Ao que tudo indica, o último dia de Carnaval baiano da forma como ele se apresenta foi na terça-feira (12). Uma anunciada reforma estrutural que a prefeitura promete encampar já a partir da Quarta-Feira de Cinzas vem a reboque de uma nova onda musical que propôs um pensamento diferente sobre a folia: mais conceitual e artístico, sem esquecer de que a festa também tem a sua configuração de negócio.

Capitaneiam esse processo artistas como Marcia Castro, Baiana System, Juliana Ribeiro, Mariella Santiago e Lucas Santtana, que se juntaram à velha guarda da axé music e de outros Carnavais, como Luiz Caldas, Gerônimo, família Macedo, Moraes Moreira, Paulinho Boca de Cantor, entre outros, para tentar abalar as estruturas do mainstream baiano, com ensaios pré-Carnaval lotados e participação em blocos, trios independentes, palcos e outros espaços que chamaram a atenção durante a folia.

Juntou-se a esse grupo revelações que têm o DNA do axé, mas estão mudando o ritmo por dentro, como Saulo, ex-banda Eva, Magary Lord, e a já revelação do Carnaval 2013, a banda Filhos de Jorge. Esse movimento traz para a ordem do dia a preocupação com a dimensão cultural da festa que, de acordo com os "cabeças" dessa nova onda, andou relegada a segundo plano por conta da indústria do entretenimento.

“Ou se começa a discutir isso seriamente, ou o Carnaval vai acabar”, sentencia a cantora Marcia Castro, principal expoente dessa safra de renovação. “E esse movimento, que não se constitui ainda como tal, está sendo espontâneo, é o reflexo de uma insurreição cultural ao jeito como as coisas vêm acontecendo. Sem isso, a folia vai virar uma festa impessoal, como uma grande rave”.

Castro é a mais nova cara dessa nova música baiana. Superarticulada, conhecida fora do Estado, tem dois CDs lançados e esteve à frente do Pipoca Moderna, série de ensaios que deu o que falar na capital baiana, realizado no Clube Fantoches – o espaço foi escolhido também no intuito de promover uma revitalização do local, antes um conceituado clube onde concorridos gritos de Carnaval aconteciam. E até isso é, para Marcia Castro, uma forma de se colocar politicamente face às mudanças no Carnaval.

“Do jeito que as coisas estão, se suprime o espaço da ludicidade, de revelar a cultura que temos, que é a base do Carnaval. Este modelo de Carnaval na Bahia, que já dura três décadas, está desgastado, e o pessoal está ansiando por coisas novas. O que nós estamos fazendo, agora, é música brasileira para dançar”.

Armandinho Macedo, da família Macedo, herdeiro da guitarra baiana – seu pai, Osmar Macedo, a inventou com o amigo Dodô – e um dos precursores do Carnaval, também vota pela mudança de modelo. “No Carnaval da Bahia não tem espaço para outras coisas, só se insiste no que faz sucesso, e isso vai torná-lo cada vez mais vazio”, critica. Para ele, as reformas estruturais estão intrinsecamente ligadas à discussão cultural sobre os novos caminhos do Carnaval baiano.

“Isso de lugar na fila, por exemplo, não deveria haver. Esses espaços deveriam ser das entidades carnavalescas. Não tem sentido de ser como é, um negócio. Por isso os empresários contratam artistas de fora, que estejam na mídia, como os sertanejos, para fazer o circo continuar. E isso vai descaracterizando o Carnaval, tirando espaço dos carnavalescos baianos”.

Axé sem novidades

“Este é um momento decisivo em que ou se renova, ou o processo de extinção vai ser irreversível”, coloca o presidente do órgão municipal Fundação Gregório de Mattos, o também dramaturgo e diretor de teatro Fernando Guerreiro. Ele aponta que, para além dos processos estruturais e das discussões culturais, o Carnaval precisa ser inclusivo.

“O modelo acabou empastelando a festa, e tudo virou uma repetição sem fim. A ação municipal pretende melhorar os espaços para as manifestações culturais populares, democratizar os recursos e os horários dos desfiles – a famosa fila”.

Para além do reordenamento institucional e do desgaste do modelo propriamente dito, Guerreiro chama atenção para o fato de que não surgiu uma nova geração da axé music para levar adiante o legado do ritmo. “A última grande novidade que apareceu foi Claudia Leitte, mais ninguém. Fora, estão surgindo pessoas interessantes, a exemplo de Magary Lord. E isso começa a pesar no bolso dos empresários. A renovação vai passar por aí, também, pela busca de um novo pote de ouro”.

A produtora Flora Gil, que toca o camarote Expresso 2222 por 15 anos, opina que o Carnaval baiano, na verdade, está acomodado. “Quem faz a festa se acomodou a um modelo fácil, sem criatividade. Tem que ter criatividade para vender, para sobreviver, para continuar. Tem que inovar o modelo, sim, e acho que essa inovação já começou, tá pulsando, aí”, aposta.