Indeciso entre a chuva e o sol. Assim amanheceu o dia 17 de julho de 1997, data que há 16 anos entrou para a história de Alagoas. Se nos termômetros a temperatura era amena, o clima era de guerra no Centro, principalmente em frente à sede do Poder Legislativo Estadual, na Praça Dom Pedro II, que havia sido tomada pelo Exército.
 
De um lado, os soldados e os deputados “sitiados” no prédio da Assembleia Legislativa. Do outro, policiais militares e civis, servidores públicos e demais manifestantes exigindo o afastamento do governador Divaldo Suruagy. Em comum, os dois grupos tinham, literalmente, o poder de fogo: pistolas, revólveres, metralhadoras e granadas.
 
A cena que por pouco não terminou em um banho de sangue, poderia se repetir hoje? O CadaMinuto ouviu testemunhas e estudiosos sobre o assunto, para tentar traçar um paralelo entre o 17 de julho e os protestos que eclodiram em todo o País no mês passado, especialmente o que reuniu cerca de 10 mil pessoas em Maceió.
 
“Dificilmente teríamos hoje uma repetição desse período constrangedor para as famílias e para o próprio Estado, que sofreu intervenção federal branca. Os funcionários públicos jamais aceitariam tantos meses de salários atrasados”, destacou Luciana Santana, cientista política e professora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).


 
Entre as razões que contribuem para que o episódio não se repita, ela cita o amadurecimento da democracia, órgãos de controle mais atuantes e o surgimento das redes sociais como ferramentas poderosas de mobilização.
 
A cientista política lembra que, em 1997, a situação era muito concreta: as pessoas queriam a saída do governador do cargo e uma solução para os atrasos salariais que levaram milhares de alagoanos ao desespero. O 17 de julho foi o resultado de um contexto político insustentável.
 
Já as manifestações deste ano não foram isoladas em Alagoas, nem capitaneadas por grupos específicos, mas por um público heterogêneo que saiu às ruas cobrando desde mais qualidade nos serviços públicos até o fim da corrupção e do preconceito. Em comum entre os dois momentos históricos, a professora resume: ambos foram de extrema importância para o Estado e representaram a busca por mudanças políticas.
 
 
Figura chave no movimento de 17 de julho, a vereadora Heloísa Helena (PSOL) era líder da oposição na ALE como deputada eleita pelo PT e participou ativamente dos movimentos que culminaram com o afastamento de Divaldo Suruagy. Ela explica que, em 1997 o clima era infinitamente mais tenso do que nos protestos registrados este ano.

“Havia tanques do Exército tentando impedir a manifestação e policiais civis e militares armados, inclusive com granadas. Ouvi de um general que, se um dos rapazes dele tombasse, o Exército iria explodir o Quartel da Polícia Militar, no Centro”, contou.
 
Do lado de fora, policiais - alguns encapuzados - tentavam convencer a então deputada a deixar o prédio para que pudessem atirar granadas na ALE. Lá dentro, Heloísa também presenciou atitudes dramáticas: de hostilidade, tensão, ameaças e covardia. “Não me sentia parte da Casa, mas não imaginava chegar ao ponto de ter uma metralhadora apontada por um deputado no meu rosto, ameaçando que o meu sangue seria o primeiro a ser derramado”.


 
Para a vereadora, mesmo com indicadores sociais tão baixos e a insegurança em alta, as condições de hoje não são tão dramáticas quanto as que culminaram no afastamento do governador Divaldo Suruagy: “Naquela época, o derramamento de sangue só foi evitado pela saída do governador, mas bastava alguém ter instigado um pouco mais para que uma tragédia tivesse ocorrido”.
 
Ainda em relação aos protestos deste ano, ela diz: “Fico feliz com as pessoas que acordaram através das redes sociais, mas eu nunca dormi. Sempre marchei, independente da internet”.
 

Em 1997, o major Wellington Fragoso, presidente da Associação dos Oficiais Militares de Alagoas (Assomal), era primeiro-tenente e integrava o seleto Pelotão de Choque – hoje Bope - da PM/AL. Ele estava entre os cerca de 100 homens que, reunidos no Grupamento Policial Militar do Trapiche da Barra (GPMTB), poderiam ser acionados a qualquer momento para enfrentar os colegas na Praça Dom Pedro II.

“Estávamos torcendo para não sermos convocados. Se o nosso grupamento tivesse sido chamado, não sei se a gente teria ido, pois torcíamos pelos manifestantes. Estávamos no mesmo barco, tínhamos sofrido com o suicídio de alguns colegas”, relembra o major, acrescentando que o sentimento de humilhação era maior entre eles que não podiam participar do movimento.

“Não tínhamos o que comer, nem dinheiro para que nossos filhos pudessem ir de ônibus para a escola... Não consigo imaginar que algo assim pudesse se repetir hoje. Acho que, bastaria um mês de salário atrasado para que tirássemos o governo do poder”, avalia.

Com a população mais informada e consciente, a mobilização começaria com os estudantes, que cobrariam educação, transporte público e saúde de qualidade. É assim que um coronel que integrou o Gabinete Militar do governo Suruagy, imagina um protesto, em 2013, similar ao 17 de julho. O militar, que na época era major, preferiu não se identificar.

“O 17 de julho foi a culminância de cerca de dois anos e seis meses de greves e protestos na porta do Palácio. Se o movimento ocorresse hoje, acho que seria pior, com uma multidão mais forte e talvez até mais agressiva. Agora todo mundo tem informação e esse acesso gera revolta... Também nunca achei que as redes sociais teriam tanto poder de mobilização”, avalia.

Voltando ao passado, ele relata o episódio onde um PM ameaçou se matar dentro de um dos banheiros do Palácio. “A mulher dele abandonou a casa e deixou as duas filhas pequenas, que estavam sem comer. Depois de quebrar vários objetos no gabinete militar, ele fechou a porta e disse que atiraria nele e em quem tentasse entrar”, conta, destacando que a greve branca iniciada pelos policiais militares foi determinante para o movimento.


Mais de 50 mil servidores públicos com até oito meses de salários atrasados, policiais militares em “greve branca”, adesão em massa ao Programa de Demissão Voluntária (PDV), deixando serviços essenciais paralisados e o Estado atolado em dívidas. Foi nesse cenário de crise financeira e institucional sem precedentes que o governador Divaldo Suruagy (PMDB) – então em seu terceiro mandato - se afastou do cargo em 17 de julho de 1997.

Nas eleições seguintes, o ex-governador se candidatou a deputado federal, ficando na terceira suplência. Ele chegou a assumir o cargo por alguns meses após o assassinato da deputada Ceci Cunha e da prisão de Talvane Albuquerque que, em 2012, foi condenado em júri popular pelo homicídio de Ceci e mais três pessoas.
A rápida passagem pela Câmara Federal foi a despedida de Divaldo Suruagy da vida política.