Às vésperas do aniversário da “revolução” militar que afundou o Brasil em mais de duas décadas de censura, limitações, perseguições e violações a direitos internacionalmente assegurados aos cidadãos, vejo com muita preocupação esse “esquecimento” generalizado das garantias conquistadas a longas e duras lutas por muitos militantes de esquerda que sonhavam com um Brasil livre, igual e justo para todos.

Há, sim, quem sustente que na verdade havia apenas uma luta por poder. Os ditadores militares não queriam uma ditadura comunista, por isso a tal “revolução” de 1964, mas que os militantes de esquerda – comunistas – sonhavam mesmo era com a liberdade que julgavam benéfica à sociedade socialista, submetendo o povo ao que eles e só eles entendiam como “boas verdades”, ou seja, a ditadura deles próprios.

Ora, não sou afeita a suposições... e, se a revolução não tivesse sido a militar, mas a comunista? Viveríamos hoje como os cubanos? Temeríamos os blogueiros? Atacaríamos a liberdade das palavras ditas, fossem verdades ou mentiras?

Ao Regime Militar sobrevivemos, digo, os brasileiros, não todos, e é justamente em homenagem àqueles que lutaram para que o Brasil voltasse a escolher seus representantes democraticamente e pudessem manifestar seu pensamento com a segurança dos que falam para despertar e com o encargo de saber-se responsável por tudo o que diga, é que não “abro mão” dos meus direitos, aqueles que a Constituição do Brasil, aquela de 1988, pós-regime ditatorial, me assegura. Afinal, se por um lado nossa Constituição nos assegurar dizermos o que quisermos, o que pensarmos e não sermos perseguidos por isso, também protege aqueles que são alvo da fala/publicação de outrem a ter seu dano reparado na mesma medida.

Entretanto, a sociedade em vez de aprender com sua própria história parece procurar limitar-se a si próprios (uma redundância justificada pelo absurdo do que se vê).

Ora, mais que sabido que convenções internacionais que o Brasil é signatário e que alcançaram o status de cláusula pétrea (praticamente impossível de mudar) nos – a todos nós: homens, mulheres, cidadãos brasileiros – assegura o direito de não produzir provas contra nós mesmos. Dispor de um direito como este é dar um tiro não no próprio pé, mas na própria cabeça.

Em nome da criminalidade que cresce vertiginosamente, somos levados a, desesperadamente, aceitar as invencionices governamentais que parecem agir não com planejamento e organização, mas levados por uma onda que quando atinge a rocha desperta para a hora da ação, qualquer ação que seja, mas que produza resultados imediatos (como se realmente produzissem).

Vejo com extremo incômodo pessoas esclarecidas acreditarem que o “bafômetro” é a arma dos motoristas conscientes, que se submeter ao teste de alcoolemia é uma forma de mostrar que anda corretamente e que todos que se negam a fazê-lo na verdade são cúmplices da bandidagem que sai por aí a causar crimes de trânsito.

Ora, isso além de ser de um egoísmo social absurdo, é também de uma irresponsabilidade absurda. E nem adianta dizer que irresponsável sou eu por dizer o que penso – se você acha isso, já é hora de rever seus posicionamentos sociais. Mas não consigo admitir que por causa da incompetência de décadas, séculos de má gestão pública eu viva num país sem consciência social, sem comportamento ético e que prefere o jeitinho brasileiro ao respeito aos direitos dos outros.

Não vejo como eu defender o meu direito, direito este assegurado por convenções internacionais e não produzir provas contra mim mesma, assim como me insurgir contra aqueles que querem que os bandidos as produza – pois são bandidos – vai contribuir para o continuísmo da criminalidade. Se eu admitir que violem os direitos dos outros estarei admitindo que amanhã sejam os meus, e quanto mais poder o Estado tiver sobre minhas liberdades mais fácil será que eles ajam – em nome da lei – com abusos, como aconteceu no ano passado, quando a casa de um professor foi invadida por policiais armados e munidos de mandado judicial e, depois de ter sido moralmente humilhado, verificou-se o engano, mas aí ele já passou pelo dano do engano.

E ainda tenho que ouvir gente a dizer que “se fosse nos EUA eu não me negaria ao bafômetro”, realmente não me negaria, mas eu só seria “obrigada” a fazê-lo depois de ter praticado alguma infração, mas o Brasil não conta com pessoal suficiente a fiscalizar as ruas e parar aqueles que dirigem perigosamente, preferem armar blitze que mais se assemelham a shows pirotécnicos com uma dúzia de policiais ostentando armas de guerras, como se cada carro parado naquela “arapuca” pertencesse a um meliante perseguido pelas grotas tomadas pelas drogas.

Ora, meus amigos que fazem o bafômetro, continuem fazendo, “longe de mim” pedir-lhes para que não o façam e passem pelo constrangimento de serem recolhidos como bandidos quaisquer – que por sinal não são recolhidos, pois se fossem não viveríamos o caos que vivemos na segurança pública. Mas aproveito este espaço para expressar o que penso e entre meus pensamentos minha indignação, pois no Brasil é assim, somos vítimas de uma vida inteira de negligência com a educação e a consciência moral coletiva, e agora somos prejulgados e pré-condenados ao pararmos numa blitze.

Partem do pressuposto que todos são culpados e aqueles que optam por provar sua inocência consegue mudar o pensamento pré-conceituoso do agente da lei, aquele que goza de fé pública e entenderá sua recusa como prova de confissão.

Sou a favor da direção consciente: “bebeu passe a chave”, mas não sou a favor da “lei seca”, reputo-a inconstitucional e afronta diretamente Tratados Internacionais de Direitos Humanos.

Por falar em direitos humanos, abrindo mão dos seus direitos e dizendo que Feliciano não os representa? Ah, tá!!