos seus clientes, desde o sentir a companhia de quem está conosco; sentir o sabor, textura e aroma da comida e as vezes até mesmo sentir o quanto é importante você ter um tempo para si mesmo e aproveitar uma refeição sozinho. Restaurante e comida têm que fazer a gente se sentir bem.

Terra: Como está sendo a repercussão das suas críticas gastronômicas?
M.O.: Está sendo bem positiva e são bastante aceitas pelo público. As pessoas, ao lerem a crítica, sentem vontade de conhecer o restaurante e tiram da frente dos olhos aquele preconceito que se tem quando o assunto é comer na periferia.

Terra: Na sua opinião, por que vale a pena sair dos grandes centros ir até a periferia para conhecer um pouco mais da gastronomia destes bairros?
M.O.: Pelo mesmo motivo que vale a pena você ir em qualquer restaurante: comida boa, uma experiência sensorial diferente do que você está acostumado, pela experiência em conhecer algo novo e por praticarem um preço justo pelo alimento.?

Terra: Como começou seu interesse por culinária e quais são seus objetivos nesta área?
M.O.: A paixão nasceu quando eu tinha 13 anos. Minha mãe é técnica em enfermagem e trabalhava em dois empregos na época, ficava fora de casa o dia todo. As tarefas da casa acabaram ficando para o meu irmão e eu. Enquanto ele tomava conta da limpeza da casa eu ficava encarregado da comida. Eu me divertia demais cozinhando, mesmo que fizesse apenas o arroz, feijão e carne. Com 16 anos eu fiz um projeto na escola e foi a partir dele que nasceu a vontade de trabalhar com comida. Meu objetivo, neste momento, é conseguir trabalhar em um bom restaurante e com um bom chef e aprender o máximo possível. Meu grande sonho é ter meu próprio restaurante-fazenda de comida Ítalo-Caipira.